Paulo Russel Pinto visitou A Cevicheria de Kiko Martins e teve pena de encontrar mais estrangeiros do que portugueses na fila do Pisco Sour — o cocktail com o qual escolheu começar a sua viagem ao Peru no Príncipe Real, em Lisboa.

Contactos:

A Cevicheria
Morada: Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Lisboa
Telefone: 218 810 320
Horário: Aberto de terça-feira a sábado, do 12h às 15h30 e das 19h às 24h

Não consigo perceber porque é que não encontro portugueses no Cevicheria. De todas as vezes que o visitei, a minha mesa era quase sempre a única de portugueses. Digo-vos já que é uma pena. Eu sei que o tuga não gosta de esperar e faz-se fino quando o assunto é reservas em restaurantes, mas acomodamo-nos a tanta coisa que esta não nos faria mal nenhum. É verdade que o restaurante não aceita reservas e que a distribuição de mesas é feita por ordem de chegada, mas os estrangeiros que enchem A Cevicheria esperam, bebem, petiscam, conversam com amigos, divertem-se e, depois, almoçam ou jantam. Só nós é que não fazemos isso!

Só nós é que não aproveitamos o tempo de espera para provar o Pisco Sour, cocktail da casa que é uma referência peruana no mundo dos cocktails e alguns petiscos que se podem comer nas mesas altas à porta enquanto conversamos e nos divertimos antes da refeição. É o caso do ceviche do dia, que naquele tinha peixe branco, cebola roxa, um leche de tigre muito leve e malagueta fresca a marcar bem o picante do prato. Para acalmar, um puré de batata doce. As algas estavam a mais e pareceram não fazer parte do conjunto, embora não incomodassem.

À mesa (ou ao balcão), o conceito do Cevicheria é 3 para 2, ou seja, doses grandes em que é possível partilhar e comer bem. A lista é curta, mas faz jus ao canto do mundo de onde vem a inspiração: Peru. No ceviche de atum, onde a matéria prima é excelente, o trabalho é feito com beterraba e lichia, equilibrando o prato numa harmonia imprevisível mas duradoura na boca. O de salmão não é tão bom: precisava de ser uma peça mais firme, mas concedo que tenha sido o peixe daquele dia. É um ceviche delicado, com um intenso leche de tigre, cubos de coco jovem e esferas de tapioca misturadas e pedaços de ananás que trazem uma doçura final ao prato. Na causa de King Crab encontrei um prato com muitos sabores, em dois momentos. Barroco, mas com todos os pormenores da talha dourada, complexo e elegante. Num, o caranguejo sobressaiu delicado sobre o puré com tinta de choco, no outro um conjunto intenso e amariscado, multicolorido, a saber muito mais a mar.  Na causa de polvo BBQ (o nome é mesmo assim) as estaladiças pipocas de courato trazem textura mas não contribuem com sabor. Já o polvo estava muito tenro, bem assado e com sabor muito presente. O puré de batata preta e tomates assados, que resultam doces, complementam uma harmonia de sabores que parece ser o perfil da casa.
No que respeita aos quinotos (risotos de quinoa), pratos muito bons e originais para as costas portugueses, provei dois. O do mar era bom, mas destaco o de pato e cogumelos. O caldo era riquíssimo e os cogumelos misturados na quinoa vinham cheios de sabor, ladeados por dois croquetes estaladiços de pato desfiado. Complementavam umas ervilhas de quebrar muito frescas. Sobre estas, tenho de referir um prato que saiu recentemente da carta, que era o quinoto de vieiras e presunto. Foi uma das criações fantásticas deste espaço e devíamos fazer uma petição online para ser recolocado na carta, lugar onde merece estar!

Finalizou-se com um taco de tártaro de novilho, boa carne e bem temperada, que encima com maionese de rábano. Dispensava-se o pó de alga nori, não pelo sabor, mas pelo cheiro que transmite a cada dentada.

Nas sobremesas, destaco a goiaba e queijo de cabra separados por um bolo de milho. Este, delicado e esponjoso, contrastou com a intensidade exuberante do queijo e cremosidade da espuma de goiaba, resultando num interessante Romeu e Julieta tropical.

Há um padrão de complexidade de sabores e texturas que Kiko Martins está a trabalhar muito bem e que os exemplos acima o demonstram. A inspiração é internacional e moderna e o cosmopolitismo que Portugal precisa passa por entender o mundo e interpretá-lo dentro de portas. A Cevicheria é um bom lugar para isso.

O serviço é informal, atencioso e frenético, o espaço é luminoso e minimalista, com o polvo gigante pendurado no teto sempre a olhar para nós. A lista de vinhos é bastante curta e com os preços exagerados, mas tudo se desculpa se for recuperado o tal quinoto de vieiras e presunto, de tão delicioso que é. Assinem!