Convidámos seis chefes portugueses, com restaurantes de norte a sul do país, com diferentes estilos de cozinha, a escolher um prato da sua autoria para oferecerem como prenda este natal. O desafia era simples: selecionar um prato, escolher uma pessoa a quem gostaria de oferecê-lo e explicar a razão. Eis as suas respostas.

Mateus Freire, Faz Frio (Lisboa)
Bacalhau com todos para a família

Foto: Humberto Mouco

“Faria um bacalhau com todos e oferecia-o à minha família. Porque era nesta época de festividades que a nossa família de diferentes pontos do país se reunia. Em relação à escolha do prato tem a ver com uma memória que tenho de ver um tio-avô levantar-se cedo para preparar o molho do seu bacalhau com todos, que levava uma mistura de azeite com colorau. Quando chegava o bacalhau, recordo-me que ele envolvia tudo naquele molho. Aquele gesto foi algo que sempre ficou na minha cabeça, até hoje.”

Aurora Goy, Apego (Porto)
Ragôut de peixe com legumes de época e especiarias e sopa de peixe para o pai

Foto: Thays Peric

“Cozinhava para o meu pai, que já não vejo há uns meses, um ragoût de peixe com legumes de época e especiarias e também uma sopa de peixe bem condensada à parte. Faria esse prato porque ele gosta muito de legumes. Nós sempre tivemos uma horta e ele sempre muito curioso em descobrir novas variedades, além disso adora peixe! Quanto às especiarias, ele não usa muito quando cozinha para ele, mas gosta de as descobrir na cozinha dos outros. Para completar a refeição não poderia falta uma fatia de pão, elemento essencial na mesa do meu pai.”

Carlos Afonso, O Frade (Lisboa)
Ovos mexidos com trufa preta para Alberto Caeiro

Foto: Humberto Mouco

“Faria ovos mexidos com trufa preta e oferecia-os a Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa. Juntava dois produtos, um simples e um outro que aos olhos do homem é mais complexo, raro e caro. Mas ambos têm o mesmo valor. Este é um prato que tem de ser comido rapidamente, no presente. São três obras-primas do universo representadas com o ovo (vida), a trufa (natureza) e o homem (cozinheiro). Porquê Alberto Caeiro? Porque cozinhamos para apreciar no momento, a arte gastronómica é feita na ação (cozinhar) e no ato (comer).” 

Daniela Polido, Celmar (Sesimbra)
Bacalhau à Brás e arroz de lingueirão para os amigos

Foto: DR

“Eu ofereceria a todos os meus amigos que estão, no dia de natal, a trabalhar nas cozinhas mundo fora, um prato que lhe trouxesse conforto. Não é toda a gente que abdica de estar com a família, para servir os outros nestes dias, e como já estive desse lado, acho que conforto é o melhor que se pode receber. Conforto para mim é um bacalhau à Brás bem cremoso ou um arroz de lingueirão.”

Filipe Ramalho, Torre de Palma Wine Hotel (Monforte)
Açorda alentejana para a classe política portuguesa

Foto: DR

“O prato que gostava de oferecer seria uma açorda alentejana. Sendo eu alentejano, cresci a ouvir as histórias dos meus avós e do quão pobres eles eram e de que forma se adaptavam para se conseguirem alimentar com pouco. Para o farnel no trabalho existiam três elementos essenciais: a navalha, o tarro e o pão alentejano. Este pão durava uma semana e a cada dia servia um propósito diferente. Para se fazer a açorda só faltavam os poejos, os coentros, os ovos e o azeite. Finda a confeção da açorda e se houvesse disponível, lá iam umas gotas de vinagre para dar saciedade. Oferecia esta açorda como símbolo da resiliência e engenho, onde de forma simples e com pouco se faz muito. De uma restauração que desde sempre se adaptou e lutou, esta minha açorda seria para a nossa classe política.”

Rui Sequeira, Alameda (Faro)
Javali, beterraba, shiitake e beurre rouge fumada para a mulher

Foto: DR

“Este natal ofereço o prato favorito da nossa carta do Alameda à minha mulher Cristina, minha sócia e minha parceira de todas as horas neste 2020. Trata-se de um prato de javali, beterraba, shiitake e beurre rouge fumada que é inspirado na personalidade dela, ou seja, forte, intenso, doce e picante.”