Os ruídos ainda povoam as ruas. Acorda-se com eles. Descobre-se que tudo está desperto e que todas as pessoas estão despertas. Vivemos uma insondável experiência humana. Há uma abertura diferente para o mundo, para os outros. O cenário está confuso, é amargo. Liga-se a televisão. Este é um fenómeno mundial. Há que haver consenso político, unidade nacional. A comunicação e os esclarecimentos são essenciais. É preciso confiar nas autoridades, sobretudo nas autoridades de saúde.
O sol convida a sair, mas não se sai. É limitar a liberdade individual, para ajudar a comunidade em que vivemos, ajudar as nossas famílias, o nosso país, o mundo e a galáxia e onde quer que quisermos chegar. O futuro. É disso que se trata: proteger o futuro com uma armadura. É uma armadura pesada, até pode tornar-se ferrugenta se não houver fim à vista, mas é ela que nos vai permitir respirar fundo e descontrair. De nada ajudam as tensões.
As medidas estão a ser tomadas, mas ainda são insuficientes. Ouve-se a toda a hora que tudo aponta para o pior, que, de acordo com o que se observa em outros países europeus, a dinâmica da infecção é exponencial. Há uma forte probabilidade de o cenário de pandemia se prolongar. A prioridade é a saúde, salvar vidas. Mais do que duas pessoas juntas é risco. É preciso fechar fronteiras. O Estado de Emergência é inevitável. Já. São medidas de estado de guerra, mas inevitáveis. É fundamental limitar as liberdades. Limitar a circulação de pessoas.
De carro, percorre-se o Chiado, o Cais Sodré. O sector da restauração está em perigo, é preciso que o Estado vá mais além na ajuda. Tantas casas e restaurantes fechados, tantos outros ainda abertos, o cenário é ameaçador.
Passa-se pelo Mercado da Ribeira, agora fechado, e pasma-se diante de um grupo em festa. Várias cabeças unidas, copos na mão, toques e salivas pelo ar. Por momentos, deseja-se que a vida continuasse a ser assim, tão boa! Mas encarar isto, neste momento, é doloroso. É encarar o ser humano na sua inconsciência. Também nós, quanto mais nos relacionamos, mais rapidamente descobrimos onde estamos bloqueados, onde somos receosos e fechados. Nem sempre somos honestos. Nem sempre somos corajosos. Em situações deste tipo, podemos descobrir o que é verdade pura e simplesmente observando-nos a nós próprios em cada fenda, em cada buraco negro e em cada clareira, quer se trate de um local sinistro, sombrio, esplêndido, assustador ou pacífico. Observa-se o grupo, tira-se a foto e deseja-se que amanhã já não lá esteja.
*o autor não escreve de acordo com o Novo Acordo Ortográfico
