Na primeira INTER magazine do ano, preparámos para abrir 2020 com um tema central para o mundo – a sustentabilidade. Há anos e anos que se fala de alterações climáticas, condições de trabalho justas, consciência ética e impacto ambiental.
No editorial, escrevi que o certo é que continuamos a estragar o único lar viável para o ser humano e que, por isso, neste primeiro número do ano, queríamos ditar uma tendência – a urgência de mudarmos a forma como consumimos, como reflectimos, como habitamos o nosso planeta, e, assim, ainda restaurar a esperança de salvarmos a nossa própria existência.
A revista ainda não saiu e, por ironia, o mundo já se virou do avesso e já nos mostrou que o nosso modelo de desenvolvimento económico e social é frágil e que a nossa civilização pode dizimar-se em dias.
Num artigo do jornal Expresso, Dennis Carroll, um cientista americano que criou, em 2009, um programa chamado PREDICT, alertou que “a crise do novo coronavírus era previsível e de futuro haverá outras como esta. Essencialmente porque nos últimos cem anos os seres humanos, tendo passado de mil milhões para mais de sete mil milhões, começaram a invadir zonas de vida selvagem onde milhares de vírus até agora inapercebidos circulam há muito tempo”.
O PREDICT, cuja missão era investigar vírus que existem em animais e que um dia poderão transmitir-se aos seres humanos, e apesar de ter identificado 2000 vírus zoonóticos, caiu por falta de financiamento governamental em 2019 (Trump, como sempre, no seu melhor!), mas Carroll criou um novo programa, o Global Virome Project. Numa entrevista dada à revista Nautilus, o cientista acredita que “o mais provável é o novo coronavírus ter sido transmitido a humanos quando um animal estava a ser preparado no mercado de Wuhan para ser comido”. Quanto a esta origem do vírus, embora ainda não haja uma certeza absoluta quanto ao percurso exacto que foi seguido, a situação nada tem de surpreendente. Irrompeu num dos locais onde há mais poluição.
Carroll, apela à consciência de que as nossas acções sobre o meio ambiente têm consequências. E só temos de concordar. É preciso questionar. A terra anda desequilibrada pelo consumo desenfreado. Todos contribuímos e alimentamos em cadeia acções destruidoras, que nos indignam e envergonham enquanto espécie. É certo que muitos já estão a tentar salvar-nos e, com a sua experiência, a encorajar os outros a fazerem o mesmo – a usarem a paixão, o talento, os recursos disponíveis, para repensarem e reinventarem formas de tornar o mundo mais sustentável.
Estamos agora em choque. A prioridade do mundo inteiro é combater o coronavírus, proteger as populações e encontrar urgentemente uma vacina para o enfrentar, não obstante as suas constantes mutações. O desastre económico-financeiro é inevitável e tudo isto já é uma tragédia humana, com um incalculável número de vítimas.
Mas, depois de vencermos esta crise, temos de aprender com ela. Todos nós devemos exigir mais; mais regras de segurança por parte dos governos e instituições; mais atitudes e posturas que reduzam a poluição, o desperdício, e reponham a justiça e a ética em toda a cadeia de produção, da base até ao cume; mais consciência ecológica e lutar, todos os dias, até conseguirmos o que neste momento parece imutável: mudar o futuro.
