Mistu

O Mistu abriu no Porto em finais de 2017 e, desde então, já foi visitado por Paulo Russell-Pinto umas quantas vezes. Da sua experiência, o crítico garante que a carne é coisa que nunca falha. Mas e o resto? É ler nas linhas seguintes.

Contactos:

Mistu
Morada: Rua do Comércio do Porto, 161. Porto
Telefone: 926 682 620
Horário: Aberto de segunda a sexta das 19h30 às 23h30. Ao sábado e domingo, do 12h30 às 15h30 e das 19h30 às 24h

A entrada no Mistu, feita por baixo da mezzanine que serve a sala do segundo andar, leva-nos a parar no bar estreito e confortável antes de nos sentarmos na mesa reservada. A simpatia do barman dispensa-me da lista e faz-me pedir um Negroni. Um Negroni parece simples de fazer, mas para ser bom tem que ter os três ingredientes — Gin, Campari e Vermute — bem equilibrados. Assim foi: segurança e técnica, atributos importantes num barman, estavam lá, mesmo quando lhe foi solicitado um Pisco Sour, o cocktail da moda, ou um dos da casa, o Mistu.

Devia, porventura, ter pedido um Daiquiri, tal o ambiente da sala nos transporta para os pátios coloniais de Havana, com tectos altos, ventoinhas a rodar lá em cima, varandas em ferro, floreiras e enormes portas em vidro antigo que podem abrir para uma rua da ribeira do Porto,  trazendo o fresco no final da tarde no verão.

No Mistu a comida partilha-se em doses generosas e a lista, de uma página, está dividida entre pratos frios e quentes. Há uma enorme preocupação do pessoal de sala em explicar o conceito do restaurante, algo que aconteceu de todas as vezes que o visitei. Comida do chefe com inspiração sul americana e asiática.

Curiosamente, ao couvert servido dá-se um nome francês: Crudités. Legumes crus (tomate, aipo, pimento, cenoura, rabanete) cortados finos e servidos num prato com gelo, a transpirar frescura, para ser acompanhado por três molhos: mascarpone com nozes, cenoura e iogurte, menta e lima.

Do lado dos frios vieram o ceviche de peixe cru, que naquele dia era corvina. Bem cortada, mas pouco marinada nos citrinos, era mais tártaro que outra coisa. Os coentros que o encimaram trouxeram complexidade ao prato. Veio uma batata doce que marcava muito a boca e se sobrepunha a todos os outros sabores. O leite de tigre era bom. Quando pedi o ganache de foie gras, confesso que o nome me assustou, por não saber o que esperar. Era uma textura cremosa com pouco sabor a foie — não se percebe se há natas misturadas — e acompanha com um pão de gengibre muito intenso, que mais parece um christmas pudding, sem a delicadeza do brioche. As ostras, servidas ao natural e com um molho cuja base era o vinagre balsâmico, contribuíram para dar complexidade a um clássico. No sabor final há um equilíbrio harmonioso entre o sabor do molho e da ostra, que compete muito bem com outras invenções que por aí andam. Para quem gosta de ostras é uma boa opção. Para quem não gosta, é carregar um pouco no molho e tem uma boa experiência. Por alguma razão a causa de caranguejo de casca mole é uma das assinaturas do restaurante: complexa, picante e vibrante, com muita proteína a dar personalidade ao prato. O creme do caranguejo é bem temperado e a base, centrada em abacate, é interessante e compõe o conjunto.

Já o tornedó de vitelão é outra loiça. Está na lista dos quentes e vem para a mesa com um cheiro incrível, intenso e apaixonante. A grelha bem dominada, num perfeito mal-passado: cinza por fora e vermelho dentro, com um sabor intenso e prolongado. Vinha acompanhado com tomate cereja, cogumelos, milho e espargos, todos no ponto, com o sabor individual a acrescentar algo ao prato. O cubo de polenta, que parece trufada, é bom. O cupim com cerveja também tem o sabor característico da peça, tostado por fora, intenso, acompanhado por um puré de batata doce muito leve. Havia chips de mandioca para dar textura. É um prato bem conseguido, que dá vontade de repetir. O polvo, corado, bem assado e tenro, mostrou uma boa presença do pimentão. Veio, porém, com sal a mais, o que o fez perder um pouco no sabor. O edamame (soja verde), cozido firme e o ovo, tudo misturado, remata o sabor. Comidos sozinhos, sofreriam um pouco.
A massa katafi do leitão bísaro era muito fina e elegante. Envolvia uma anunciada espuma de batata que era, afinal, um creme e ainda bem, porque o leitão precisa de algo denso para estar a par. A picanha, carne que mais uma vez se apresentou no ponto perfeito, estava ladeada por um feijão mais mexicano que brasileiro, no entanto muito bom. Todo o prato era intenso e saboroso.

De destacar o caso raro em Portugal das carnes estarem sempre no ponto pedido e a cozinha saber distinguir cada ponto de confeção.

O serviço de vinhos apresentou-se cuidado, ágil e segundo as regras, com uma lista curta, embora versátil. Aliás, todo o serviço de sala, da receção ao acompanhamento, mostrou-se competente e acertado.

Nas sobremesas destacaram-se a panna cotta de manga, o fondant de doce de leite e a tapioca de gengibre, que comprovam um bom domínio da pastelaria e fazem jus à procura dos sabores sul americanos e asiáticos do conceito: um desafio ambicioso mas bem conseguido à mesa do Mistu.  

Por |2018-10-12T16:45:13+00:0010:00, 31/08/2018|

Partilhar com um amigo