O Douro sempre fez parte da sua vida. O frio da madrugada, a torreira do pino do meio dia e as vinhas já ali. A sua família, os van Zeller, trabalham com vinhos na região desde 1620. O seu pai, Cristiano, é um nome forte no mundo da vitivinicultura e o atual administrador da Quinta Vale D. Maria, propriedade da família. Ao lado do progenitor, Francisca, com 31 anos, mostra-se defensora do Douro e do que nasce e cresce na terra que é sua, desde sempre.

“No mundo dos vinhos é preciso saber contar histórias”, foi a frase que o pai lhe disse quando ainda estava a decidir o que estudar. Afinal, a enologia poderia guardar para mais tarde. Por isso, ainda cedo, a jovem Francisca rumou a Londres, onde se licenciou em história. A vontade de aprender mais fê-la tirar um mestrado em jornalismo, em Madrid. Mais tarde, aí sim, adquiriu o conhecimento técnico que precisava no curso de vinicultura e enologia. Nessa altura percebeu que a sua verdadeira paixão passava por comunicar o Douro e os seus vinhos, o mundo que a faz realmente sentir “viva”. Depois das experiências profissionais na marca Bacalhôa, como relações públicas, e no hotel Six Senses Douro Valley como responsável de vinhos, é, atualmente, a gestora da marca de todas as referências da Quinta Vale D. Maria.

Com a determinação característica do Porto e do norte, Francisca é o rosto do futuro, a nova geração van Zeller.

Quando se nasce no seio de uma família com uma história tão vincada num determinado setor, torna-se inevitável fugir a esse legado?

Eu nunca quis fugir ao mundo dos vinhos. O Douro sempre fez parte da minha vida e foi onde sempre me senti livre. E também onde cresci e continuo a crescer. O Douro é o berço do nosso negócio de família há já muitas gerações. Passei lá todas as vindimas, e muitos invernos, com a exceção dos anos em que estudei fora do país. Considero ter tido uma infância privilegiada, pois tive a oportunidade de brincar, de passear nas vinhas com o meu pai, de entrar todos os anos no lagar e sentir-me parte do processo de produção do vinho. Lembro-me de ouvir, enquanto pequena, o barulho da sala de jantar de casa sempre cheia de pessoas de todo o mundo.

Estive presente em todos os passos da criação de uma quinta e de um novo Douro. Depois da venda da Quinta do Noval pela minha família, em 1993, vivi a reinvenção do Douro como região vitivinícola e o aparecimento dos Douro DOC’s tintos e brancos. Vi os meus pais construírem juntos um projeto, de raiz, na Quinta Vale D. Maria. Nos anos 90, sentia-se a antecipação da mudança, a azáfama de novas ideias e a energia de novos e jovens produtores que investiam na região. E que de certa forma interpretavam a região à sua maneira, junto com o meu pai e nomes como Dirk Niepoort, Jorge Roquette e os seus filhos da Quinta do Crasto, assim como, os Ferreira da Quinta do Vallado e os Vito e Xito Olazabal da Quinta do Vale Meão. No primeiro lagar de vinho tinto da Quinta Vale D. Maria, em meados de 1996, entrei para fazer a pisa a pé sozinha vestida com um fato de banho amarelo. Tinha 10 anos.

Em 1993, a Van Zellers & Co foi vendida pela família. O seu pai, Cristiano van Zeller, readquiriu a empresa em 2006. É preciso persistência.

Persistência é uma grande palavra para descrever o meu pai. Tal como um bom vinho, a persistência é um descritivo de qualidade – algo que perdura nos sentidos e na memória. Como pai, estou certa que todas as decisões que tomou, foram de forma a garantir que os filhos tivessem sempre a oportunidade de escolher. E isso é quase sinónimo de liberdade. Como homem do vinho, admiro a generosidade que tem em partilhar os seus conhecimentos com todos ao seu redor.

Apesar dessa ligação aos vinhos, a Francisca formou-se noutras áreas, nomeadamente em história e jornalismo. Que impacto têm essas experiências na sua atual profissão?

O curso de história que frequentei em Inglaterra desenvolveu o meu pensamento crítico, a análise, e ofereceu-me uma visão sobre outras culturas e formas de estar na vida. Foi uma forma de viajar no tempo e no mundo, rodeada de pessoas curiosas, o que para mim foi muito interessante. O jornalismo surgiu como forma de aproximar o curso anterior a algo mais prático. No entanto, rapidamente percebi que a paixão que tenho por comunicar, não passa por comunicar qualquer assunto, mas sim o Douro, os vinhos e o que vou conhecendo de outras pessoas e do mundo, e que me fazem sentir viva.

O que a apaixona no vinho?

Nem todos me apaixonam. Têm que me transportar para uma outra dimensão, para um outro tempo e um outro lugar. Tomar vinho, para mim, é um ato contraditório: algo que interiorizo para me exteriorizar. É uma forma de conhecer outras partes do mundo. Assim como, outras culturas, histórias e gentes. Fascinam-me as loucuras às vezes feitas pelo homem tanto na procura de criar uma grande bebida, como de a encontrar. Gosto das pessoas do vinho. Da maneira que vivem a relação com os outros e com a natureza. Há um respeito pela origem, pela tradição, pelo trabalho, pela identidade e característica de cada detalhe.

Como é ser uma mulher num mundo ainda associado aos homens?

Gosto de olhar para as diferenças como oportunidades. Se o mundo dos vinhos é associado a um mundo de homens, e eu sou diferente, então tenho a oportunidade de construir e contabilizar nessa diferença. O vinho é, por si só, um produto bastante complexo que junta muitas variantes, e, por isso, acho que este é um setor da economia que se está a abrir com muita facilidade à entrada de mulheres.

Sente algum tipo de preconceito?

Sinto no que diz respeito às áreas onde encontro mais mulheres neste negócio, nomeadamente, no marketing e na promoção, e menos na viticultura, enologia e gestão. No entanto, já existem várias mulheres enólogas que abriram o caminho para outras, como os casos da Joana Pinhão – que trabalha connosco – a Sandra Tavares, a Filipa Tomaz da Costa, a Rita Marques, a Catarina Vieira, a Maria Manuel Maia, entre outras. Continuam é a existir poucas mulheres compradoras de vinhos e também um número reduzido nas profissões de sommelier, gestoras (de restaurantes ou garrafeiras), jornalistas e críticas de vinho.

Acima de tudo, sinto a responsabilidade, mais que o preconceito, de me fazer valer como filha de uma das grandes figuras do mundo do vinho, e como parte de uma continuidade de algo criado antes de eu existir e, sobretudo, a responsabilidade de o preservar para quem vier a seguir.

Em 2016 criou o projeto ‘D’Uva Portugal Wine Girls’. A ideia veio dessa continuidade?

O projeto ‘D’Uva Portugal Wine Girls’ nasce precisamente para querer agarrar uma oportunidade em comunicar a nossa diferença. Somos oito mulheres (Catarina Vieira, Luísa Amorim, Mafalda Guedes, Rita Cardoso Pinto, Maria Manuel Maria, Rita Nabeiro e Rita Fino) ligadas à produção do vinho, cada uma de nós com uma função diferente, mas todas no negócio por ligações familiares. Somos parte de uma continuidade, o que é muito importante neste setor. Comunicamos as diferenças que existem nas várias regiões do país, fazendo sobressair as características de cada projeto. Juntas conseguimos também criar uma rede de networking importante e tornamo-nos mais eficientes.

Como tem Portugal desempenhado o seu papel ao longo destes anos no setor?

O setor dos vinhos é dos mais, se não for o mais, fragmentado no mundo. Isto significa uma oportunidade impressionante para Portugal como país, e, principalmente, para cada região encontrar o seu nicho. No entanto, temos um grande desafio, que é comunicar a nossa diferença num mundo tão diversificado. Isso exige muito esforço financeiro na promoção e comunicação dos nossos vinhos. A vantagem que temos é a quantidade de castas portuguesas e a diferença entre cada uma das nossas regiões. Embora à primeira vista signifique que não conseguimos atrair consumidores fieis a certas castas internacionais, por outro lado permite-nos ir ao encontro dos consumidores que procuram novas sensações e descobertas. Como produtores, temos apostado muito na exportação, devido ao mercado nacional ser relativamente pequeno, afinal somos grandes consumidores de vinhos com uma média de consumo de 40 litros per capita mas uma população reduzida. Nos principais mercados como os Estados Unidos, Brasil, Canadá, Alemanha, encontramos desafios diferentes. A educação sobre as nossas castas e regiões, nos últimos 20 anos, já começa a mostrar os seus resultados.

Como são vistos os vinhos portugueses lá fora?

Em 2007, na minha primeira viagem de trabalho à Califórnia, nos Estados Unidos, reparei que em todos os restaurantes, lojas e wine bars, o conhecimento de vinhos portugueses era reduzido, para não dizer nulo. Eu tive que assinalar Portugal no mapa do mundo, mostrar onde ficava a região do Douro e explicar a origem do vinho do Porto e dos Douro DOC’s como sendo da mesma região. Em 2016, quando voltei novamente ao país, o consumidor já era diferente e procurava os nossos vinhos. Além de que conhecia o Douro, sabia nomear castas portuguesas e queria visitar o nosso país. Na Ásia, em particular no Japão, Portugal parece ter uma imagem muito positiva. No Brasil, igualmente. No entanto, os países ‘top of mind’ para escolha dos vinhos ainda são principalmente França, Itália, Espanha, Argentina e Chile. Portugal ainda tem um caminho para percorrer para se afirmar como país produtor de vinho a vários níveis. O vinho do Porto é uma das nossas grandes mais-valias para nos colocar no mapa como país produtor.

Acredita que o mundo dos vinhos ainda é muito fechado em si mesmo?

Acredito que o vinho deveria ser um veículo mais utilizado para abrir portas horizontalmente para outros setores e verticalmente entre os próprios produtores. É um produto diplomático, em volta do qual facilmente se quebra o gelo. Foi responsável, ao longo de séculos, em criar relações internacionais comerciais fundamentais para Portugal, principalmente como o Brasil e a Inglaterra. É um produto aglomerador, pois junta pessoas de muitas origens, culturas e áreas à volta da mesma mesa. Acredito que o vinho pode ser utilizado como um veículo para comunicar Portugal como país, mas ainda tem muito para aprender com outros setores como os perfumes, o whisky ou a cerveja.

Na sua opinião, a linguagem do vinho pode ser demasiado elitista?

O vinho tem vários níveis de densidade ou profundidade. Podemos falar dele a um nível mais superficial, passando pelas regiões ou tentar definir os estilos que mais gostamos. Sempre tive aversão à sua comunicação ao consumidor em torno de uma linguagem técnica, e pouco acessível ou conhecida por todos. Gosto de falar desta bebida de forma descomprometida, utilizando descritivos que a maioria das pessoas reconhece, aproximando-me assim do consumidor.

Existem várias formas de falar do vinho e quanto mais aprofundamos o nosso conhecimento mais específica, complexa, rica e adjetiva se torna a linguagem. Percebo que se veja como elitista este tipo de conversa à volta da bebida. Particularmente, porque para aprofundar o conhecimento do vinho através da prova é preciso dinheiro para pagar referências mais caras, ou viajar até às regiões de onde vêm e dedicar tempo a estudar o leque de descritivos vínicos.

O papel do sommelier cresceu nos últimos anos com a explosão da gastronomia. Qual a importância de um profissional especializado de vinhos num restaurante?

Essencial. A experiência de um vinho pode ser melhor, ou pior, dependendo da temperatura a que se serve um vinho, do tipo de copo, e até mesmo do prato que se escolheu para o acompanhar. O sommelier é responsável pela melhoria da experiência gastronómica à mesa.


Os portugueses estão à vontade quando se trata de escolher o vinho à refeição?

Acho que uma boa característica do consumidor português é a sua autoconfiança na escolha de um vinho. Tem preferências de estilos e regiões e sabe reconhecer o que gosta. Apesar de ainda ser muito comum ouvir certas afirmações como “não gosto de vinho maduro branco” ou “os meus vinhos preferidos são do Alentejo”.

De uma maneira geral, o consumidor está mais curioso. Há muitas pessoas a fazerem cursos na área, a praticarem enoturismo, a lerem e a educarem-se sobre os diferentes vinhos portugueses. O nível de conhecimento do consumidor exige melhorias na imagem, no produto e na forma de consumo do vinho e isto reflete-se em todo o setor.