Este período tem-me obrigado a pensar, ou permitido. Principalmente pensar de uma forma, a um ritmo e por um motivo diferente. Dou por mim a pensar que nem penso. Faço-o de uma forma que desconhecia. Deixo-me ir. Passaram-se dias a fio no fim dos quais me pareceu que não tinha chegado a lado nenhum. Dias inteiros a pensar e não pensava nada.
Estava enganada.

Tem acontecido assim. Dezenas de pensamentos em simultâneo, sem ordem ou objectivo definido. E eu a deixar ir. Frequentemente me parecia que os pensamentos que mais se sobrepunham não eram os prioritários. E não seriam até há 26 dias. 

Mas houve um movimento importante, para dentro. A tentar pensar nos próximos movimentos chego novamente ao “para dentro”. Já lá vou. Obrigo-me agora a alguma ordem.

É primavera. Estação maravilhosa para se ser cozinheiro em Portugal. São todas boas as estações aqui no paraíso, mas a primavera a seguir ao inverno é encantatória. Transforma-me numa criança aos pulos.

É primavera e não há a quem servir sargos, ervilhas de quebrar, favas do cedo, espargos, ouriços, anho, lampreia, navalheiras e todos os tesouros a que temos acesso.
Sou cozinheira e adoro. Não saberia ser outra coisa.

Em que estação estaremos quando voltar a cozinhar e servir?

Voltam os pensamentos com vontade própria e levam-me das perguntas que me faço às que costumam (costumavam) fazer. Como defino a minha cozinha? Como me inspiro? Que processo uso para criar? Criar?

Fico sempre à rasca. Não sei responder. Esquivo-me. Aperfeiçoei a técnica de responder sem responder. Não por desrespeito à pergunta ou a quem a faz mas por não saber. Na verdade eu não defino a minha cozinha – é ela que me define. Não me inspiro – sou inspirada. E não sei criar. Os produtos falam, pedem-me coisas. Dizem-me como querem ser apresentados. E mudam. Mudam de sabor, de textura, de forma e de vontade. Sou a mais feliz das criaturas quando vou a um campo de ervilhas nesta altura. E nunca estão sozinhas. No mesmo momento, estão em toda a sua glória um conjunto de produtos. Todos magníficos. E fazem sempre sentido juntos. Naturalmente. Levo-os comigo ou chegam-me à cozinha. Quando chegam viajo eu até ao lugar, cores, cheiros, caminhos e pessoas que permitiram a maravilha. A maior parte das pessoas a quem tenho a sorte de poder servir estas coisas não tem a sorte de saber, com os sentidos todos, tudo isto. Impressionantemente, mesmo assim vibram. E eu fico feliz. Por tudo e por todos.

Não, eu não sei criar. Nem preciso. Ainda bem.

A tentar pensar no próximo movimento volto a pensar em movimento e em tudo o que se passa agora em mim. E em tudo o que se passa agora nos campos, hortas e pomares, na serra, nos rios, no mar… E no que se passa nas outras pessoas. Será ainda primavera quando voltar a servir?

Com a falta de consumo e consequentemente colheita haverão ainda estes produtos? E em que estado de maturação estarão. Princípio do verão?

Sem produtos não sei fazer. Primeiro vejo, cheiro e provo. E agora não sei.

Mas sei que também terá havido mudanças nas pessoas – todas – e nas condições e expectativas com que se dirigirão novamente aos restaurantes. E serão os nossos, os portugueses. Portanto teremos Portugal, por portugueses para portugueses. Depois de um movimento para dentro faremos outro movimento para dentro. Estaremos todos com vontade de chorar e celebrar. De simplificar. Do essencial. E o essencial é ser feliz. Simples. Eu sou tão feliz a servir Portugal num prato. Ou em cinco. Ou o que nos apetecer. 

Como será a minha próxima carta? Não sei. Não sou eu quem manda nela. É a natureza e a natureza das minhas pessoas. Nem sei se será uma carta. Sei que quero muito ver sorrisos. Verdadeiramente são os sorrisos que me alimentam. Os dos outros e o meu.

Vamos com (c)alma!