O camião não pode voltar vazio

Nunca não trabalhar me ocupou tanto e de forma tão produtiva.

Ontem, 25 de Março, acordei às 6.30h, preparei e dei aulas por vídeo-conferência (sim, aulas de cozinha fora da cozinha, algo que sempre quis fazer mas nunca imaginei desta forma), “engatei” imediatamente num webinar do sector primário espanhol a que vi juntarem-se pessoas de todo o mundo. À hora de jantar estava cansada e apeteceu-me que alguém cozinhasse para mim — uma novidade. Telefonemas, bons, sempre bons. A sorte de ter estas pessoas na minha vida chega a comover-me. Parei, cozinhei, jantei com o meu filho e embrenhei-me na leitura de coisas que já eram importantes mas passaram a ser urgentes sem que sequer tivesse percebido ou me preocupasse muito com isso. Deixo acontecer e acontece.

Uffa, que bom! Tudo “casadinho”, tudo a fazer sentido. Os assuntos a encadearem-se naturalmente. As reflexões e consequentes decisões a acontecerem de forma fácil, fluída.

Por volta da meia noite abro o Facebook e é-me apresentada uma “memória”. Os percebes magníficos a que tive acesso tantas vezes, pelas mãos do Pedro Magalhães, pessoa grande, que faz pesca e caça submarina na zona de Viana do Castelo, um parceiro que é um tesouro. E tenho tantos como ele. E outra vez sou atingida pela certeza de que sou uma privilegiada. Estranho não sentir saudades, não ficar melancólica, nem triste nem preocupada. Nada a não ser alegria. 

Afinal tomamos muitas decisões sem percebermos que o estamos a fazer. Parece que decidi olhar para trás apenas para ir buscar “reservas de felicidade” e entender que pessoa sou. (“Reserva de felicidade” era a expressão que usava quando os meus filhos eram pequeninos e, naturalmente, estavam em fase de aprenderem a lidar com os seus sentimentos — e estamos sempre. Tentei passar-lhes a ideia de que tudo faz parte da vida. Pretendia que eles entendessem que não deveriam considerar momentos maus como o normal e os bons como excepções. Queria que prestassem muita atenção aos momentos felizes para que os pudessem guardar e transformar nessa dita reserva, a que voltamos para nos lembrarmos do que queremos que seja o normal e ganharmos resistência, força e clareza mas acima de tudo vontade para sair do momento mau)

Ontem percebi que tenho uma enorme reserva de felicidade.

O camião não pode voltar vazio.

A ouvir os homens e mulheres da agricultura e pecuária retive uma frase, no meio de tantas coisas importantes — o camião não pode voltar vazio.
Um agricultor dizia que temos de cuidar uns dos outros. Que se preocupa muito com o sector dos transportes, por exemplo. O sector primário está a fazer a parte que lhes toca mas precisa de todos os outros a funcionarem bem e a conseguirem sair disto também bem. O camião tão necessário para levar horto-frutícolas do campo à cidade, de um país ao outro não pode voltar vazio. Se acontecer vai falir. Portanto temos que cuidar também da actividade de transformação para que na volta carreguem, por exemplo, papel, e a sua empresa se mantenha acima da linha de água. Salto mental imediato para a restauração e hotelaria. Serviços. Dependentes de tudo e de todos. Se pensarmos e atuarmos sozinhos não pensamos nada nem chegamos a lado nenhum. O que podemos fazer? Começar por ajudar os nossos clientes e os nossos parceiros para que eles fiquem bem e acima da linha. Depois será depois e o camião voltará com carga.

Fiz muitas coisas menos cozinhar. E estou bem com isso. Satisfeita mesmo. Quem me diria isto há uns dias apenas?

E pronto. Fecho o dia, já num outro dia, segundo o relógio e o calendário, satisfeita. Como decidi não decidir, as coisas vão acontecendo em mim e no mundo. Estou satisfeita por ter conseguido viver um dia AGORA e em que o passado é só isso,  uma base mas não um lugar de regresso.

Se vai correr bem? Claro que vai. O “bem” é que mudou. E nós também. 

P.S. O Pedro Magalhães, como tantos outros no sector primário, paga as suas contas com o que vende. E continua a ir ao mar. Entrega em casa. Ele e os outros. E precisamos deles assim e bem, agora e depois. Telefonem. A ele e aos outros. AGORA.