Sentar solitário ao balcão é sinónimo de uma refeição triste e nostálgica? Au contraire. Num bom balcão nunca se está sozinho, entre tábuas, fogo e shakers, a refeição pode ser divertida, cheia de aprendizagens, relaxada. O Tapisco, de Henrique Sá Pessoa, acabou de abrir e já lá fui. Tapear?

Nota prévia: desde há muitos anos, mais exactamente desde que Joaquim Figueiredo anunciou a sua saída prematura do Tavares Rico, que nunca mais dei período de adaptação a restaurante nenhum, como os meus mestres me tinham ensinado. Isso, constato eu e constataram eles, eram coisas de outros tempos, quando a vida tinha um ritmo mais lento. Agora, é fogo à peça, antes que o palheiro arda. Na verdade, é mais justo assim, que me conste os restaurantes mal abrem começam a cobrar as refeições aos seus clientes, não lhes dão qualquer período de carência. Se não queremos período de nojo, não demos, portanto, o de carência. Os restaurantes também já incorporaram este ensinamento, e quando querem abrir sem abrir fazem um “soft opening” anunciado, sinal de que não me querem ainda lá, ou se quiserem é em condições especiais.

Não foi nem é o caso do Tapisco, e desde as primeiras descrições que eu estava doido para lá ir. Porquê a este, perguntar-se-á, quando há tantos restaurantes a abrir e a fechar em torvelinho? Porque gosto da comida do Sá Pessoa, que está melhor que nunca no Alma, e porque gostei da sua descrição do novo sítio: “É o restaurante onde eu gostaria de ir comer.” Rui Sanches, administrador do grupo Multifood (proprietário com Sá Pessoa do Tapisco, do Alma e do Cais da Pedra), diz: “uma cozinha honesta e despretensiosa, com comida para partilhar.” A junção dos universos dos petiscos de Lisboa com as tapas de Barcelona também me soou bem, tal como a novidade da carta de vermutes.

Mas não são realmente precisas tantas justificações. Apeteceu-me. Primeiro ponto negativo, é preciso munirmo-nos de paciência para estacionar o carro. Adiante, é Lisboa, é mesmo assim, na verdade, os turistas não têm carro. Entro numa antiga padaria, com escritos no chão gravados em mármore de várias cores: Padaria Taboense. Lá dentro da decoração original sobra só o bonito mármore raiado. Há um balcão do lado direito, com uns 9 lugares confortáveis, e do lado esquerdo umas 5 mesas de 4 lugares. Por trás do balcão, cozinha à vista, pequena garrafeira climatizada, prateleira de vermutes, zona de bar e de empratamento. Como estava sozinho, sentei-me ao balcão, sempre dá para observar os trabalhos e conversar com os cozinheiros. Vi a lista no toalhete de papel e aconselhei-me com a simpática empregada: não trago muita fome, e os pratos são para o grandote, o conceito da casa é de partilha. É o segundo ponto negativo, e será o último. Quem quer picar ou petiscar gosta de ter alguma variedade, e aqui o tamanho das porções só dá para picar em modo partilha. Já agora, ao balcão só se partilha confortavelmente entre duas, ou – vá lá – três pessoas, por isso sugiro que repensem esta questão da oferta e sua dimensão. Mas pronto, decidi-me por pedir pelos preços mais baixos, pensando, penso que correctamente, que seriam as porções mais pequenas. Vamos então à descrição, de um almoço que foi apesar de tudo relativamente leve.

Veio primeiro a Esqueixada de Bacalao, à qual pedi para retirarem as azeitonas. Que prato magnífico, como um gaspacho enriquecido por um brando bacalhau “al punto de sal,” ou seja, salgado durante 4 horas e depois congelado, ainda em alto mar. O peixe descongela então no restaurante e é fatiado e temperado, depois a combinação de tomate com sua água, o tempero rico e excitante e uns rebentos de coentros por cima dão uma alegria adicional. É preciso pedir a colher e levar este prato delicioso até ao fim, apreciando cada fatia texturada de bacalhau com o tomate espevitado.

La Bomba de Lisboa é uma interpretação portuguesa da popular tapa catalã. Um centro de carne e alheira rodeado de esmagado de batata, que depois vai panar com migalhas de pão panko, para aumentar o efeito estaladiço, e são servidas com molho alioli colorido por uma colherada generosa de “salsa brava.” Mais um prato de confortável prazer, para degustar em declinações de texturas e sabores ricos.

esqueixada de Bacalao

 

la bomba de Lisboa

O meu plano era ficar-me por aqui e não escrever nada, mas como me apetecesse escrever, decidi ir um pouco mais longe. Pedi os legumes grelhados com salsa Romesco. Os legumes são variados: alho francês, pontas de espargos verdes, brócolos, pimentos vermelhos e foram bringidos brevemente (excepto os pimentos, que foram assados e pelados). A seguir vão num tabuleiro ao forno do Josper, onde ganham em sabores tostados, fumados do carvão, ligeiramente queimados (“charred”). Levam então um tempero de manteiga noisette, efeito reforçado por avelãs torradas, e finalmente umas pontitas de molho Romesco (um molho catalão, da zona de Tarragona, que leva tomate, alho, avelã, amêndoas, pão torrado, vinagre, azeite, paprica). Este é um prato generoso, tanto em quantidade como no incrível sabor. Conforto, mais uma vez a palavra chave. É daqueles pratos que nos fazem pensar que ser vegetariano não deve ser assim tão mau. Cada garfada trazia mais uma textura, mais um sabor, mais uma combinação, sempre gulosa e prazenteira.

legumes grelhados com salsa Romesco

Já não estava em maré de hesitações, e com o café provei a mousse de chocolate negro com azeite e flor de sal. Boa mousse, competente, flor de sal a alegrar a prova, mas as esferas de azeite tiveram uma presença discreta, deixando a combinação um pouco aquém do ideal. Faltou mais sabor a azeite, tanto em quantidade como em qualidade. Mais profundidade, mais ousadia.

mousse de chocolate negro com azeite e flor de sal

 

Mas, de que me queixo? Este foi um belíssimo almoço, que me apeteceu logo relatar, para desafiar os meus leitores a atacarem este antro de bem comer. De preferência em grupo, até que a casa repense as dimensões das doses. Por mim, quero muito voltar e picar os pontos que deixei em aberto na lista, que, ao que me dizem, mudará consoante as estações. Entre tapas e petiscos.

Contactos:
Tapisco

Rua Dom Pedro V, 80
1250-096 Lisboa
Telf. 213 420 681

Horário: aberto todos os dias do 12h às 00h.

* o autor não escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico.