A 40 minutos da Lisboa, depois de um trajecto dantesco, os céus limpam e chegamos ao sítio mais sossegado, ao acolhimento mais caloroso, ao Portugal mais suave. Deixem-me ficar aqui.

Já escrevi sobre este sítio várias vezes, mas talvez nunca no modo crítica gastronómica, antes numa espécie de tom de confidência de quem partilha um seu segredo mal guardado, uma constatação do óbvio, uma conversa de café sobre um lugar onde o requinte é tão banal que nem se chama requinte, e a banalidade é tão carinhosamente apresentada que nada a torna vulgar.

O Meco é sítio de peregrinação para apreciadores de todo o tipo de comidas, muitas vezes centradas em pseudo-inovações gastronómicas, como a maçadora massada de peixe. Aprendi há muitos anos, graças ao meu antigo camarada e antecessor Alfredo Hervías y Mendizabál, cuja memória daqui saúdo, o caminho de Alfarim para a praia, evitando as vagas de tasquinhas da aldeia e apontando directamente ao areal, logo depois de passar o Peralta. Em décadas, parei por vezes em outros sítios, mas normalmente só uma vez e acabei sempre por desaguar no Bar do Peixe, de Jorge Sousa, a quem já cheguei a entrevistar para listar a sabedoria do peixe grelhado, que domina como poucos.

Numa relação entre um cliente e um restaurante, tal como em muitas outras relações na vida, a primeira impressão é importante, a novidade é deslumbrante, mas depois constrói-se um certo ritual habitual que pode ser tanto ou mais recompensador. Em alguns restaurantes, logo à segunda visita o cumprimento “como está?” denota logo que perceberam este apelo e o vertem no acolhimento. Não é bom dia, não é bem-vindo, é como está, foco no cliente e seu bem-estar, isto para mim é logo um bom sinal. Se não tivermos reservas de alma e conseguirmos retribuir com a mesma abertura, o ritual pode transformar-se num muito apreciado regresso a casa, que é o que sinto aqui no Meco. Meco, já se percebeu, é para mim sinónimo de Bar do Peixe, embora não possa descurar a praia em frente e as dunas, e o facto de que na vista larga do Cabo Raso ao Espichel não se discernir muita vida humana e o céu+mar me encher grande a alma.

Gosto de frequentar este sítio entre fim de Setembro e princípio de Maio, para o partilhar com os não-veraneantes que se afinam pelo mesmo acorde. Chego cedo, manhã já adiantada, e entretenho-me a ler o jornal, enquanto as crianças brincam, mas não sem antes escolher a mesa e o peixe que vou comer. Foi numa destas visitas à arca do peixe que descobri umas gambas de bom porte, cujas pernas gordinhas insinuavam que não tinham andado por territórios árticos. Confirmei que eram frescas, petisco raro, e mais raro naquele tamanho já espigadote. Disseram-me então que apenas as grelhavam com um pouco de sal. Encomendei meia dúzia, mas a nossa mesa era grande e perdi a noção de quantas dúzias acabámos por comer. A separação da cabeça gerava um molho espesso cujo sabor nos transportava para as profundezas do mar. Talvez dum mar vulcânico, já que a grelha deixava sabores tostados e torrados absolutamente sedutores. As tais perninhas trincavam-se na boca para extrair o interior, como se fossem patas de sapateira ou caranguejo. Entretanto vamos à carne do bicho, e está cozinhada na perfeição, crocante, doce, salgada, sumarenta, um deleite. Tenho sempre dado aos meus amigos esta descrição hiperbolicamente boa do prazer destas gambas e eles por vezes desconfiam de que exagero. Mas quando lá chegam e provam, o sorriso abre-se e confirma o prazer. São mesmo assim tão boas. Ainda uma dica final: na grelha de ferro fundido há gambas no meio e outras mais fora. As do meio foram menos expostas ao calor directo e são ainda mais húmidas e sedutoras.

Antes das gambas vem sempre um óptimo pão de Alfarim, acabado de fatiar, com miolo denso e macio, com um queijo de ovelha que me parece sempre mais adequado para o fim da refeição, mas que mesmo assim a minha fome tem dificuldade em rejeitar. Podem ainda vir uma quantidade de petiscos entradeiros, desde sapateiras a saladas de polvo, passando por amêijoas, cadelinhas, canivetes, lapas ou lulinhas fritas à algarvia. Mas como disse, as gambas vencem sempre a minha gula, e chego a telefonar de véspera para as reservar, tal foi a desilusão de uma vez lá ir para as encontrar já esgotadas.

Na banca dos peixes há mesmo assim muito mais: uma gama de peixes fresquíssimos, alguns locais, que incluem salmonetes, pregados, robalos, douradas, corvinas, chernes, sargos, sardinhas na sua época, linguados, imperadores, cantaris, pargos, peixes-galos, etc. etc. A escolha depende da rede do dia, mas é sempre de monta. Quase tudo isto vai para a grelha. Nos peixes mais altos, a opção normal é escalar antes, como é usual nos restaurantes com muita rotação. Aqui a mão da grelha é muito avisada, e pode-se confiar no desempenho. O peixe escalado, se diminui um pouco a humidade e delicadeza final, adiciona em sabores fumados e doçura tostada. Não sou fundamentalista para criticar a priori a decisão de escalar, mas admito que ao escalar o grelhador corre mais riscos. Em qualquer dos casos, se é verdade que grelhar peixe é uma operação altamente especializada, para mestres, também é verdade que em Portugal abundam esses mestres, e aqui no Meco poderia fundar-se uma universidade da grelha e Jorge Sousa seria o seu reitor. A acompanhar estes peixes costuma vir um salteado de batatas, cenouras e feijão verde, que talvez peque por um pouco de excesso de alho.

 

A lista inclui algumas carnes, que já provei, mas que geralmente ignoro. Também tenho ignorado as opções de tostas e pratos leves que possivelmente fazem as delícias dos veraneantes. Eu tenho ido, com muito regalo, a estas que listei. Mas ainda há o capítulo das sobremesas. Gelado de baunilha afogado em sopa de morango é uma proposta fresca. O “melhor bolo de chocolate do mundo” também aparece e é mesmo bom, como é sabido. O gratinado de maçã é fenomenal, com toda a volúpia da manteiga na parte-crunchy, e todo o equilíbrio doçura-acidez da maçã assada por baixo. E o cheese cake de frutos silvestres é outra opção que recomendo, sempre equilibrado e com boa subtileza.

A missão ainda não acabou, embora agora seja a hora de tomar café e esticar as pernas dunas acima. Ou ficar pelos poufs almofadados, espalhados na areia. Ou ainda para ganhar coragem a atacar as ondas da praia em frente, mesmo que a estação não convide, por vezes há dias admiráveis em que elas se oferecem irresistíveis. Ou ainda, já com medo do trânsito e antecipando as saudades do regresso, pode-se começar mais cedo o retorno a casa, devagarinho apreciando a natureza serena da Apostiça, tentando esquecer as agruras de Fernão Ferro, do alcatrão, do bulício da cidade, compensadas por uma alma que possivelmente neste dia está localizada pela zona de um estômago repleto de serenas delícias.

* o autor não escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico.

Contactos:

Bar do Peixe

Morada: Praia do Moinho de Baixo, Aldeia do Meco, Sesimbra
Telf.: 212 684 732

Aberto de quarta a segunda-feira entre as 11h e a 24h.