Também se come com os olhos, e agora também pelos ouvidos. A carioca Kátia Barbosa chegou a Lisboa com a sua filha Bianca, pela mão do activíssimo chefe de cozinha e empresário José Avillez. Luís Antunes rumou até ao Bairro do Avillez para provar o seu Aconchego Carioca em formato pop up, em Lisboa.

Contactos:

Aconchego Carioca – Bairro do Avillez
Morada: Bairro do Avillez. Rua Nova da Trindade, 18. Lisboa.
Telefone: 215 830 290
Horário: Aberto de terça a sexta das 19h às 00h. Sábado do 12h30 às 17h.

Recebi o press release e logo apontei a agenda para o andar de cima do Bairro do Avillez, ali à Trindade. Rezava o documento de muitas bondades que activaram a salivação saudosa do Rio de Janeiro, mas também dos muitos amigos brasileiros que ao longo das décadas tiveram a gentileza de me convidar e dar a conhecer a versão caseira de uma cozinha onde a inspiração vem claramente do mosaico que compõe o Brasil, e onde a cor-Portugal tem o seu lugar de mérito. Em particular, na feijoada.

Dias passados, foram os ouvidos a lembrar-me do assunto. A chefe Kátia e a sua filha Bianca levaram o seu sotaque quente e gingado até mim via rádio. Mais uma inundação salivar, que dessa vez não passou adiante. Nessa mesma noite instalei-me no primeiro andar do Bairro para o menu fixo (30€ incluindo caipirinha, água e café).

Este menu de jantar fica até 14 de Março, sendo que ao Sábado ao almoço há um buffet de feijoada. Descrevo então a função, para convidar os leitores a irem provar por si mesmos e validarem memórias, ou criarem memórias novas.

Chegou primeiro a caipirinha dita “carioquíssima.” Achei estranho que viesse com quatro grandes cubos de gelo em vez do usual gelo picado, e logo me interessei: “então esta é que é a verdadeira? Pensava que era com gelo picado.” O empregado explicou-me que “bem, talvez, não sei, nós chamámos a esta carioquíssima, por isso fazemos como achamos melhor.” Não me convenceu. Continuo a achar que a correcta seria feita com gelo picado, um nome como carioquíssima só poderia adicionar à sua autenticidade, não conferir aos seus autores a liberdade para fazer o que quisessem. Ponto negativo, aliás, nêgatxivo. Também por ter um açúcar dissolvido às pressas. Logo a seguir compensaram-me, com uma cesta que incluía pão de queijo (bom), biscoitos de polvilho (amido de mandioca, bem leves e estaladiços), pipocas salgadas (boas) e torresmos (excelentes, muito secos). Vinha ainda uma pequena taça de manteiga, cuja finalidade me ultrapassava. Tentei com o polvilho, com as pipocas, fiquei sem perceber.

As entradas eram entusiasmantes, em particular pela pompa (hype) anunciada na ementa em torno do bolinho de feijoada, talvez a criação mais badalada da chefe Kátia. Por isso deixei esse para o fim. Provei primeiro o bolinho de abóbora com carne seca, muito saboroso e texturado, com panado e fritura impecável, fui até às praias cariocas com a casquinha de caranguejo, um salteado saboroso de caranguejo de casca mole com temperos, acompanhado por uma farofa a lembrar a areia molhada da praia, muito saborosa, bem aberta e temperada, depois uma almofadinha de queijo coalho, requeijão cremoso e ervas (como um clássico pastel de queijo, mas com mais enredo), a seguir o pastel recheado com costela bovina, um pastelinho de massa de trigo com o recheio saboroso a revelar texturas misturadas da carne, entre a maciez do estufado e a resistência das fibras do músculo do peito, fantástico. Terminei com o bolinho de feijoada. Para deleite dos ouvidos, leiam a descrição do menu em voz alta e com sotaque carioca, mesmo que seja extraído das novelas: “Campeão! Famoso! O cara! Rei da copa” o carro chef! Dispensa apresentações:” E a bolinha de feijoada panada é comida, estaladiça e saborosa, com o interior a desfazer-se em feijão cremoso e saboroso, a batidinha de limão (com cachaça) a acompanhar e incendiar a alma. Muito bom, mas poderia ser para continuar, já que um sabe a pouco. Fica a saudade da feijoada, que pode ser degustada aos Sábados aqui mesmo, mas aí na versão completa. Terminamos as entradas.

Vamos então aos principais. Começamos com bobó de camarão, ou seja, camarão de porte médio refogado em leite de coco e mandioca, servido com arroz branco e farofa de dendê. O molho que costuma ser leve e saboroso, aqui é rico e cremoso, com algum peso enfarinhado da mandioca e uma boa profundidade, bem pontuada pelo sabor e textura da farofa. Um prato substancial, mas eu teria gostado de mais leveza e um tempero mais exuberante, tropical.

O esperado baião de dois é um prato tradicional brasileiro, um arroz para o malandrinho, com feijão de corda (a lembrar o catarino), bacon, linguiça e ervas aromáticas. Aberto no ponto, acompanha uma travessa com carne de sol (ou seca, nunca é clara diferença) grelhada no ponto, aipim (mandioca) frito, e uma cebolada por cima. Para mim faltou alguma integração a este conjunto, a cebola foi feita à parte, a carne com aipim não jogava com o arroz, que se fosse um pouco mais rico poderia ter sido um prato só por si. Além disso, havia um pouco de peso de gordura na carne com cebola. A própria carne, sem dúvida resultado do processo de maturação, tinha uma textura a puxar para o bife de atum, ou seja, perdia algo da sua própria textura. Não sei se é comum grelhar esta carne, mas não me pareceu de todo uma boa opção.

No final, Romeu e Julieta, versão brasileira, ou seja, Queijo Minas com goiabada cremosa, com o queijo a aparecer em palitos grossos fritos. Mais uma vez, há aqui um peso excessivo e um sabor forte da cura do queijo. Para terminar, pudim de cachaça, um pudim de tapioca e leite de coco com calda de melado e cachaça envelhecida. O tamanho individual pequeno era bom para o final desta refeição que já vai longa, mas talvez roube um pouco das texturas que um pudim maior teria, e penso que o sabor alcoólico da cachaça marcava muito a sobremesa, mas não era defeito, era feitio.

Em suma, estes sabores do Brasil trazem saudades, em particular dos botecos do Rio, com o seu jeito gingão, despretensioso, uma simplicidade que aqui encontra bom rigor, nem sempre sofisticação, mas não perde o tom de saciedade farta que é devido à cidade frenética, suas praias e morros.

*O autor não escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico