Não, tudo o que acontece não é demasiado longe, tudo o que acontece não é com os outros; os outros somos nós. 

Os outros estão a desaparecer da face da terra, um pouco mais e mais, de dia para dia. Saem de cena com aparelhos e tubos enfiados nos corpos, sem voltarem a ver as pessoas que amam; vão em dor e deixam dores. Diante de situações dramáticas, já não se dizem os seus nomes, não se conhecem os seus rostos, somam-se apenas números para estatísticas. Morre-se numa solidão aterradora. A morte desumaniza-se para se cuidar dos vivos. E, quem assiste na televisão a essas imagens, só pode adivinhar dentro desses caixões alinhados, à espera de vez no crematório, os corpos dos outros, esses corpos onde antes havia vida e agora nada há; esses outros somos nós. 

É a máxima rapidez e o mínimo risco. Nos enterros, nas idas ao supermercado, nos passeios com o cão. O medo ronda debaixo da nossa pele, mas não cedemos. Não à impotência e ao desespero. Temos o dever de nos manter vivos e, sobretudo, permanecer humanos. E a nossa humanidade passa, por vezes, por estes extremos de desequilíbrio entre tristeza e alegria, pavor e coragem. Não é negando a morte (porque somos ainda novos) que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condição. Ela apanha-nos, se nos distrairmos. Nós somos também as pessoas de 80 anos, as mais vulneráveis. Nós somos os que deram positivo e passam as próximas semanas entre o ar que falta, a tosse que sufoca e o fim que ameaça espreitar. Nós somos os que podemos ou não ter o vírus e saímos à rua, olhando com desconfiança para qualquer outro humano que connosco se cruze. Nós somos os profissionais de saúde, de segurança, de limpeza, de distribuição e venda de comida, e muitos outros, para quem o trabalho não se deslocou para casa, ou se interrompeu, antes pelo contrário, entrou numa frenética aceleração. Nós somos os outros.

Não tenhamos a pretensão da imortalidade, a arrogância de sermos saudáveis, a vaidade de sermos o futuro. Se para percebermos a nossa humanidade tivermos de desenvolver paranóias ou birras ou sustos de solidão devido ao isolamento, que seja! É o momento de fazermos a nossa parte – sermos bichos do mato – e respeitar o tempo. Matar tempo é agora ganhar tempo.