Com 44 anos, o realizador português é um dos agitadores do panorama da música e, mais recentemente, da gastronomia em Portugal. A preservação da história oral é importante para o seu trabalho e é graças a ele que agora, em formato documental, temos acesso a conteúdo de património histórico, que por outro caminho nunca conheceríamos. Com mais de 30 documentários no currículo, os seus trabalhos marcantes passam pela ‘A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria’, ‘Esporão e a Comida Portuguesa A Gostar Dela Própria’ e mais recentemente – ainda em fase de produção – ‘A Moda da Cozinha’. Esta é a sua história.

Andaste na Escola Superior de Cinema. Como foi o teu caminho até aí?

Sou um gajo que não fui feito para andar na escola. Frequentei todos os liceus da cidade e dois colégios internos. E desisti sempre. E na Escola Superior de Cinema isso também acabou por acontecer. Na altura, tinha entrado em Montagem. No meio do primeiro ano, no verão, fui estagiar com o realizador Edgar Pêra. Em outubro, em vez de regressar para a escola, continuei com ele. Quando voltei, no segundo semestre, lembro-me que a dada altura, numa sala, comecei a cortar a película, fotograma a fotograma, e pu-la a andar para trás. Chamaram-me logo à atenção e disseram: “Se quiser experimentar coisas como o seu amigo Edgar Pêra, esta escola não é para si”. E nunca mais lá meti os pés. Isto tudo num ano.

O que mudou? 


Quando o meu pai (Júlio Pereira) fez uma música para um filme do Rui Simões, acerca do artista plástico Júlio Pomar. Na altura, o Rui estava a iniciar funções de diretor numa Escola de Audiovisuais – das primeiras que existiram em Portugal. Acabei por ingressar nessa escola e acabei o 12º ano. Com 24 anos, fui para o Conservatório de Cinema. Foi um percurso atribulado, não me identificava.

Como surgiu o teu interesse pela história oral?

No final do ano de 1997, estava no Alentejo e filmei um homem sozinho, com a câmara de uma amiga. Mais tarde, no Algarve, gravei um som de um outro homem que cantava atrás de uma casa, de porta aberta. Ele estava a trautear, a imitar o som do acordeão. Na altura, lembro-me de ter achado aquela pessoa espetacular. Mais tarde, quando cheguei a Lisboa, sobrepus o áudio deste homem com o outro que vivia sozinho e fiz o filme ‘Quem Canta Seus Males Espanta’ e ‘Tosco Vídeo-Poema’. Depois disso, lembro-me de ter mandado um email para a Câmara Municipal de Aljezur a comentar o quão incrível era aquele homem e o quanto era a minha vontade de fazer um documentário sobre ele. Disseram-me que era demente e que não viam qualquer interesse nisso. A demência de uma pessoa não lhe tira as características patrimoniais que possa ter.

A partir daí comecei a fazer aquilo que faço hoje. A ir para o interior do país e filmar pessoas. Em 2003, começo a fazer um documentário sobre os burros de Miranda do Douro e fico a viver em Trás-os-Montes, durante uns tempos. Lá conheço a Adélia Garcia e fico apaixonado pelas velhinhas.

A Adélia Garcia era uma referência para ti. A pessoa deixa de estar cá, mas fica uma parte do seu legado e tu estás ligado a ele. Como te toca isto?

O problema disto é que a tua vida profissional está completamente ligada à tua vida pessoal. Muitas vezes digo que eu não trabalho, vivo. Logo, o que acontece é que isso muitas vezes é confundido com o facto de te estares a aproveitar de uma pessoa. Isso é como é visto por fora, pelos outros. A Adélia fazia parte da minha vida, é uma referência na vida e não no trabalho. Ela foi muito importante para mim. Nunca a vi como uma avó mas de facto era alguém que estava lá e que funcionava como um apoio para uma outra parte da vida que eu não tinha. Nunca tive uma família presente. Portanto, a Adélia era a minha ponte para isso. Eu ia a casa dela passar natais, não só para a gravar, mas porque de outra forma teria de ir para a casa de amigos. Eu criei nela uma espécie de âncora afetiva, por isso quando ela morreu, foi complicado. O legado dela existe. Ela para mim representa aquele paradigma entre a pessoa que estava lá, que entra nos meus filmes todos. E toda a lógica que as pessoas tem de cantar porque sim. Ela cantava para ela própria. Mas também representa a âncora, a família. Mas a Adélia morreu.

Ao olhar para trás, qual é a tua opinião sobre essas primeiras experiências?

Essas minhas primeiras criações definem-me. O futuro, o passado e o presente são um ponto em que, às vezes, as coisas se encontram de um lado para o outro. Em 1998, quando sobrepus o som e a imagem daqueles dois homens, estava a viver o meu futuro.

Onde entra ‘A Música Portuguesa a Gostar dela Própria’?

Em 2011, começo a gravar com quatro irmãos músicos, fundadores da Associação Cultural d’Orfeu, localizada em Águeda, o documentário ‘Significado se a Música Portuguesa Gostasse dela Própria’. No ano a seguir, surge ‘A Musica Portuguesa a Gostar Dela Própria’ que hoje conta com cerca de 2600 vídeos.

Como funciona o teu processo de gravação?

Tu sabes previamente quem vais gravar. Eu escolho o enquadramento. Aquilo que sou acusado é de não ter método. Mas eu tenho-o. O meu trabalho não pode ser validado pelas ciências sociais porque eu não tenho um método científico. Tenho o meu método, gravo-o aqui e agora.

Qual é o papel da gastronomia?

Um dia estou a gravar em Albergaria-a-Velha, e sou convidado a almoçar na casa de uma velhinha. Na mesa há rojões, uma taça com molho, papas de milho e açúcar amarelo. A dada altura percebo que tudo aquilo tem uma lógica. A partir daí pensei que tinha que gravar ‘A Comida Portuguesa a Gostar dela Própria’ e assim foi. Enquanto rodava ‘A Música Portuguesa a Gostar dela Própria’, pedia às velhinhas para mostrarem como se faziam certas receitas. Em meados de 2015, sou chamado a uma reunião na Herdade do Esporão e aí nascia um novo caminho.

Como funciona o projeto ‘Esporão e Comida Portuguesa a Gostar dela Própria’?

O projeto tem duas valências: podes gravar alguém a fazer uma receita na primeira pessoa ou convidar um chefe para fazer reinterpretação da mesma. O André Magalhães era o consultor e ajudava-me a escolher as pessoas, as terras, os produtos. Gravámos com quinze chefes, entre o Rodrigo Castelo, Rui Paula e Hugo Brito. Com este projeto comecei a perceber que a cozinha é igual ao mundo da música porque está fechada em si própria. É uma espécie de nicho que não sai para outro mercado. Não há massa critica.

E aí surge a ideia de fazer um documentário sobre o panorama atual da cozinha em Portugal?

Sim. Estamos a viver uma coisa em Portugal que vai estalar. Achei que era importante documentar este momento, que só vai acontecer uma vez. Com o Paulo Amado (diretor das Edições do Gosto), estou neste momento a filmar ‘A Moda da Cozinha’. Temos gravado um episódio por semana, desde janeiro deste ano. A primeira fase é entrevistar alguns chefes portugueses. E depois, numa outra, vamos falar com empresários, restauradores e críticos.

Qual é a tua ideia com este documentário?

É colocar os chefes a conversar uns com os outros. Falarem na câmara sobre como chegaram ao sítio onde estão, o que vêem à sua volta e a sua opinião acerca do futuro da gastronomia em Portugal. A partir de maio vai começar a sair um vídeo por semana no Etaste. Em outubro pretendemos apresentar parte do trabalho feito no Congresso dos Cozinheiros, no LX Factory. Depois disso, vai sair nas salas de cinema.

Quando sentes que deves parar de gravar?

É um processo aberto porque há sempre pessoas para gravar. E é muito triste pensar que vamos fechar uma obra. Haverá um momento em que vamos parar de fazer o documentário para o editar e depois, mais tarde, vamos continuar e fazer uma outra versão.

Do que já gravaste, o que podes comentar?

Acho que ainda há muita coisa por descobrir cá dentro. O verdadeiro boom da gastronomia em Lisboa está a começar. E se calhar, no fim, vamos chegar à conclusão de que não sabemos o que é a comida portuguesa a gostar dela própria. Porque pode ser muita coisa.

O que têm em comum a música e a comida?

Como costumo dizer, o que é bom nesta vida é aquilo que se come, bebe e passeia. A música, tal como a comida, são coisas de celebração. Não tocas apenas por necessidade. Quando fazes música, também comes. A mesa mantém a memória intacta. É a coisa mais importante nas comunidades. E quando trabalho sobre a gastronomia vejo de fora a música e quando trabalho sobre a música vejo de fora a gastronomia e isso torna o meu trabalho em ambas bastante mais rico.