É ali perto do Largo do Ouro, na Foz do Porto, que encontramos o Antigo Carteiro. Sobe-se a escada curta para dar de caras com a esplanada. Entre o verde das árvores que por lá moram, ainda está uma placa, desgastada pelo tempo, que identifica um antigo posto de correios. Em outra vida, esta casa foi a morada de muitas correspondências. Mais tarde, o espaço deu lugar a um restaurante de cozinha tradicional, o Carteiro.
Em 2013, quando o produtor de teatro Hélder Sousa se apercebeu que a casa ao lado da sua, um restaurante com doze anos de história, ia ser vendida em breve, apressou-se a falar com o proprietário. A experiência na área? Era nenhuma e veio com o tempo. A paixão pela cozinha, essa, sempre existiu. “É a típica história: gostava muito de comer e beber. E era hábito fazer uns petiscos nos jantares de amigos”.
Com a ajuda da equipa de profissionais do antigo espaço, o empresário de 39 anos foi aos poucos tentando fugir ao conceito enraizado de tasca. “Foi um processo difícil. Dei muitas cabeçadas na parede.” Sempre com a cozinha tradicional como ponto de partida, e depois de quatro chefes ao comando do restaurante, o proprietário e responsável de sala encontrou em Rui Oliveira o “perfeito” executante das suas ideias. Este último, agora com 26 anos, tinha somado apenas uma experiência no restaurante Clérigos, na Invicta. “O Rui conseguiu dar consistência ao que eu sempre quis fazer, uma cozinha tradicional, com produtos de qualidade e de técnicas simples”, explica Hélder. Isto traduz-se em mexer “o menos possível no produto”, acrescenta o cozinheiro.
Um novo início
A princípio, a experiência para o jovem Rui Oliveira não foi fácil. Um dia após ser contratado, já se via sozinho na cozinha, entre tachos e panelas. A mudança do conceito veio com o novo chefe e aconteceu de forma gradual. No seu caso, também a cozinha surgiu ao acaso e já tarde. Apesar de vir de uma família de “gente que faz desta área a sua vida”.
Nas cartas não enviadas do Antigo Carteiro, aquelas que descansam sob as duas dezenas de mesas, espalhadas pelas duas salas do restaurante, encontramos pratos que “referenciam um território e não a comida regional local” e à qual Hélder Sousa denomina de “comida dos pés à cabeça”. Existe por isso um equilíbrio em criações que atravessam Portugal de norte a sul. Exemplos disso são os pratos de ‘Rabo de boi’, ‘Açorda de gambas’, ‘Feijoada de samos’ e ‘Língua de Vaca’. “Tentamos descomplicar o aparato visual da comida e da exuberância técnica para dar mais primazia aos sabores”.
O importante papel dos chefes
Para Hélder, o novo luxo é a “exclusividade” de produtos únicos e locais, como os cogumelos que chegam todas as semanas do senhor Zé, seu vizinho. “Para ter bons ingredientes, sabemos que precisamos de ir à procura”. Segundo o proprietário, existem duas formas de comer: por prazer ou necessidade. Dentro destes conceitos, tem de estar presente a importância do consumo responsável. “Para quebrarmos o ciclo de produção de bens alimentares que explora exaustivamente os recursos e que produz maus ingredientes é necessário mudarmos o ‘shift’ dos hábitos de consumo” e é aí que entram os chefes de cozinha.
Nos últimos anos, tem acontecido um “aumento de visibilidade da gastronomia portuguesa”. A imagem do chefe de cozinha foi mediatizada e as pessoas identificam-se. Consequentemente, existe agora uma maior preocupação com aquilo que se come. E sobretudo as suas origens. “Os chefes têm o grande papel de mudarem os hábitos”. Segundo Hélder, essa mudança de paradigma é essencial e deve ser trabalhada por quem exerce essa influência. “É urgente que olhemos para a nossa comida de outra maneira. Em Portugal, no futuro, era bom que existissem casas de canja ou de empadas em vez dos restaurantes de ramen ou tascas de empadas argentinas”.
Contatos:
O Antigo Carteiro
Morada: Rua do Sr. da Boa Morte 55,
4150 Porto
Telf.: 937 317 523
Aberto de segunda a sábado, do 12h às 00h.
