Nasceu e cresceu no Brasil, em Belo Horizonte, até se mudar para São Paulo onde trabalhou no D.O.M. e foi um dos braços direitos de Alex Atala. Para crescer é preciso viajar. E foi exatamente isso que fez. Dos Estados Unidos à Ásia são muitas as experiências e histórias que tem para contar. Atualmente, de residência fixa em Portugal, é uma das caras do projeto Flores do Cabo, em Sintra, uma galeria onde a arte e a gastronomia são uma só.

O caminho é feito através do microclima que Sintra oferece, com a vegetação verde adornando a estrada. Chegamos ao cocuruto do Convento dos Capuchos para entrar nas Flores do Cabo, a galeria de arte fundada por Manuela Murça e Nuno Ribeiro, em 2006. A gastronomia encaixa como pano de fundo e, à primeira vista, é difícil perceber que ali também mora um restaurante. O forno a lenha aceso no fundo da sala chama logo à atenção, assim como o gato malhado, dono de tudo, que descansa em cima da mesa. A natureza parece estar por toda a parte, representada por pequenos arbustos e folhas verdes.

Adriano Ricco está na cozinha concentrado nas variedades de tomate-cereja que acabaram de chegar. “Existem infinitas espécies”, conta. Vermelhos, amarelos, verdes, redondos ou ovais. Na sua cozinha usa apenas o que a terra tem para oferecer e, por isso, tudo é recolhido nas hortas próximas e de pequenas produções, num raio máximo de dez quilómetros.

A paixão pelos tachos sempre lhe esteve no sangue, mas foi quando começou a levar a profissão a sério que percebeu a importância de ter crescido junto das hortas e dos pomares. O chefe Alex Atala é para Adriano Ricco um grande mentor. Partilharam a cozinha durante quase quatro anos, antes de surgir a oportunidade de viajar até Nova Iorque. Permaneceu durante uma década em terras americanas, onde trabalhou com nomes como Laurent Tourondel e Terrance Brennan até ser pai e “mudar o rumo por completo” da sua vida. A vontade de abrandar e conhecer a Ásia levou-o até à Indonésia, por três anos. “A beleza do mundo está nas diferenças”. Estava de malas feitas para África, quando aterrou em Portugal há cerca de um ano. “Quando entrei pela primeira vez neste espaço a reação foi a mesma que quase toda a gente tem: uau!”. Inspirado pelo potencial do projeto, que começou por ser um laboratório de cozinha, acabou por ficar e desenvolver a sua identidade.

Viajar através da gastronomia tem sido bastante enriquecedor para o chefe de 40 anos e, por isso, na sua carta encontramos a “coleção de experiências” que tem tido ao longo da vida. Sem recurso a açúcares ou farinhas refinadas e com muito pouco uso de produtos de origem animal, o desafio de Adriano Ricco é cozinhar de forma sustentável. O menu muda semanalmente e consoante os ingredientes do dia. Tudo é feito na casa, desde a massa do pão, aos fermentados e, em breve, as cervejas artesanais. Quanto à bebida do deus Baco a aposta é totalmente em vinhos biológicos, sem sulfitos.

Uma senhora entra com uma cesta na mão. “Lá vem uma prenda”, comenta. O contraste com o forro branco dá ainda mais destaque aos pequenos figos verdes e maduros. É assim todos os dias. Para Adriano, Portugal é um país riquíssimo em matérias-primas e fascinante para qualquer cozinheiro. Na equipa, tem consigo dois jovens com a mesma paixão que a sua. Já há algum tempo que procurava encontrar um local onde pudesse cozinhar com a sua identidade e, aqui e agora sente que este é o momento.

Para já, o percurso é longo. “Ainda estamos em total expansão”, afirma Adriano que já implementou muitas mudanças. No futuro deseja começar a produzir os seus próprios produtos e alargar o espaço. Neste momento, a capacidade é de apenas 16 pessoas num lugar onde a sala se confunde com a cozinha. Quer quebrar o paradigma do chefe atrás da cozinha, porque “aqui não é um restaurante, é a nossa casa”.

Contactos:
Flores do Cabo

Morada: Estrada dos Capuchos, 839
2705-255 Sintra
Telf.: 219 282 925

Aberto de quarta a domingo, ao almoço das 12h às 15h e ao jantar das 19h às 23h.