Mesmo de férias na Ilha do Farol, no Algarve, Luís Antunes vestiu o papel de crítico e analisou ao pormenor a carta do restaurante À-do-João. Como é hábito, experimentou várias iguarias e no final saiu um veredicto.

Contactos:

À-do-João
Morada: Ilha do Farol, Faro.
Telefone: 289714 209
Horário: Aberto todos os dias das 8h às 00h.

Começa pelo acolhimento, em particular o facto de não fazerem cara feia aos turistas abandonados pela sorte, e que não conseguem encontrar energia eléctrica para carregar os seus telemóveis e demais gadgets.

Parece coisa pouca, já que os ilhéus têm fama de se entreajudarem uns aos outros. Mas estes são ilhéus de fim-de-semana, e os outros só aparecem uma vez por ano. Assim, é muito bem-vindo sorriso e o “com todo gosto” genuíno com o que a mão estendida recebe a aparelhagem.

Depois, é devida a forte nota às batatas fritas. Numa nação onde as pré-fritas e congeladas derrotaram todos os ânimos, ver chegar uma travessa fumegante de batatas fritas em palitos longos e ligeiramente finos, amarelinhas de boa e completa fritura, crocantes e saborosas, salgadinhas no ponto, e ainda sem quaisquer adições de ervas ou outros decorativos e adicionantes é, diga-se sem pudor, um evento notável. O cliente amável pode mencionar o facto, e apreciar os empregados simpáticos a empertigarem-se um pouco, encher o peito e o sorriso, respirar fundo orgulhosos da casa que representam, e talvez façam um comentário do género “é verdade, são boas, há muita gente a apanhar o barco só para vir comer as batatas fritas.”

Estamos na Ilha do Farol e não somos 5, a ponta mais a Sul de Portugal continental, um banco de areia enorme, pontuado pelo Farol de Santa Maria, que do alto dos seus 46 metros de altura avisa à navegação da entrada da Ria Formosa. A desventura das ilegalidades tornou as férias um deserto de energia e água corrente, o que levou entre outras coisas à exploração quase exaustiva da ementa deste À-do-João, com o “à-do” olhanense a adquirir aqui nesta ponta-sul um significado de “chez”. Esqueçamos então a declamação e vamos à enumeração das razões sólidas que me fazem recomendar este cantinho de boa gente e boa comida.

Logo na chegada, belíssimas cenouras curtidas à algarvia, com o mau gosto de as misturarem com azeitonas. Mas pronto, pescando as cenouras de dentro do azeite generoso, elas oferecem-se crocantes, com acidez a estalar no dente, o pão de miolo denso é bom e o azeite também. A lista é profusa e ao longo dos dias pude explorá-la quase toda. Obrigatórias são as batatas fritas, sejam como acompanhamento dos pratos sejam pedidas para ir debicando enquanto esperamos pelas outras bondades.

Lingueirão à Bulhão Pato. Brilhante! Como é que eu nunca tinha comido isto antes?! Não simpatizo muito com o arroz de lingueirão, acho sempre um má ideia desde que provei o lingueirão nas Rias Baixas, feito simplesmente numa grelha de ferro fundido com azeite e muito limão, fazendo-nos querer lamber cada concha antes de a pôr de parte. O Bulhão Pato, uma coisa que agora parece tão óbvia como o ovo de Colombo, é uma receita à altura da opção galega, e faz o arroz de lingueirão daqui em diante parecer não só uma má ideia como um desperdício de lingueirão. Provei o arroz, diga-se, e sendo saboroso pareceu-me que tinha sido servido antes de o arroz estar completamente aberto, o que lhe dava um pouco de coração. É normal, ante a fome dos comensais, aguçada pelas actividades da praia, mas, tenho que dizê-lo sub-óptimo.

Provei vários cortes de carne grelhada, fossem febras ou costela de porco, bifes de novilho, etc. Sempre feito com competência e as batatas fritas a deitar a sua luz, também acompanhadas por uma salada mista simples mas muito bem-feita, com os produtos locais a brilhar alto pela sua simplicidade e frescura.

Lulas grelhadas podem ser uma coisa muito boa ou muito média. Aqui são excepcionais, juntando o estaladiço exterior de sabor quase caramelizado pelo calor, onde a ponta de sal ajuda ao equilíbrio, e o interior suculento, de textura suave e sedosa, húmida e saborosa, oferecendo ao dente múltiplas resistências que se resolvem enquanto os sabores se misturam.

As ovas de choco são também recomendáveis, como o são também as amêijoas ou conquilhas, ostras, salada de bacalhau com grão, ou o notável escabeche de chicharro. Tal como muito recomendável é o peixe grelhado, ou não fosse este um destino de praia. Peixes fresquíssimos e de porte adequado ao tamanho da mesa são tratados com desvelo na grelha exterior. No caso, houve mesa para uma dourada com quase 4 quilos, que uma mesa grande soube desmanchar, distribuir e deglutir, com paciência e atenção aos detalhes. O acompanhamento são excelentes batatas, muito bem cozidas com a pele. Escalar ou não é uma opção do comensal, mas qualquer das opções é bem executada pelos homens da grelha, para um prazer estival de requinte e volúpia.

O capítulo sobremesas está bem servido de doces tradicionais e também regionais, e ainda frutas frescas e gelados. A lista de vinhos não é muito extensa mas tem o suficiente para agradar a todos, e os vinhos são bem tratados em termos de temperaturas, mas os copos poderiam ser melhores.

Resta o preço, que é do lado do alto, mas acontece que aqui na Ilha tudo tem um preço mais alto, uma pessoa habitua-se, são férias, é só hoje, ou só esta semana, e tudo é compensado pela simpatia do pessoal da casa, pelo carinho com que nos acolhem e pelo sorriso com que nos vêem regressar.

*O autor não escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico