As boas condições climáticas, os longos areais e o mar convidativo são algumas das boas razões para visitar o Algarve. Se a época de verão é essencial para a manutenção de boa parte dos negócios da restauração e da hotelaria, perante o novo desafio provocado pela Covid-19, de que maneira podem chefes e/ou empresários reagir perante o menor fluxo de clientes vindos do exterior? Falámos com cinco chefes de cozinha e proprietários de restaurantes, pastelarias e bares na região para perceber como adaptaram os seus projetos durante o confinamento, como os transformaram perante a nova realidade e também como veem o futuro dos seus negócios e do Algarve, enquanto região turística.

João Viegas, chefe de cozinha do restaurante Check In, Faro

Com apenas um mês de vida, o Check In, projeto do chefe Leonel Pereira, e chefiado por João Viegas — a mesma dupla por detrás do entretanto encerrado Michelin São Gabriel, em Almancil — fechou por tempo indeterminado devido à pandemia do novo coronavírus. Tal como explica João, o espaço começou com bons números, afinal “era uma casa nova” já frequentada por “clientes antigos” do São Gabriel e outros novos, curiosos com a novidade. As expectativas eram elevadas mas o encerramento inesperado cortou o seu ritmo natural de crescimento.

Algumas semanas depois da reabertura [o Check In optou por não fazer take away ou delivery durante o confinamento], Viegas conta que a entrada de clientes no restaurante tem sido a conta-gotas. “Muitos ainda não conhecem o projeto, relembro que só tivemos abertos um mês. E os que já conhecem ainda não se sentem à vontade para jantar fora. Vamos ter de dar tempo”, diz. Apesar de ter a pretensão de trabalhar com o cliente local, o responsável admite que a região é muito dependente do turismo externo e que o verão poderá ficar para os meses de setembro e outubro, num cenário positivo. “Isto tem de dar para todos, temos de nos ajudar uns aos outros. Neste momento, quando os clientes me pedem para aconselhar outros restaurantes, mando-os para o restaurante vizinho e eles fazem o mesmo. Temos de estar unidos”, garante o chefe.

Foto: Cátia Barbosa

Kevin Gould, proprietário da pastelaria Santa Maria Madalena e do restaurante Chá Chá Chá, Olhão

Kevin Gould chegou há três anos a Portugal e fixou-se em Olhão, cidade pela qual vive encantado desde o primeiro dia. Apesar da Covid-19 ter mudado a sua rotina diária que normalmente começa por uma visita ao Mercado de Olhão para a compra de frescos e peixe do dia para o seu restaurante Chá Chá Chá, este ex-crítico gastronómico e jornalista britânico escolheu manter-se no lado positivo da luta e não se deixou ficar. A prova disso é que decidiu abrir um novo negócio, em maio, a pastelaria Santa Maria Madalena, especializada em bolos e doces sem glúten. “Quisemos abrir como um sinal de confiança para com os clientes. É um sinal de que não temos medo, que é ok cá virem”, começa por contar Kevin, que durante estes dias tem entregado refeições solidárias pela cidade e até criou um food bank com o intuito de angariar donativos e bens alimentares para os mais carenciados.

Apesar de ter consciência que parte dos seus clientes são estrangeiros, Kevin mostra-se esperançoso no futuro e confiante. Para ele, esta é uma boa oportunidade “para todos sermos mais pacientes” mas também de união para com as comunidades locais. “É preciso mais cooperação, estamos todos no mesmo barco e venceremos juntos. Acredito que todos temos algo em comum que é a esperança que é uma coisa preciosa.”

Foto: Filipe Vera-Cruz

Rui Sequeira, chefe de cozinha e proprietário do restaurante Alameda, Faro

Com um percurso vincado na alta cozinha, Rui Sequeira decidiu voltar a Faro, a sua cidade berço em 2018 para abrir o seu primeiro restaurante, Alameda. O sucesso do espaço, com uma base de cozinha mais autoral, foi imediato. Pelas características do espaço, o chefe decidiu encerrar o restaurante ainda antes do fecho obrigatório e prontamente delineou um conjunto de estratégias para relançar o negócio. “Foi como começar do zero. Adaptámos completamente o conceito e acho que essa é mesmo uma palavra de ordem para os tempos que vivemos. Criámos um conceito de take away familiar e de cabazes com produtos e ainda pusemos a nossa garrafeira online”, conta Rui. Na sua reabertura, o Alameda voltou ao seu funcionamento por turnos, com mesas apenas na esplanada exterior. O take away continua ativo — agora toda a carta está disponível nesse regime, incluindo os menus de degustação — e o chefe passou a abrir os almoços (apenas aos fins de semana) e também no horário da tarde, com dois menus de petiscos.

Quando idealizou o Alameda, Rui garante que sempre pensou num restaurante que funcionasse o “o ano todo”, ou seja, um espaço que se pudesse manter vivo até nos meses sem turistas. E a verdade é que o seu Alameda, até agora, tem no cliente português a sua base de trabalho. Segundo conta o responsável, o poder de adaptação vai ser essencial para sobreviver a esta crise. “Não se sabe o que vai acontecer, muitos vão sobreviver, outros não. Penso que depende da capacidade de adaptação de cada um.”

Foto: DR

Miguel Gião, proprietário dos bares Columbus, Aperitivo e Rooftop Eva e dos restaurantes Lodo e Adão, Faro

Miguel Gião regressava de uma viagem a Espanha quando à sua chegada foi confrontado com um aumento dos casos positivos de coronavírus em Portugal. Estávamos em março. “Vim do aeroporto para casa e fiquei em quarentena voluntária”, conta. Depois de alguma reflexão, tratou de marcar uma reunião em vídeo-conferência com a equipa para anunciar que iria fechar todos os seus espaços, onde se incluem os bares Columbus, Aperitivo e Rooftop Eva e o restaurante Lodo. “A minha prioridade era manter os postos de trabalho, não queria dispensar ninguém”, afirma.

Durante o tempo em que esteve em casa, Miguel e a equipa optaram por se focar nas reaberturas dos espaços, atualizando menus, repensando conceitos, como o Aperitivo — que agora está mais ligado aos petiscos algarvios — e criando novos modelos de negócio. “Em vez de fazermos delivery criámos outros conceitos, como o Barman at Home onde um dos nossos barmen vai a casa do cliente ou a escritórios preparar bebidas. Também criámos cestos de piquenique com petiscos e bebidas e um take away de cocktails no Columbus”, conta Miguel que iniciou também serviços de consultoria a custo zero para dar apoio a outros colegas de profissão.

O responsável conta que a maioria do seu cliente é português e que o único espaço que atraia mais estrangeiros foi precisamente aquele cujo conceito decidiu reformular. Apesar desta mudança, acredita que muito em breve, com a abertura recente das fronteiras, os turistas vão aparecer e que Faro, enquanto cidade, só terá tendência para crescer em termos de destino turístico. Como prova dessa esperança no futuro, Gião decidiu seguir o plano original de abrir, durante o mês de junho, mais um espaço na cidade: Adão é um restaurante de pokes e ceviches, inserido no Hotel Eva e que “já estava a ser idealizado desde o ano passado”.

Foto: DR

Leandro Araújo, chefe de cozinha do restaurante Cafézique, Loulé

Com apenas três meses, o Cafézique viu o seu espaço fechar, ainda antes do Estado de Emergência ser declarado. Leandro Araújo (ex- São Gabriel, Almancil), chefe do restaurante, lembra que “foi um choque” o ritmo acelerado da pandemia no país. Sem saber muito bem por onde caminhar, o responsável revela que optou, num primeiro momento, por disponibilizar vouchers de refeições para que os clientes pudessem ajudar o restaurante no imediato — uma medida tomada por bastantes restaurantes de norte a sul do país. A verdade é que a iniciativa excedeu as expectativas e ainda hoje estão disponíveis para quem os quiser adquirir. Logo depois, o chefe e a equipa começaram a reagir e a tentar arranjar outras soluções de liquidez. O sommelier do restaurante, João Valadas, criou packs de vinhos para entregar em casa e o restaurante acabou por avançar para um menu de take away. “Falava-se muito do take away mas esta decisão só foi tomada para que Cafézique não ficasse esquecido como projeto. Fizemos dois fins de semana de take away e confirmamos o que pensávamos: não seria isto que nos ia pagar as contas. Aliás também não foi essa a intenção.” O espaço viria a reabrir dia 18 de maio, com o mesmo menu, focado no produto regional.

Antes do confinamento, Leandro conta que este era um espaço mais frequentado pelo mercado nacional ainda que tivesse uma parte composta por estrangeiros residentes. Agora, o caminho, passa por conquistar cada vez mais este tipo de cliente. “O Algarve vive basicamente de turismo e quando uma região vive assim é um risco. Junho, julho, agosto e setembro são, normalmente, meses que permitem equilibrar as contas e para quem está agora a começar são meses importantes. Mas desde sempre que o nosso objetivo não é ficar agarrado à explosão desses meses mas trabalhar com clientes locais, daí o esforço em cativar o cliente nacional”, explica Leandro.

Foto: Vasco Célio