É por baixo do mapa antigo do caminho marítimo de Portugal para o Brasil, entre caravelas e naus que navegam no teto, que nos sentamos diante do Tejo. O menu, preparado por Bruno Dal Bianco, é servido por cima de jogos de tabuleiro da Majora e não são precisos dados para avançar casas (que é como quem diz, pratos).
Onde antes funcionava um conjunto de antigas fábricas de fiação de tecidos (construídas no século XIX) é agora uma ilha com 23 mil m2 de criatividade e arte. E, onde antigamente era a sala de convívio dos trabalhadores da Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, hoje figura o Rio Maravilha inaugurado em meados de outubro de 2015.
O ponto dos trabalhadores era picado em fichas, nas quais hoje se podem ler as criações do chefe Bruno Dal Bianco, que aos 29 anos assume a chefia do gastrobar Rio Maravilha. “Vim visitar Lisboa e fiquei apaixonado. Disse para mim que tinha de viver em Portugal e passado três anos aqui estou”, conta o chefe. Filho de pai italiano e mãe brasileira, Bruno frequentou a ALMA – Scuola Internazionale di Cucina Italiana. Depois disso, trabalhou com Andrea Berton, no famoso Trussardi Alla Scala, com Phillip Levéille e com Claudio Sadler. Trabalhou no JOIA, com o chefe Pietro Leeman, que em 2011 foi considerado o melhor restaurante vegetariano do mundo e o primeiro a ganhar uma estrela Michelin. Amante de arte contemporânea, o Rio Maravilha foi amor à primeira vista para o chefe.
Cá dentro a viagem é outra: “Quando pensámos que cidade iríamos simbolizar Portugal com o mundo, o Rio de Janeiro foi imediato. Não foi preciso pensar muito”, sorri Roger Mor, responsável pela comunicação do espaço. O edifício impõe-se ao tempo e, por cima do bar aberto, giram globos terrestres e caravelas portuguesas que não se perdem. No pouco espaço que existe, há mesas pequenas e cadeirões vintage e, na parede, um quadro com o primeiro anúncio de um fato de banho brasileiro. A esplanada tem uma mesa única com o intuito de sentar pessoas diferentes. E à frente da cozinha (também aberta) estão também duas mesas grandes com o mesmo objetivo: Promover o convívio. “Criar laços com as pessoas e o mundo”, conta Roger.
O caminho do bar para a sala de jantar é acompanhado por uma vitrine e, no horizonte, está a ponte 25 de Abril toda iluminada. Para abrir o apetite é servido ‘gin fizz de manjericão e gengibre’ (8€) preparado por Diogo Petronilho, o barman responsável pelos cocktails que namoram todo o menu.
Assim como o chefe, também as entradas chegam à mesa: ‘Punheta de bacalhau, feijão branco, tomate confit e salva frita’ (10,50€) é uma reinterpretação de Bruno que foge ao clássico; ‘Creme de abóbora com cogumelos tostados e carne seca’ (6,60€) é a segunda opção. “A abóbora é fumada no carvão e a carne seca sofre uma semana de cura com sal, no total de sete mudanças, e depois é fumada a 70/80 graus”.
De seguida são servidas ‘Gambas panko, abacaxi na brasa e areia de amêndoa’ (15,90€), onde a fruta é grelhada num forno Josper a 400 graus. Uma criação de Bruno que afirma que “antes de bonito, tem de ser gostoso”. Ainda nas entradas segue-se o ‘velouté de cenoura amarela, micro legumes e caranguejo de casca mole com fondue de queijo’ (10,50€). O caranguejo é passado por um polme com “cerveja preta e especiarias” e, no fim, é regado com óleo de ervas (manjericão, coentros e cebolinho) feito por “decantação e filtração”, explica o chefe. ‘Rum sour de ananás braseado, mel, alecrim e paprika’ (8€) foi o cocktail escolhido para ligar as entradas.
Para prato principal começa-se por ‘Risotto de beterraba, grana padano 24 meses e pesto genovês’ (16,90€), uma homenagem ao mestre de Bruno, Gualtiero Marchesio, considerado o fundador da cozinha italiana moderna. Ao contrário do que é costume, o chefe não usa arroz arbóreo, mas sim carolino. “É um prato pessoal, ou você gosta ou você odeia. Não vai gostar mais ou menos”, conta Bruno que já o apresentou em alguns concursos. Desta vez, o vinho que entra em cena é o ‘Casal de Santa Maria Tinto 2012’ (21€).
O segundo prato é servido de seguida, ‘bacalhau com pó de azeite’ (19€). Para o acompanhar o chefe criou uma espécie de “batata a murro”, com batatas roxas da América do sul: “Transformo-as em puré e depois moldo-as e levo ao forno”. A acompanhar é servido um ‘Vicentino Branco 2014’ (22€) para limpar o palato.
Para finalizar, a sobremesa é uma interpretação de tiramisú, ‘macaron de capuccino com tiramisú, língua de gato e gelatina de marsala’ (7,50€). Vem acompanhada de gelado de louro e ‘expresso Martini com hortelã’ (7€).
O fim da sala para jantares é decorado por um quadro em que Ana Velez se inspirou na primeira planta original do edifício em 1846. Já o caminho para a casa de banho é uma viagem pela arte. No corredor, o candeeiro da autoria de Maria Sassetti ilumina o chão escuro e na sala comum há uma banheira, que serve de lavatório. Fica por baixo de um projetor que ilumina o espaço, com videoarte da responsabilidade de Joana Gomes. A ideia é “encenar uma conversa até na casa de banho”, diz Roger.
Mas a arte não se fica por aí. No início de verão de 2016 foi inaugurado o terraço, com uma imagem 3D de Leonel Moura. “Simbolicamente temos o passado representado pelo Cristo Rei, do outro lado do Tejo, e deste, temos a mulher do convívio, do leve, da diversão”, conclui o responsável pela comunicação do Rio Maravilha.







