António Galapito chega à hora marcada. A descontração adorna a conversa. “Fácil” parece ser a palavra de ordem para o chefe. Chegou há poucos meses de Londres e, ainda não está completamente assente na cidade. No espaço de um mês já levou duas multas de estacionamento. Após seis anos fora do país, sente Lisboa completamente diferente.

Foi por acaso que a cozinha se cruzou na sua vida. A ambição levou-o em altos voos até Londres. Trabalhou ao lado de Nuno Mendes, o homem que abanou o mundo da gastronomia portuguesa na cidade britânica, no Corner Room e no Viajante, premiado com uma estrela Michelin. Passou pelas cozinhas do Lyle’s de James Lowe até inaugurar a Taberna do Mercado, ao comando da cozinha. Desde dezembro do ano que passou, a ideia de se mudar tinha vindo a fermentar. Voltar de Londres para a terra que o viu nascer e aventurar-se no seu próprio espaço parecia mentira, mas depressa se tornou uma realidade. Com apenas 26 anos, António Galapito está de volta a Portugal para traçar o seu próprio caminho. O Prado, restaurante no topo do aparthotel The Lisboans, é agora a sua nova casa.

Quando percebeste que estava na hora de sair da Taberna do Mercado?

Foi quando surgiu o projeto cá. Já tínhamos obviamente falado nisto e pensado como uma possibilidade, mas ainda não era a altura. Quando vimos o espaço, as coisas mudaram. Houve também um tempo em que eu percebi que estava a desfigurar um bocadinho o que é o conceito da Taberna porque a minha forma de cozinhar já pedia outras coisas. Deixou de fazer sentido. Senti que estava na hora.

Como olhas para Nuno Mendes? Ele é o teu grande mentor?

Sem dúvida! Mas é mais uma relação de amizade. Na Taberna já não havia aquela coisa “eu sou o teu chefe”. Ele deu-me sempre todo o espaço. Tinha apenas 24 anos quando comecei como chefe. Na altura nem era para ser eu, mas quando o Nuno me propôs, disse-lhe “sim, vamos a isto!”.

Abrir o teu próprio espaço já era um sonho?

Não. Definitivamente, não. Foram coisas que foram surgindo. Na Taberna tinha muita liberdade e comecei a desenvolver as minhas ideias. Obviamente que houve uma altura em que quis aplicá-las. Mas ter o meu espaço nunca foi uma coisa que eu pensasse. Preferia trabalhar com ou para alguém. Mas, apercebi-me que, ao final de algum tempo, começamos a desenvolver um tipo de cozinha e, de repente trabalhar para outra pessoa já não faz sentido. Começas a pensar que há coisas que não fazias daquela maneira… é um conflito de ideias.

Como surgiu então tudo isto? Como é estar de volta a Lisboa?

A nossa parceria é com o aparthotel, The Lisboans que já abriu há um ano. As proprietárias são as melhores amigas da minha namorada e, já nos tinham oferecido o comando do restaurante há imenso tempo, mas ainda não estávamos preparados. Em dezembro, fomos ver o espaço do restaurante e, foi amor à primeira vista. Identificámo-nos logo! O espaço quase que dita o que é preciso fazer nele. Dita logo o conceito. Foi bastante fácil perceber. E então pensámos… porque não experimentar fazer algo que acreditamos ter futuro? E assim foi!

O que é que o espaço diz exatamente?

Primeiro é cheio de luz natural, tem um pé-direito de seis metros! É amplo. Pede uma cozinha mais natural e versátil. Pede vinhos naturais. É um espaço artesanal, pede coisas feitas à mão. A ideia é comprar animais inteiros e trabalhá-los de raiz. Quando entrámos no espaço, foi isso que sentimos. Que era algo rústico que precisava de um conceito genuíno. E quando tentámos perceber o que as proprietárias queriam, parecia que falávamos a mesma língua, quando ainda nem tínhamos começado a falar. E quando nos disseram o nome Prado, nós olhámos um para o outro: uau! E disseram-nos que tinham pensado num género de comida mais natural e mais orgânica deu-se o clique.

Quem estará contigo na equipa?

Duas pessoas que trabalharam comigo na Taberna durante dois anos. A Inês (namorada) vai ser chefe de sala. A Maria Rodriguez, nossa amiga desde os tempos do Areias de Seixo, vai ser a sommelier. E ainda estamos à procura de pessoas para a sala. Vamos ser cinco na cozinha para servir entre 60 a 70 lugares. Não queria um restaurante pequeno. É o meu número. O menu estará constantemente a mudar, com uma carta curta e direta. E ao domingo queremos fazer um almoço longo, das 12h às 18h. Porque quando visitávamos Portugal sentíamos que às 16h da tarde estava tudo fechado e, achámos que fazia sentido então servir um almoço tardio.

O que podemos esperar da cozinha do Prado?

Odeio estar sempre a fazer a mesma coisa! Fico aborrecido se emprato o mesmo prato dez vezes seguidas. Por isso, quero que o menu varie bastante e, comprar peças de animais inteiros, vai permitir isso mesmo. A ideia é trabalhar o mais possível os produtores orgânicos e principalmente ingredientes sazonais. O desafio é maior, se bem que, normalmente as coisas combinam umas com as outras quando estão na mesma época. Tenho uma cozinha super simples, dois ou três ingredientes no prato. Zero degustação, tudo à carta. Queremos ser um espaço descontraído, abrir as portas e dizer “venham”. Queremos ter a oportunidade de explicar ao cliente o porquê de ser escolhido vinho biológico ou natural. E o porquê daquela referência. Quero que olhem para o prato e identifiquem claramente o que está ali. Não é preciso ter um curso de cozinha ou ser um foodie para entender. Não é para pensar.

Tu que estiveste tanto tempo fora, agora que estás de volta ao nosso país que principais diferenças vês ente Portugal e Inglaterra?

Na altura, em 2010, quando fui para Londres, era assustador ver a diferença ao nível da gastronomia nos dois países. Aprendi muito em pouco tempo. Agora, Lisboa está com uma energia brutal! Mas infelizmente, continua ainda a precisar de evoluir para chegar ao nível de Londres. Mas bem, ainda não consegui assentar e apreciar a cidade. Quando pararmos um bocado, queremos ir visitar os milhares de restaurantes e provar todo este boom. Por agora estamos concentrados no Prado. As obras acabaram esta semana e é preciso dar os últimos retoques. Se tudo correr bem, devemos abrir em meados de novembro.