Não quero morrer.

Não quero que ninguém me morra.

Um dia, a propósito de amores e desamores, um irmigo (amigo-irmão) disse-me que eu sou demasiado intensa. Talvez seja. É o que sou, para o bom e para o mau. Vivo intensamente, sim.

Tenho uma profissão que junta amor e paixão, dois filhos que, além de amar, admiro e um bom punhado destes irmigos. Um tesouro, portanto. Foi-me dada a oportunidade de parar, olhar em volta e olhar para dentro de mim. Surgiu uma vontade ainda maior de viver. Tenho tanto por fazer e agora com energia e consciência renovadas, agigantadas. É nascer de novo mas já adulta. 

Não, não quero morrer e estou tão curiosa!

O que terá mudado em mim este intervalo forçado? 

Que cozinha farei agora, depois?

E as outras pessoas como se sentirão, como sentirão a vida, os sabores, os cheiros e os sorrisos? Renasceram também, tenho a certeza. Que farão e como farão?

Lá fora o jasmim carregado de flores brancas, perfeitas. Gosto tanto da primavera.

Tenho pressa! 

Agora que finalmente abrandamos tenho pressa.

Não faz sentido cozinhar se não for para alguém. E eu amo cozinhar. Preciso de cozinhar.

Sabemos que nos vão morrer pessoas. Sabemos que podemos morrer e nós somos também pessoas de alguém. E como se lida com isto?

Se morrermos o mundo segue. Pouco ou nada muda. Ah lição práctica, caraças…

Eu sei que não quero morrer e sei que tenho pressa.

Quero voltar a mergulhar, ver ovelhas nascer, fazer manteiga e assar pão. Quero provar o vinho novo e assar castanhas. Quero ver o sol nascer depois de uma noite presa a um livro. Quero cozinhar e amar.

Quero provocar sorrisos e memórias boas (obrigada Tiago!)

Se me safar vou morrer mas feliz, a cozinhar, viajar e abraçar tudo e todos, até à última gota, grata.

Até lá podem ficar todos em casa, por favor? Vão fazer-me muita falta.