Luis Antunes entrou esfomeado pela porta da frente do Entra, em Marvila: o mais recente bairro cool da capital. Saiu de lá reconfortado com a boa comida e agradado pela abundância de estacionamento à porta do restaurante, coisa que em Lisboa já vem sendo difícil de encontrar.

Contactos:

Entra
Morada: Rua do Açúcar, 80, Lisboa.
Telefone: 212 417 014
Horário: Aberto de terça a sexta, do 12h às 15h e das 19h30 às 23h. Segunda aberto ao almoço e sexta apenas ao jantar.

A vertigem dos tempos dos restaurantes e seus frenéticos chefes de cozinha, por vezes leva-nos a focar na novidade, como se ela valesse mais do que a velhidade. Fala-se muito na abertura dos novos restaurantes, no sítio X para onde o chefe Y vai, tenta-se por tudo ser o primeiro a dar a notícia. E esquecemo-nos das vezes que deveríamos noticiar que fechou o restaurante Z, que o chefe W, de que tanto gostávamos, agora fechou mais um restaurante, ou que saiu, ou que emigrou, ou que parou de cozinhar e foi dar aulas, fazer vinhos, ou sei lá o quê. Notícias tristes não dão likes, e a malta quer é engagement. Citando a recente entrevista de Rafael García Santos, “temos uma sociedade em que vales é o que és capaz de aparentar ou de vender.” E no que diz respeito aos escritores de perecíveis, como eu, o que queremos aparentar ou vender é a nós próprios e por vezes as linhas que conseguimos colocar a preto sobre fundo branco.

Ai ai, adiante. Este ligeiro rant (vejam como é buéda moderna a minha linguagem, isto é que dá engagement — pronunciar à francesa, só para variar) é para agora vir falar de um velho restaurante, que já abriu há uma data de anos e se tem mantido aberto a servir boa comida, numa zona da cidade que desconfio estará cada vez mais na berra nos próximos anos. Entra.

O Entra abriu já nos idos de 2010, o que confirmei lendo na crónica de mestre Quitério, que vou teimando em saudar. Era na altura propriedade de dois cozinheiros, Pedro Marques e Luís Magalhães, que em Dezembro 2016 passaram a casa a Miguel Brandão, que oficia hoje ao fogão, junto com Dário Cruz e Francisco Henriques. Os três vão gerindo as ementas e distribuindo o trabalho, entre os almoços mais clássicos e os jantares com menu surpresa, que muda todos os dias consoante os ares do mercado e da inspiração.

Acessos e estacionamento muito fáceis, o que hoje em dia e só por si já é um refrigério dos dias da cidade. A sala tem tamanho médio, com equipamentos confortáveis e despretensiosos, cozinha parcialmente à vista, e um atendimento simpático e cordial. Em visita recente, confirmei a candura da oferta, que pelas noites se enforma num menu fixo que custa simpáticos 19.50€ e que incluiu em jantar recente as bondades que descrevo a seguir. Logo de início, uma cesta de pão pode ser usada para desbastar um húmus salpicado de paprika, talvez um pouco menos guloso do que a fome de chegada possa parecer. Benefício da dúvida, será intencional, para que a gula não mine a vontade para o que se segue.

E o que se segue é uma pequena travessa com duas entradinhas, um quase-shot de creme de abóbora com queijo Philadelphia e cebolinho, muito saboroso e reconfortante, e um escabeche de mexilhões, guloso e rico. Acalmada a fome, chega um prato mais substancial, um puré de couve-flor, com grelos salteados, uma peça de espadarte corada na frigideira e uma pequena salada de agriões. O peixe está um primor de suculência, o puré envolve-se com os grelos numa relação que nos seduz e o agrião oferece o seu tempero de acre-apimentado que alegra tudo isto.

Com um bom ritmo, chega o prato seguinte, um pernil de porco assado e desfiado sobre legumes assados e batatinhas novas assadas com ervas aromáticas, couve pak choi, por cima coentros picados e uma espécie de crumble feito com a pele do pernil. Já é preciso um pouco de coragem gulosa para chegar ao fim deste prato, o que significa que não há economia no food cost. Quem quiser de comer tem de comer. É uma boa abordagem à fome do cliente. Eu comi. O prato é rico, quase decadente, tem o equilíbrio certo em termos de gordura, secura, sabores fortes, confortáveis, sem choque estético a opção de desfiar a carne, não é uma simplificação nem uma ilusão para disfarçar debilidades, antes uma decisão de acrescentar uma textura inusitada e muito bem-vinda, como se fosse feita pela nossa mãe em refeição de infância, mas sem nos infantilizar.

O leitor já terá percebido o meu ponto: no frills. Aqui não há intelectualizações, modernizações, alusões, esferificações, tradições, influências, homenagens. Há boa comida, bem confeccionada, servida em doses generosas sem serem copiosas, por um preço muito agradável, num espaço simpático, onde se chega sem stresses, se estaciona sem angústias, se come sem pressas, se conversa sem tumultos. Um sítio a adoptar.

Coragem não é uma coisa que me falte, por isso ainda debulhei a sobremesa, uma dupla que constava de cheesecake de requeijão com compota de abóbora e um brownie de chocolate com frutos secos e sorvete de tangerina, com umas migalhas gulosas crumblelizadas e tudo polvilhado por coisas castanhas (cacau, canela) adequadas a cada um dos momentos. Ambas as sobremesas estavam bem feitas, equilibradas, com o peso certo, mas talvez no fim desta refeição se pudesse aligeirar um pouco mais. Isso traria este momento final para o excelente nível dos pratos salgados.

Não sei se o meu leitor, como eu, está um pouco cansado da next-big-thing e da sua eterna demanda. Por vezes, sabe bem voltar aos clássicos, e ainda vai havendo muitos no nosso país e na nossa Lisboa. Mas os clássicos também se renovam, e em alguma altura terão que nascer os clássicos do futuro. Assim, desejo longa vida a este Entra, que tem tudo para se tornar referência obrigatória na cidade oriental.

*O autor não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico