É sempre uma boa notícia quando o bom-gosto regressa a Lisboa. O renovado Largo do Intendente Pina Manique é um bom exemplo, como é o Hotel 1908, um edifício que dava nas vistas pela sua degradação e agora afirma orgulhoso o seu Prémio Valmor de 1908. Almirante Reis número 2 é uma maneira de olhar para a questão, Largo do Intendente número 4 é outra. A renovação do exterior e do interior manteve a traça e o desenho, e recuperou pormenores de época, como os mosaicos hidráulicos do chão, ou as colunas e escadas em ferro. Entrando (é preciso abrir a porta, porque ela não é automática nem há ninguém para a abrir) invade-nos o olhar o alto pé direito, quebrado e aproveitado por uma varanda interior (mezzanine) que faz o total de lugares chegar aos 80. Espaçoso, bonito, confortável ao mesmo tempo, tudo é simples e despretensioso: toalhetes de papel, lista numa prancheta.

Esta é uma visita pré-reservada, mesmo encomendada, que venho com um amigo que me quer mostrar uns vinhos, precisa de uma opinião. A marcação da mesa não terá corrido pelo melhor, o tratamento aos vinhos também padece de optimismo, a solicitude não é muita, o serviço faz-se ausente. O cuidado com o pormenor nas obras mortas não parece reflectir-se na parte visível das obras vivas, ou seja, a mão que estende o trabalho da cozinha e o leva ao seu destino. Mas com paciência e bonomia a coisa lá se vai suavizando. O chefe de cozinha, Nuno Bandeira de Lima, também sabe ao que viemos, e colocamo-nos na mão dele para que escolha a comida adequada à nossa missão. Na mão dele, salvo-seja, que não fiquei convencido de que estivesse no restaurante neste dia. Apesar de ter sido pedida a sua presença, ele não apareceu na mesa antes, quando o restaurante estava vazio. E quando precisámos de mais um prato, ele já teria saído, ainda antes das 15h00. Talvez estivesse, talvez não, o seu espírito, a sua equipa e a sua cozinha estavam, que a comida apareceu e era boa.

Vamos então ao mister. Há uma tentadora sugestão de almoço executivo a 12.50€, com entrada, prato, sobremesa, bebidas e café. Mas a carta branca está dada e o que aparece é uma veggie pakora com maionese de togarashi, um tempero japonês com vários ingredientes. A fusão Índia-Japão não resulta mal, mas o pakora está um pouco farinhento. Tem boa acidez e um picante suave, que lhe dão equilíbrio.

Veggie pakora com maionese de togarashi

veggie pakora com maionese de togarashi

A seguir vem um bife tártaro com maionese de wasabi, ovas de tobiko e saladinha de rabanetes com agrião. Muito, muito bom. Carne algo curada pelo seu tempero, saborosa, com uma ponta de cebola roxa, um picante do tipo “queimante,” ou seja, subtil, largo, insinuante, agrião em segundo plano, rabanete marinado a namorar com o conceito de pickle, depois mais texturas adicionadas pela fatia de brioche torrado, as ovas a explodir. Só colocaria mais rabanete, duas fatias é muito pouco. Delícia.

bife tártaro com maionese de wasabi, ovas de tobiko e saladinha de rabanetes com agrião

bife tártaro com maionese de wasabi, ovas de tobiko e saladinha de rabanetes com agrião

Adaptado de um prato da lista, vem o xerém de berbigão e alga wakame, mas em vez do bacalhau fresco, traz os robalinhos do dia. O xerém estava muito bom, a alga é uma boa adição em sabor e textura, e o peixe estava saboroso, embora entre o viveiro, o frigorífico e a sertã tenha perdido a delicadeza e suculência.

xerém de berbigão e alga wakame com robalinhos do dia

xerém de berbigão e alga wakame com robalinhos do dia

A barriga de porco mais que compensou isso. A começar, o empratamento sobre um fundo de imagens de sardinhas é um pormenor que logo intriga e desafia o comedor. Chips de diferentes cores de batata doce alegram o prato e crepitam na boca, uma ponta de espargo verde aumenta a crepitação, e o cubo de porco, que se oferece ao olho sem a usual pele estaladiça, mostra como as horas de confecção não só lhe suavizaram a carne, mas lhe adicionaram sabor, o que é reforçado pelo molho doce e suavemente picante.

barriga de porco com chips de batata doce

barriga de porco com chips de batata doce

A carantonha já amainou, e estamos bem lançados na apreciação desta cozinha talentosa e estudiosa, que se dedicou a entender o seu sítio e as múltiplas influências da parte mais cosmopolita de Lisboa. Decidimos pedir mais uma carne, para terminar.

mas provavelmente já estamos a maçar. são 15h e já nada pode ser servido. fico incrédulo e pergunto pelo room-service do hotel. sim, existe. venha então a tosta-mista. o pedido acende o bom-senso de alguém na cozinha, e trazem em vez da tosta uma sanduíche de pá de porco. na verdade, é um magnífico pulled-pork, servido num fofinho pão de leite e com agrião a refrescar. mas a estrela é o porco, muito quente, especiado, picante e doce, a chegar fogo e espírito em cada dentada.

pulled-pork

pulled-pork

duas sobremesas, só para provar. o bolo da má vida, com tâmaras, caramelo de whisky e gelado de lúcia lima e  parfait japonês, de matcha, com gelado de líchia e crocante de chá verde. bolo mais excitante, rico e exuberante, que as sobremesas japonesas ficam sempre pela delicadeza, subtis e etéreas como um haiku.

bolo da má vida, com tâmaras, caramelo de whisky e gelado de lúcia lima

bolo da má vida, com tâmaras, caramelo de whisky e gelado de lúcia lima

parfait japonês, de matcha, com gelado de líchia e crocante de chá verde

parfait japonês, de matcha, com gelado de líchia e crocante de chá verde

 

 

 

 

 

 

 

chegámos ao fim, e não foi fácil, porém levamos a batalha ganha em termos do interesse e qualidade da cozinha. mas a seguir o bom-senso ausentou-se outra vez. após um longo período sem serviço, chamo o empregado para pedir cafés. que não podem servir, nem cafés nem mais nada. são 15h49 e às 16h há uma formação, a sala tem que ser preparada. incrédulo agora é dizer pouco. estamos já realmente a maçar, é altura de nos tornarmos ausentes, não sem que antes eu deixe nota do meu desagrado no livro de reclamações. infame.

Contactos:
Infame
Largo do Intendente Pina Manique, nº4
1
100-285 Lisboa
Tel.: 218 804 008
Horário: aberto todos os dias do 12h às 15h e das 19h às 22h30

* o autor não escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico.