Durante largos anos, o chefe André Fernandes viveu aventuras por esse mundo fora, de França a Bora Bora, da Tailândia à Costa Rica. De volta a solo português, abriu recentemente em Lisboa o Attla, um restaurante com influências do mundo inteiro.

FICHA TÉCNICA:

Nome: Attla
Chefe: André Fernandes. França, Espanha, Caraíbas, Bora Bora, Brasil e Tailândia são apenas alguns dos países por onde já passou profissionalmente. Chegou a Portugal em janeiro de 2018 para abrir o Attla com a namorada e parceira de negócios, Rita Chantre.
Conceito: Cozinha com influências do mundo e que respeita a sazonalidade.
Dica: Das 18h às 20h, há uma happy hour no bar do Attla, que serve cocktails de autor e clássicos. Se preferir, opte pela carta de vinhos, que conta com cerca de vinte referências.
Morada: Rua Gilberto Rola, 65. Lisboa.
Telefone: 211 510 555
Horário: Aberto de terça-feira a sábado, das 18h às 00h.

Na história

O seu percurso é singular. Começou pelas bases, é certo, numa creperia na Bretanha mas a vontade de aprender fê-lo rapidamente chegar a restaurantes de topo. Plaza Athenée, em Paris, de Alain Ducasse e ABaC, em Barcelona, na era Xavier Pellicer, são dois marcos que André Fernandes se apressa a destacar como principais influências. Sem se deslumbrar por estrelas nem constelações, o chefe não ficou em qualquer um destes poisos por muito tempo. Sempre que sentia um primeiro pingo de estagnação — nestes e em outros restaurantes por onde passou — apressava-se a mudar de país. Para André, não lhe fazia sentido ficar num restaurante mais do que o tempo necessário, até porque provavelmente existem mais “30 mil melhores ou iguais que esse e com visões de cozinha diferentes”. Foi por isso mesmo que correu o mundo, entre Caraíbas, Bora Bora, Brasil e Tailândia, só para dar alguns exemplos. Trabalhou em cadeias de hotéis de luxo e também em várias iniciativas como chefe privado, como parte de um bem-sucedido negócio que montou na Costa Rica, nos últimos três anos, em conjunto com a sua parceira de vida, Rita Chantre, fotógrafa de profissão. A vinda para Portugal, há cerca de um ano, e o nascimento do Attla — que vem das palavras atla e atlântico, “daí os dois tês” —, em Lisboa, surge da vontade do casal de regressar às raízes após tantos anos de ausência. E também, claro, da boa altura que o país vive em termos gastronómicos. “Para mim isto é um sonho de vida. Para ela [Rita] não era mas depois começou a ser.  Vendemos tudo o que tínhamos para montar este restaurante”, conta.

No espaço

“Queríamos um espaço que ficasse entre Marvila e Alcântara e acabámos por encontrar este onde morava uma antiga padaria”, diz André, garantindo ainda não ter feito qualquer análise de mercado antes de chegar Portugal. “Já tínhamos o conceito de cozinha pensado desde a Costa Rica. A partir do momento em que começámos a vender as coisas para ir embora, pensávamos nisto todos os dias.” Foi nos meses que antecederam a chegada do casal à capital que todos os detalhes e a decoração do restaurante começaram a ser pensados. O espaço é pautado pelo minimalismo e ostenta uma certa crueza. Como explica o responsável, a ideia é mesmo essa. “É a questão da imperfeição, da utilização de materiais reutilizáveis. Por exemplo, este chão vem de um palácio no Chiado e as cadeiras de uma escola de Penafiel”, desvenda.

O espaço do Attla foi inteiramente decorado pelo casal Rita e André. Foto: Rita Chantre

Na mesa

Pelo recheado percurso do chefe, é fácil adivinhar as principais influências impressas na carta do Attla. “Tenho bases muito francesas e espanholas mas também gosto de coisas meio exóticas e a minha cozinha também passa um pouco por aí”, explica. André conta que desde cedo começou a conhecer sabores que outros miúdos da sua idade não estavam habituados, como o caril. “O meu pai é angolano e a minha mãe, portuguesa, sempre viajou muito [trabalhava na TAP] e então sempre comi coisas assim diferentes”. Apesar da complexidade de gostos com a qual esteve sempre familiarizado, é através da simplicidade que o chefe quer dar a conhecer a sua cozinha aos portugueses, com recurso ao uso de produtos que respeitem, sempre que possível, a sazonalidade. “Estamos habituados a ter tudo aquilo que queremos mas as coisas não são assim. É impossível ter tomates no inverno, isso não existe”, esclarece. A reduzida utilização de carnes (sobretudo vermelhas) na carta do Attla  — constituída por quatro entradas, quatro pratos principais e duas sobremesas — é propositada, diz. “Quero usar mais aves porque é algo que o público conhece menos. Pombo, por exemplo, adoro. Se algum dia trabalhar um animal desses aqui não vou comprar só o lombo, vou comprá-lo todo. É o que faz sentido.”

À data da visita do ETASTE ao restaurante, André arregalava os olhos ao falar do seu prato de Batata-doce roxa ao sal, sabayon de cerveja preta, óleo de wasabina, uma criação que os clientes estão a gostar particularmente por ser “tão simples e boa”. Como explica o chefe, a batata é cozida ao sal como se de um peixe se tratasse e depois é finalizada com uma base de caldo que leva  gema de ovo e manteiga [o tal sabayon]. Outro exemplo feliz é o Conglioni de alheira de caça, chalotas grelhadas, satay de abóbora, crumble de broa que junta influências italianas, portuguesas e tailandesas. “São coisas que não tem nada a ver mas que acho que ficam muito bem.”

Para já, o Attla está aberto só para jantares. Os almoços hão de chegar mais tarde, quando tudo estiver mais estabilizado. Por agora, André Fernandes espera oferecer uma boa experiência a quem visite o seu restaurante. “Estamos aqui para ver se isso acontece, esperemos que sim.”

Batata-doce roxa ao sal, sabayon de cerveja preta, óleo de wasabina. Foto: Rita Chantre
Batata-doce roxa ao sal, sabayon de cerveja preta, óleo de wasabina. Foto: Rita Chantre