Era de esperar que no octogésimo aniversário das Caves do Solar de São Domingos, as suas paredes se encontrassem exatamente como estão: pintadas de bolor e fungos. Ao contrário do que se possa pensar, este é um bom sinal. Em Ferreiros, Anadia, o sino da igreja toca ao 12h enquanto em jeito de peregrinação se dá a entrada nas caves de Elpídio Martins Semedo, o seu fundador. Que comecem 80 anos de história.

“Empreendedor” é a palavra que melhor define Elpídio Martins Semedo, segundo Alexandrino Amorim, um dos quatro atuais administradores da empresa. Foi ele o homem que deu força e início à produção de vinhos, espumantes e aguardentes das Caves do Solar de São Domingos. “Na altura, todas as empresas da Bairrada trabalhavam os vinhos do Dão. Havia muita matéria-prima. E o senhor Elpídio aproveitou esse facto”. Em 1937, o fundador mandou escavar parte do subsolo para abrir galerias subterrâneas com a ideia de acolher muitas garrafas, que agora somadas alcançam o número de 2,5 milhões.

Enquanto nos guia pelas caves, Alexandre explica que os 14 graus que se fazem sentir são a temperatura constante e ideal para manter a qualidade dos produtos que ali moram. Vejam-se os espumantes com 17 anos de idade que “de vez enquanto saem daqui para aquelas pessoas que gostam de um produto mais velho”.

Amorim entrou para empresa há mais de 20 anos e segue-se na geração, juntamente com a mulher, Eugénia Freitas, filha do segundo diretor da empresa, Lopo de Sousa Freitas, que tomou as rédeas das Caves na década de 70. Este último que contribuiu em muito para o grande desenvolvimento da casa.

Alexandrino Amorim. Foto: Marco Santiago

80 anos, 1 edição especial

Atualmente a marca tem no seu portefólio 15 variedades de espumantes, todos feitos na Bairrada, região com forte tradição no setor há já 127 anos. Em forma de comemoração dos 80 anos, foi lançada uma edição especial e limitada, Elpídio 80, uma homenagem ao seu fundador. Elaboradas a partir de um blend de Pinot Noir e Pinoit Blanc, da colheita de 2001, o novo produto resulta, segundo as palavras da enóloga da casa, Susana Pinho, “numa combinação invulgar de castas”, elaboradas segundo o método clássico – em que a fermentação é feita em garrafa. Um espumante que adquire gás naturalmente, ainda que “a lei permita chamar espumante a tudo o que tenha bolhas”, explica Eugénia Freitas. Após essa fermentação, a bebida estagia em leveduras ao longo de 48 meses.

Com a cabeça a girar, diante dos corredores estreitos e paredes frias da humidade, seguimos viagem em descoberta do desconhecido. “Somos uma casa que nunca parou no tempo, desde da altura do meu pai. Inovamos na tradição. O espírito da mudança está em nós”, conta Eugénia. Enquanto isso, Amorim mostra orgulhoso alguns dos vinhos engarrafados a descansar em ambiente neutro, onde a luz não entra. Numa dessas salas é possível assistir ao processo de remuage, em que as garrafas são colocadas em pupitres – estrutura onde descansam – na posição vertical invertida e rodadas ligeiramente, todos os dias, para garantir o processo de remoção das leveduras. Relativamente ao Elpídio 80, esse procedimento aconteceu durante dois meses antes da estabilização necessária para ir para o mercado. “Todos os dias temos dois homens a rodar 70 mil garrafas à mão”. O administrador conta ainda que a construção do centro de vinificação, em 2006, permitiu que as Caves passassem a receber toneladas de uvas das várias quintas da empresa por ali perto.

Lá ao fundo está um raio de luz. É hora de volta ao cimo, junto à loja onde moram e são vendidas todas as referências da marca. Afinal é de dia. Para o futuro, está na mente dos responsáveis uma nova gama de espumantes Elpídio e, certamente, a continuação de uma geração ligada aos vinhos e espumantes da Bairrada.

A nova garrafa de espumante das Caves de Solar de São Domingos. Foto: Marco Santiago