Após a discreta saída da cozinha da Cave 23, no início deste ano, Bernardo Agrela está de volta com o novíssimo East Mambo, um restaurante de kebabs feitos com produtos de qualidade, ao estilo do que nunca se viu em Lisboa.

FICHA TÉCNICA:

Nome: East Mambo
Chefe: Bernardo Agrela. Com apenas 29 anos, já conta com passagens por Portugal, Inglaterra — onde trabalhou com Nuno Mendes nos restaurantes Bacchus, Viajante e no projeto The Loft — Espanha, Luxemburgo, Japão, China, Maldivas e Seychelles. Mais recentemente, liderou a cozinha da Cave 23, em Lisboa, e também fez parte do projeto Once Upon The Table.
Conceito:
Restaurante de kebabs com produtos portugueses.
Dica: Todos os dias, a equipa do East Mambo tem um ou mais sumos naturais do dia. No dia em que o ETASTE visitou o restaurante havia apenas o de pera e maçã com pedaços de limão e maracujá para provar. Na parte doce, não esquecer também a (única) sobremesa da casa: fondant de caramelo salgado.
Morada:
Rua Latino Coelho, 87A. São Sebastião, Lisboa.
Telefone:
218 027 906
Horário:
Aberto de segunda-feira a terça das 11h às 17h. Quarta a sábado, das 11h às 00h.

Na história

Quando trabalhava com o chefe Nuno Mendes, em Londres, era comum vê-lo a comer kebabs no final dos longos turnos. E o contrário daqueles “muito maus” que encontrava em Portugal, estes apresentavam bastante qualidade nos ingredientes. Anos mais tarde, quando deixou a chefia da Cave 23, Bernardo Agrela pensou em criar um projeto em que pudesse “voltar a cozinhar para quem eu gostava de cozinhar”. Ou seja, voltar a cozinhar para amigos ou clientes que nem sempre conseguem suportar financeiramente e de forma regular jantares em restaurantes fine dining. “A ideia era fazer algo bom com produtos portugueses e juntar isso ao meu conhecimento da alta cozinha. Foi daí que nasceu o East Mambo, um fast food yummy, direcionado ao cliente português”, explica o chefe. Até abrir o espaço, testou receitas em casa e procurou saber as origens deste prato que, segundo explica, pode ser adaptado consoante o país em que é servido. “É difícil separares um kebab turco de um taco mexicano, por exemplo. Geograficamente, são países que estão na mesma linha e isso, muito provavelmente, quer dizer algo. Mas é impossível descobrir como foi feito o primeiro kebab de todos, há muitas versões devido às migrações que aconteceram ao longo dos anos. Aqui optei por fazer as minhas próprias versões”, declara.

Bernardo Agrela tem 29 anos e antes de abrir o East Mambo, foi chefe da Cave 23, em Lisboa. Foto: DR

No espaço

“Vi o espaço à venda no OLX e contactei a responsável. Depois de tudo acordado, comecei eu mesmo a fazer as obras do espaço. As cadeiras e a mesa não foram feitas por mim mas fui eu que as desenhei”, começa por contar Bernardo. Com uma equipa de mais duas pessoas, num espaço simples na decoração e de pequenas dimensões, East Mambo abriu em soft opening em meados de agosto. Como conta o chefe, a ideia é mesmo este ser um espaço de comida rápida, tanto que só há oito lugares sentados e quatro menus possíveis. “É um fast food assumido.”

Do pequeno espaço do East Mambo é possível ver a cozinha entre os cortinados. Foto: DR

Na mesa

As inspirações de Bernardo Agrela são muitas — afinal já trabalhou em países tão distintos como o Japão, a China ou até mesmo as Maldivas — e isso evidencia-se nas suas criações. A juntar a isso, o chefe de 29 anos conta com uma longa experiência em restaurantes fine dining e foi através da mais recente, na Cave 23, que conheceu alguns dos produtores com os quais agora trabalha no novo projeto, casos da Nutrifresco, da Hortelão do Oeste e da SEL – Salsicharia Estremocense. “Aqui os produtos são aplicados de maneira diferente, claro. A minha carne de borrego é da SEL (Alentejo) e, para teres uma ideia, a que é servida nas lojas de kebabs do género Ali Baba, vem de Andorra, custa 38€ e serve 600 porções.”

Tal como num restaurante fast food, o menu é muito simples, está afixado na parede e vai do um ao quatro. O número um inclui um kebab e uma bebida, o dois acrescenta-lhe as batatas de dupla fritura (com direito aos molhos de caril, agridoce e iogurte) e o três junta tudo isto a um mix de entradas (hummus, baba ganoush de beringela assada e tahini de batata doce). Já o número quatro é composto por uma sopa, uma salada e uma bebida. As escolhas nos kebabs são entre o borrego, o camarão, o falafel (feito a partir de fava e condimentos) — opção vegan — e o frango que leva gel de laranja e pickles de cenoura. Estes chegam ao cliente abertos, com a possibilidade de se comerem à mão com a ajuda de um papel ou com talheres. Daqui a uns tempos, é provável que encontra outras opções, respeitando assim a sazonalidade dos produtos. No futuro, revela Bernardo, haverá kebabs de assinatura de outros chefes portugueses.

A servir de acompanhamento ou entrada, há ainda um pão naan com alho e coentros feito na casa, nas paredes de um pequeno taandor, um forno de barro indiano alimentado a carvão e lenha. “É como tradicionalmente é feito. Mas só pode ficar um bocado ou então queima”, avisa Bernardo. Além do pão, também nesse forno e na robata japonesa são feitos os espetos de legumes ou carne para os kebabs. “Na Índia este forno está a nível do solo. Teoricamente o homem que inventou isto cavou um buraco num solo argiloso, meteu brasa e percebeu que o calor debaixo da terra é uniforme, é melhor”, explica o chefe.

Apesar de ter pretensões de voltar à alta cozinha, nos próximos tempos, Bernardo vai manter-se nos kebabs, para quem sabe, mais tarde, ganhar suporte para abrir o seu próprio restaurante. “O sonho de qualquer cozinheiro é abrir um espaço no seu país e quem diga o contrário, está a mentir.”

Kebab de frango com gel de laranja e pickles de cenoura. Foto: DR