A abertura do Ceia, em Lisboa, marca o regresso de Pedro Pena Bastos aos comandos de uma cozinha, após uma ausência de um ano. À mesa de uma literal sala de jantar, o chefe propõe uma experiência exclusiva, em que hospitalidade é a palavra de ordem.
FICHA TÉCNICA:
Nome: Ceia
Chefe: Pedro Pena Bastos. Antes de abraçar o desafio do restaurante Esporão, passou pelas cozinhas do Cafeína e Porto Palácio, ambos no Porto, Feitoria e Grémio Literário, em Lisboa, e The Ledbury (Londres). Fundou em 2011 o projeto Revolta do Palato onde organizava eventos privados de restauração e fazia consultorias
Conceito: A cozinha de Pedro Pena Bastos, numa mesa onde reina “a exclusividade” e “a arte de bem receber”
Dica: O pátio onde os convidados são recebidos “tem um caminho de 365 pedras de tamanhos diferentes”, conta-nos o chefe, reforçando a preocupação do espaço pelos detalhes e pormenores.
Morada: Campo de Santa Clara, 128. Lisboa
Telefone: 213 461 500
Horário: Aberto ao jantar, de quarta a sábado, a partir das 20h.
Na ideia
A ideia de abrir um conceito de restauração e assim aumentar a oferta aos seus clientes era algo que já pairava há algum tempo na cabeça de João Rodrigues, responsável pela empresa Silent Living (detentora de quatro hotéis-boutique em Lisboa, Comporta e Arraiolos). O primeiro encontro de Rodrigues com Pena Bastos — que já tinha outros projetos pensados e prontos a avançar — aconteceu sem nenhum dos dois esperar. A partir daí, muitos outros se sucederam. “Foi um longo namoro”, brinca o chefe, que durante três anos e meio liderou a cozinha do restaurante Esporão (Reguengos de Monsaraz) que fechou em outubro de 2017 para reabrir com um novo conceito, no início de 2018. “Quando surgiu a possibilidade de abrirmos algo em conjunto, repensei a minha volta a Lisboa e percebi que este era um projeto que fazia sentido”, explica. O Ceia, inserido no espaço Santa Clara 1728 – com apenas seis quartos – é inspirado no termo clássico que o nome indica e tem como objetivo juntar à mesa um conjunto de desconhecidos e dar-lhes a oportunidade de “partilhar experiências”. Segundo Pedro, este é um projeto que se distingue pela “exclusividade e postura inerente à arte de bem receber”. Não é de admirar, por isso, que no novo espaço o portuense receba os seus “convidados” como se da sua própria casa se tratasse. Após passar a porta de entrada, a lógica é “entrar, os convidados conhecerem-se uns aos outros no pátio, durante o welcome drink e, depois, sentarem-se todos ao mesmo tempo, em lugares escolhidos por nós, para possíveis grupos não desvirtuarem as experiências de outros.”

O novo projeto marca o regresso do portuense de 28 anos à capital. Foto: Nelson Garrido
No espaço
“Todo o conceito desta casa e dos seus projetos partem da materialidade. Quis encaixar isso no Ceia e criar uma perfeita união. A ideia era entrares e sentires que há uma atmosfera palpável, não só visual”, começa por explicar Pedro, sobre a logística idealizada para o espaço, pensado ao detalhe. Para chegar a talentos como Anna Westerlund, Ricardo Jerónimo, Mariana Filipe, Gonçalo Prudêncio e Paulo Tuna, o chefe confessa ter feito muita pesquisa e troca de contactos. Os nomes acima mencionados, foram os escolhidos para embelezar a sala de jantar, onde pousa uma mesa de madeira “muito trabalhada” para acolher 14 pessoas e respetivas taças, pratos, talheres, tigelas e facas. De resto, nesta sala, bastante iluminada pelos pequenos focos de luz sobre a mesa, há ainda uns típicos livros de cozinha (entre outros) nas estantes e até um quadro de grandes proporções. A cozinha, essa, é na porta ao lado e de lá saem as propostas da equipa (de três cozinheiros) de Pena Bastos, que como anfitrião da casa, acaba por fazer também trabalho de sala, juntamente com outros dois colegas.

A cozinha onde é possível ver Pena Bastos em ação é mesmo ao lado do Ceia — uma literal sala de jantar. Foto: Nelson Garrido
Na mesa
Ao contrário do que sucedia no Alentejo, na capital a facilidade em chegar a diversos produtores é maior, garante o chefe de 28 anos. “Não é como as pessoas pensam, o Alentejo é uma região muito vasta, é preciso ir à procura. Aqui estou no epicentro, posso visitar facilmente produtores de Tomar ou Torres Vedras”, exemplifica. Assim, a possibilidade de explorar outros produtos que não os daquela região agora é maior. Pedro garante que a sua cozinha é uma continuidade do trabalho que tem vindo a fazer. “É a minha identidade. A mesma linha.” O chefe desvenda que muito em breve vão chegar ao Ceia produtos vindos da Herdade do Carvalho, também propriedade da Silent Living. “Vamos ter hortas e alguns animais, como galinhas, ovelhas. Vamos ter uma queijaria e uma sala para maturar carnes”, refere. Isso quer dizer que o restaurante será autossustentável? “É uma palavra complicada de se usar. Se tu quiseres fazer um caldo de cenouras e cebolas no verão vais ter que ir buscar fora porque não está na época. O restaurante vai viver no máximo de 10% a 15% do que vai sair dessa horta”, clarifica. Assim, o único menu, de 15 “elementos”, muda consoante a disponibilidade do produto. Ultimamente, tem apresentado pratos como um de Ostras com espargos brancos fermentados e finger lime, Taco de gamba rosa com yuzu e azedas ou ainda Vaca minhota galega com baga de ciprestes e couve-flor. A mesma lógica para o menu de bebidas, escolhido pela equipa e que além de vinhos, na semana da visita do ETASTE era composto por um fizz de ananás grelhado e fumado com alecrim, um sumo de maçã verde, cardomomo e gengibre (que muda diariamente) e ainda algumas kombuchas. Em breve, chegará uma cerveja artesanal.
Questionado sobre o que se espera dele no futuro, Pedro é pragmático. “Não sei o que esperam, não penso sobre isso. Nunca vivi para mostrar aos outros. Mas é claro que me preocupo em fazer as coisas no sentido de ir ao encontro das boas expectativas que têm de mim. A cozinha não é a minha droga, gosto de muitas outras coisas… Adoro tocar bateria, adoro música. Não sou vidrado nisto. Isto é uma parte da minha vida e que tenho muita paixão para dar e tirar. Sou muito feliz nisto.”

Um dos pratos a provar: Vaca minhota galega com baga de ciprestes e couve-flor. Foto: Nelson Garrido
