A minha mãe fez pão.

Hoje (ainda) é dia 20. Ontem falei com a minha mãe. Está segura e nada lhe falta. Prometeu não sair mais de casa e eu preciso de acreditar que não sairá. Pode ter pão fresco todos os dias. O meu irmão vive a cinco minutos (a pé) da sua casa e a meio caminho está a padaria. Quase no fim diz-me, com um sorriso rasgado na voz: — “Hoje fiz pão! Muito. Há tanto tempo que não fazia…”

Respirei. Quis tanto estar lá! E consegui dormir.

Hoje eu fiz pão.

Que disparate! Tenho tanto pão bom acabado de comprar e já a congelar.

Mas fiz pão. E tomei decisões para o futuro. 

Abro o Facebook depois de horas e horas ao telefone.

Muitos cozinheiros estão em casa. Fizeram pão.

Eis o sinal de que tudo vai ficar bem!

As cabeças, os corações, as mãos e as almas acordaram e meteram as mãos na massa. É disso que se trata esta coisa quase irracional de ir a correr fazer pão como se disso dependesse a sobrevivência. E depende. É uma acção do que somos na alma. Fazemos o nosso próprio pão, alimento da alma, com a alma. E seguimos.

Resistimos. Agimos. Sabemos.

Sabemos sempre mais quando desligamos o neurónio e ligamos aquilo a que costumo chamar “fígado” (não sei porquê mas é onde imagino o meu “centro”, uma coisa quase animal, a essência, sei lá). 

É por isto que vai correr tudo bem — voltamos a ser pessoas.

São estas as — TODAS — que vão recomeçar. Reconstruíram-se e estão mortinhas por começar a construir porque reconstruir já não é possível. Tudo é novo e elas também. E tudo o que farão daqui para a frente será melhor.

Eu sei, com a mesma alma, que todos eles quiseram dividir o pão que fizeram quando o tiraram do forno.

Tudo é maior e melhor quando partilhado e essa é a essência de ser cozinheiro.

Siga a vida, que temos pressa!