Nada pode ser mais apaziguador do que a imagem do ser humano que se encontra consigo próprio, a sair fora das funções sociais, das divisões de trabalho, para se relacionar com o seu próprio silêncio. Um encontro solitário, tão recomendado nos dias de hoje, e tão necessário para se resistir à própria solidão a estilhaçar-nos, por dentro, cavando abismos onde, antes, parecia existir o céu. Porque, ainda que muitos sintam pouco (por enquanto) estes movimentos interditos, a verdade é que eles causam dores e medos. Dores que devem ser bem acompanhadas para não provocarem rasgões na alma, que depois custam a consertam. Medos que, tal como o Covid-19, são contagiosos: os medos dos outros “colam-se” aos nossos.

O medo cresce com o tempo e, muitas vezes, torna-se a expressão de um nihilismo passivo. Há que contrariar, ouve-se a toda a hora. A passividade será sempre sinal de aniquilação e é aqui que se decide o futuro – exactamente no ponto em que a escuridão parece alcançar o seu grau máximo de espessura. A perspectiva de que a rotina do desespero domine as coisas é mais perigosa do que qualquer vírus. 

Já todos sabemos que a percepção da perda é inevitável. Os sacrifícios serão consideráveis. Todos perderemos muito na tragédia própria ou na dor dos outros. Poderemos perder, inclusive, trabalhos, casas, amigos e até a fé. Mas, também haverá muito a ganhar, embora as coisas sejam de tal maneira que, na verdade, este ganho só será sentido por alguns. Uns aumentarão o egoísmo, a violência e o desrespeito pela vida. Outros ganharão em honestidade e solidariedade, e aí vislumbrar-se-á o respeito por ordens mais elevadas. Por exemplo, a ordem sagrada de unir famílias, pais, filhos, irmãos, avós. Voltaremos às alegrias que sustentam o mundo, aos abraços, aos beijos, aos apertos de mão, aos toque de peles.

A liberdade é hoje o grande tema; todos sabemos qual é o nosso papel nesta recente catástrofe. As nossas armas são o isolamento, a organização de entreténs familiares, a preparação de pontos de apoio nesta nova forma de resistência, a solidificação de afectos. E espera-se, de todos, um elevado grau de coragem, sobretudo dos mais idosos. Esses mesmos idosos que vemos nos lares. Os que parecem tão desprotegidos, tão alheados do mundo… e nem sempre o são. Não são pessoas abatidas pelo destino. Há neles identidades vivas, serenidades livres, invulnerabilidades espirituais. Uma pessoa será sempre a mesma pessoa, mesmo que a idade teime em avançar. Há sempre nela um país habitado e, por vezes, ainda inexplorado. O acesso a esse país pode, em alguns casos, parecer-se com um poço, no qual são lançados destroços, sobretudo se a saúde falhar. Mas, enquanto o corpo se for mantendo mais ou menos são, se formos eliminando os destroços encontramos no fundo não só a fonte, mas também as antigas imagens. A riqueza que ninguém pode roubar e que no decurso do tempo flutua sempre uma vez mais visível, sobretudo depois da dor de uma vida ter escavado as profundezas. Todos somos as crianças que já não vemos ao espelho. Com sorte, seremos os idosos que só ainda imaginamos.

O drama do ser humano é esta intranquilidade temporal. Quanto mais o tempo se expande, mais conscientes nos torna. E, acreditemos, mais repletos de experiências e saberes, mesmo que deixemos de ser chamados ao palco. O que interessa vir ao palco? A vida espiritual, se se conseguir alcançar, há-de ser sempre mais gratificante. 

É preciso é que se continuem a dar pequenos milagres. E, em tempos como estes, eles consistem nas grandes correntes que têm existido, nos actos de solidariedade. Nos restaurantes que alimentam os profissionais de saúde, nas fábricas que constroem equipamentos de protecção, nos donativos de associações, nos jovens que entregam as compras aos idosos, nos colaboradores que partilham o seu testemunho no Etaste, no neto que deixa uma planta à avó. Estas coisas não se podem perder de vista, delas vive o mundo.