Paulo Russel-Pinto voltou à capital para encontrar um inesperado paraíso de carne no restaurante Sal e Brasas, a prova viva de que ainda existem locais genuínos de comida simples, com alma e que passam ao lado dos preços exagerados.

Contactos:

Sal e Brasas
Morada: Rua de Campolide, 372E, Campolide, Lisboa.
Telefone: 917 505 313
Horário: Aberto de segunda a sábado, do 12h às 15h e das 19h20 às 23h.

Que bom sair para jantar e não sentir o pretensiosismo pelas coisas da moda, mas sim o lado genuíno de uma refeição preparada por gente que parece fazer por paixão aquilo que outros querem muito conseguir através de um esforço plástico e preços exagerados. 

Para minha grande felicidade, aconteceu encontrar um local assim simples e cheio de alma na cozinha em Lisboa.

O Sal e Brasas, em Campolide, propõe-nos uma extensa lista de carne maturada (e outras), sem parangonas, atitudes finórias e sem nunca se anunciar até nos sentarmos à mesa e pedirmos o menu. É um restaurante de carnes grelhadas, sem nomes estrangeiros e é assim que quer ser! 

Com cortes portugueses, brasileiros e internacionais, a carne maturada é um segredo que acaba mal se entra no espaço amplo e luminoso, de decoração tradicional, de paredes brancas grandes vidraças para o exterior: há uma câmara frigorífica que está à porta com magníficas peças de carne à espera de serem escolhidas pelos clientes. Ao me deter a observar as peças e as suas cores, logo me apercebo que entrei numa casa de onde posso sair muito feliz. 

Nas entradas, a linguiça anunciada como alentejana podia ser de qualquer lado. Tem alguma personalidade no sabor e no picante, mas morre na boca como uma salsicha de rodízio. Já a bolinha de carne era feita de uma pasta densa e com bom sabor a carne. A chamuça era crocante como se exige e especiada como se deseja. Também veio um queijinho de cabra cremoso e com algum amargor e bom de sal. Uma boa escolha.

Nas carnes, a Fraldinha chegou no ponto pedido. As fibras afastadas, a carne maturada com final seco e doce.  É um corte aristocrático, elegante, e sente-se bem a maturação, com as ervas secas e cogumelos a surgirem-nos naturalmente na boca. A Posta, peça mais intensa com mais saborosos veios de gordura e portugalidade, apresentou-se também no ponto, no seu perfeito tempero de sal, gosto intenso e persistente. A Costeleta, grande, cinza por fora e vermelha por dentro, densa e com um sabor a especiarias doces, tinha um sabor bem equilibrado entre a grelha e a maturação curta, mas presente. A Picanha, de grande qualidade e densa na textura, vem com os clássicos acompanhamentos que nos remetem para o Brasil. O Black Angus, escuro e com gordura cheia de sabor maturado, parecia na boca uma floresta saborosa, um prado, mais uma vez com a quantidade de sal apenas necessária para trazer personalidade ao corte! Ainda houve tempo para um Secreto: sabor equilibrado a limão do tempero e à carne do porco com alguma gordura raiada, resultando num sabor bem equilibrado. Um notável destaque para as batatas fritas muito finas, secas e estaladiças que acompanham os pratos, que nunca desiludiram em nenhuma das visitas. Boa opção é também a escolha a partir da lista de arrozes para acompanhamento, que ali estão mais para satisfazer a vontade do cliente do que pela necessidade de harmonizar as comidas. 

Resumindo: no Sal e Brasas há carnes bem escolhidas e preocupação com a matéria prima que entra na casa e como ela é tratada, no estágio e na cozinha, até ser servida ao cliente. Há uma boa lista de vinhos e um serviço informal e um lado discreto de quem nos quer servir bem enquanto gosta do que está a fazer.