O apelido não deixa margem para enganos. Francisco é filho de José Bento dos Santos, uma figura da gastronomia e do vinho em Portugal. O engenheiro biológico de formação bem tentou fugir ao caminho que o futuro lhe reservava, mas o mundo vinícola acabou por levar a melhor. É, desde 2012, o responsável pela propriedade da família Quinta de Monte D’Oiro, em Alenquer, e parte de uma longa história de amor pelo melhor do que a terra oferece. 2017 é um ano importante para esta casa que comemora 20 anos desde da sua primeira vindima e a marca de três décadas desde os primeiros estudos acerca do solo e clima dos terrenos da quinta. Um trabalho de gerações agora com Francisco no comando e com a responsabilidade das que se vão seguir.

Que balanço faz destes 20 anos de Quinta de Monte D’Oiro?

Este é um trabalho que vai além dos 20 anos. Estivemos dez anos a estudar e a pensar em como fazer as coisas e depois outros tantos, já com o comboio em andamento, em que aprendemos a conhecer o nosso terroir, as castas e as parcelas. A partir de 2006 e já com a atual equipa técnica no comando, com a enóloga Graça Gonçalves e o consultor francês Grégory Viennois, iniciámos a conversão de toda a nossa viticultura para o modo biológico e entrámos numa nova década de uma espécie de ‘fine-tuning’.

Hoje em dia, os nossos vinhos estão cada vez mais precisos, genuínos, transmitindo a identidade própria do terroir onde nascem. É que as vinhas, ainda longe da complexidade característica das vinhas velhas, já começam a ter uma maturidade própria da idade ‘adulta’. Afinal a idade média das nossas vinhas é de 20 anos, e nos últimos dez, não viram um pesticida, herbicida ou químico que fosse. Conhecemos cada vez melhor as nossas parcelas, aprendemos a cada ano de colheita, vamos afinando milimetricamente todo o processo. Enfim, ainda nos falta muito para os 200 anos que a Madame Rothschild (fundadora da Château Mouton Rothschild) dizia serem os mais difíceis, mas o caminho que percorremos nas últimas décadas já ninguém nos tira.

Em clima de aniversário, que novidades tem a Quinta de Monte D’Oiro para o futuro imediato?

Vamos lançar as novas colheitas dos dois porta-estandartes do nosso portefólio: o branco Madrigal 2016 e o tinto Reserva 2013. Bem como um novo Ex aequo, da colheita de 2013, em quantidade muito limitada. E ainda, numa estreia absoluta, um Petit Verdot a solo da colheita de 2012. Antes do verão, lançámos um Reserva rosé, da colheita de 2016, que esgotou ainda antes de sair para o mercado.

A maior novidade só vai chegar ao público daqui a dez anos. Plantámos este ano, mais nove hectares de vinha – que, não parecendo muito, correspondem a um aumento de 45% da nossa área atual.

 

Inauguração da Adega da Quinta Monte D’Oiro em 1997. Fotos: DR

Como é ser filho de uma figura importante no setor e que impacto tem na forma como conduz a Quinta do Monte D’Oiro?

É um privilégio, claro, mas também uma grande responsabilidade! Eu orgulho-me de ter influenciado a conceção e a estratégia da Quinta do Monte D’Oiro desde o início. Mas é evidente que os principais pilares foram definidos e desenhados pelo meu pai. Trabalhamos juntos desde o tempo em que ele era o meu treinador de rugby – na altura eu era o capitão de equipa – e discutíamos a equipa que deveria entrar em campo, as opções de jogo, quais os jogadores a premiar ou a quem fazia falta um puxão de orelhas. Portanto, levar para a frente o trabalho que o meu pai começou, com uma equipa formada e treinada por ele, é-me relativamente natural. Na Quinta do Monte D’Oiro estamos familiarizados com os termos rigor, excelência, trabalho, precisão e atenção ao detalhe.

Em que se revê no seu pai?

Sem falsas modéstias, acho que absorvi bem a educação e o ‘treino’ que recebi. Sinto isso, por exemplo, quando tomo decisões sem necessidade de o consultar, mas absolutamente convicto de que é o melhor para a empresa e de que terei o seu apoio incondicional.

 

Francisco com o pai, José Bento dos Santos. Foto: DR

Francisco com o pai, José Bento dos Santos. Foto: DR

Porque trocou a engenharia pelos vinhos? Era inevitável?

Fui habituado a provar e a apreciar vinhos desde muito novo. Mesmo sem compreender muito bem a magnitude do que estava em causa, tive a sorte de bebericar algumas das melhores referências do mundo. Atualmente tenho prazer em beber um bom vinho à refeição, mas não sou de todo um especialista, um aficionado ou um enorme apaixonado pela bebida em si. No entanto, fascina-me o mundo do vinho e tudo o que o envolve – desde a produção – com toda a dependência da natureza mas também sujeita à intervenção humana – ao negócio como um todo, incluindo a comercialização, a gestão financeira, o marketing, a comunicação e os fenómenos de consumo da bebida.

Acredita que a gastronomia teve um papel importante, nos últimos anos, quanto ao vinho diz respeito?

Sem dúvida. A revolução que a nossa restauração sofreu, o boom do turismo e o sucesso de alguns chefes portugueses ou lusodescendentes no estrangeiro – como os casos de George Mendes e Nuno Mendes – vieram ajudar, e muito, a que o mundo prestasse mais atenção aos vinhos portugueses.

Como vê o panorama do vinho em Portugal?

Os vinhos portugueses estão cada vez melhores e já competem, em qualidade e em preço, com o que de melhor se faz no mundo. Creio que disso não haverá grandes dúvidas. Mas continuamos a ser uns ilustres desconhecidos pelo público em geral. Graças a um meritório trabalho de todo o setor, a imagem dos nossos vinhos junto de alguns líderes de opinião já é muito positiva e motivadora, mas temos agora de melhorar a comunicação junto do trade e sobretudo do consumidor final. Embora para isso seja essencial o tal trabalho junto dos líderes de opinião.