A Maria

Numa visita ao Alandroal, Luís Antunes passou pel’A Maria, restaurante do qual guarda boas recordações de tempos passados. À medida que relata essas memórias, o crítico aprecia e reflete sobre o tempo presente, à mesa, acompanhado pelos filhos.

Contactos:

A Maria
Morada: Rua João de Deus, 12. Alandroal, Évora.
Telefone: 268 431 143
Horário: Aberto segunda-feira, das 11h às 16h. De terça a domingo, das 11h às 23h

Alentejo profundo, na raia de Espanha, e os sítios tornam-se oásis. Viajando numa deriva vagamente controlada, apontei a proa à revisita que já tardava de um dos templos que guardo sempre no coração como fontes de desejo, para reencontrar as referências do que um dia chamei “a refeição da minha vida.” Para acender a memória dos passantes mais neófitos, relembro que esta era uma coluna que o mestre David Lopes Ramos encomendava, como título e tema, a alguns que se sentiam assim honrados, e é ainda honra que sinto quando menciono que fui um deles, mesmo que hoje a gabarolice se meça em likes e followers, e não em memórias ou prosápia.

Foi assim com alguma surpresa que, marcando anonimamente a minha estada n’A Maria, no Alandroal, dou de caras com uma velha página da revista Pública que ostenta a minha carantonha. Conduzo os filhos à volta para não dar bandeira, quero almoçar. Costuma dizer-se que não se deve voltar aos sítios onde se foi feliz, mas eu sou optimista. Se calhar faço-fiz mal, mas e agora? Dias passados, agarro-me ao teclado e ao papel. A cara na parede e os exemplos dos meus mestres aumentam a responsabilidade. Peguemos assim o animal de frente.

Sentámo-nos numa sala que ainda inverte a aldeia, com umbrais e estendais de roupa a lembrar-nos um fora cá dentro, mas lá fora aperta o calor e aqui está-se bem. Vem imediatamente um pequeno pratinho de coelho assado e desfiado com molho à vilão, e a lista para escolhermos. O coelho está primoroso, e o bom pão alentejano, este sem excessos de acidez, oferece o seu miolo denso a este azeite-coentros-vinagre-no-ponto, comigo sempre a fugir da cebola crua, é cá uma coisa minha, que o meu estômago não aguenta. A coisa promete.

Procuro negociar os pratos. Insistem que devo escolher uma galinha assada, que “está uma maravilha.” Eu procuro agarrar-me às memórias, quero o bacalhau dourado, que está no topo da minha vida, e quero os secretos de porco preto estufados com cebola no tacho de barro. Os últimos, nem pensar, que hoje não se fizeram, aliás, é mais prato dos tempos frios. O bacalhau, esse pode-se arranjar. Sou pouco para uma dose e preferia espalhar variedade, já pensando nesta crónica. Mas a flexibilidade da casa é pouca, tal como o carinho não tempera este acolhimento correcto. Galinha para as crianças e bacalhau à tonelada para o pai. Seja.

A galinha vem finalmente, e as crianças adoraram. Mas o pai está muito desiludido. Onde esperava um bicho caseiro de bom porte, com a pele estaladiça acabada de sair do forno e um tempero saboroso e clássico a transportar-me para a cozinha da minha avó, apareceram-me antes umas partes do peito e perna desfiadas, e levadas ao forno a reaquecer, inteligentemente salpicadas de cebola laminada para evitar os excessos de secura, e um pouco de coentros por cima. Nem um miligrama de pele estaladiça. D-e-s-i-l-u-s-ã-o. Perguntei se o prato é mesmo assim, se foi acabada de assar ou apenas aquecida, garantiram-me que foi assada e depois acerejada. Bom, juraria que… As rodelas de batata frita que acompanhavam estavam crocantes e saborosas, mas vinham a nadar em óleo da fritura. Num cilindro no meio do prato, o melhor sabor de todo o almoço, um puré de abóbora (assada?) com laranja e um tempero de especiarias muito elegante e delicado, a provar que na cozinha a Maria da Piedade não perdeu a mão. Perdeu o quê, então?

Veio depois o bacalhau dourado, dose de monta que serviria muito bem de entrada para uma mesa bem maior. Estava bom, mas não à altura das minhas memórias. O bacalhau propriamente dito estava seco e não me parecia da qualidade mais adequada a um prato de primeira água. E mais não digo. A cremosidade do excesso de gemas, traço distintivo de que me lembro bem tantos anos depois, não apareceu. Havia um toque de alho, que não pertence nem à receita original (que segundo a própria Maria me contou há muitos anos viria da Pousada de Elvas, onde já fui de propósito há anos para constatar só banalidade), nem à receita desta casa, é uma inovação da cozinheira que hoje acolitava a Maria. Não era preciso dizer-mo, que de alguma forma o meu coração já sabia que aquele prato de Maria tinha pouco. Depois, faltava finalmente a perfeição do ponto, com os ovos a aparecerem passados em demasia. Falhou.

Já só queria escapulir-me dali, mas obriguei-me a provar uma sobremesa para tentar salvar o dia. A sericaia (nunca sei como se escreve isto, seria sericá?) estava um pouco seca e algo pobre de doçura, a exigir a ameixa de Elvas e sua calda para se tornar uma opção. Provei uma lasca de uma boa tarte baixinha de amêndoa, com textura de quindim no topo, lembrando parcialmente as brisas do Lis. E o bolo de chocolate de aspecto banal revelou-se afinal um belíssimo émulo do bolo da Sophie Landeau, o que não é dizer nada pouco. Faltava-lhe só o rigoroso refinamento, mas catapultou-se para o topo da refeição, junto com o puré de abóbora.

Pedi para falar com a Maria, apresentei-me, cumprimentei-a, falámos um pouco das dificuldades, já durante a refeição tinha ouvido falar de rivalidades, até de ciumeiras. Senti aqui desânimo, e vi o desânimo transbordar para uma sala que considerei triste. Terei sido apanhado num dia mau, foi só isso. Percorrendo asfalto em direcção a casa, não me deixei desanimar. Senti-me um Gordon “nightmare” Ramsay dos pobres, embora não me atrevesse a sacar do vernáculo e dizer face-a-face o que me ia na alma. A responsabilidade sinto-a, e sinto-a não para condenar este restaurante, que continuo a acarinhar, mas antes para o incentivar. Faço uma crítica que é negativa, assumo-o sem pudores, mas que está fundamentada e é desenhado de forma construtiva. Os restaurantes não se fazem sem clientes e é preciso que os clientes apareçam e sejam exigentes. Muitas vezes li críticas negativas que me levaram a correr para o cinema. Espero que seja o caso aqui. É preciso ir ao Alandroal, duvidar da minha palavra, ser exigente e rigoroso, esperar o céu e encontrá-lo. Não faria este apelo se não tivesse a certeza absoluta que do outro lado está toda a capacidade e até a vontade de me desmentir, provando que eu não tenho razão e que n’A Maria, no Alandroal está uma das melhores mãos para os tachos deste país, com vontade de regressar aos bons tempos.

Por |2018-10-12T16:43:19+00:0016:49, 21/09/2018|

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