Castelo de Paiva, 8 de Maio de 2020

“Dantes é que era bom, Sr. José!” Foi esta a frase possível que ouvi à sucapa, entre o Sr. José e o Sr. Manuel. Não porque tenha um prazer especial em ouvir conversas alheias, mas porque a inevitabilidade do destino assim o permitiu. Foi mesmo perto da mina da cabreira, onde eu outrora, meio metro de gente, dava os primeiros passos na arte piscatória dos girinos. 

Por muito telúrica que esta descrição possa parecer, a verdade é que o tempo, aqui, está onde sempre esteve, digamos, suspenso entre a fresca sombra do alto sobreiro e as cartadas de domingo dos mais velhos, junto ao espigueiro, onde o sol era tórrido e venenoso. 

Este primeiro parágrafo está, portanto, interligado com o sentimento mais positivo que sentia em criança, de palha na boca, esparramado à sombra dessa árvore, mesmo sabendo que afastado dela estaria mais próximo da realidade. Os parágrafos seguintes, porém, aproximam-se aos adjetivos que usei para descrever o sol, junto ao espigueiro, e estão naturalmente interligados com os mais recentes pensamentos que me assaltam o espírito pelo lado mais frágil, que é o da reconciliação da infância com a idade adulta. 

Ordenam-nos, oiço dizer, que nos devemos manter afastados socialmente. Pois bem, eu por cá também me mantenho afastado, mas da estupidez. Reservo uma distância suficientemente segura para não contrair um vírus ainda mais mortal que o covid-19, o do populismo demagógico, cientificamente designado por histerismogrupal

Garanto assim uma espécie de imunidade à humanidade que se aproveita perversamente dos mais pobres para promoverem os seus negócios, aperaltando-se bem asseados para as máquinas fotográficas que registam o maravilhoso momento em que apoiam os mais carenciados. Dizem umas palavras bonitas, correctas, bem polidas, daquelas que até comovem um santo de pedra, et voilà! Volvidas umas semanas e estarão seguramente beatificados pela Santa Sé dos cegos e surdos. 

Sim, é certo que devemos ser solidários, é certo que devemos apoiar aqueles que precisam mais do que nós, mas vender isso, criar uma campanha de autopromoção com isso é só inverter um ato de generosidade e de grande nobreza humana em merda.

Talvez seja só eu, mais uma vez, a exigir demasiado da teoria de Herbert Spencer, e da sua obra, cujo o nome Princípios da Biologia sempre me suscitou grande inquietação por estar vazio de sentido e de direção. Para quem nunca leu esta obra não precisa de perder muito tempo a pesquisar porque aqui na aldeia, entre fainas e lavradios, há muita sabedoria e até já foi criada uma frase que a resume, estupidamente bem, assim como ao parágrafo anterior: “Sempre foi assim e sempre será!”. 

Dantes um minuto era só um minuto, hoje é uma eternidade e, pela primeira vez, não concordo com o Sr. Manuel. Dantes não era assim tão bom! Só não lho disse porque não tive coragem e afinal, como escreveu o poeta Adolfo Rocha, esse é o seu dom: perpetuar cada hora da vida num poema.