As luzes iluminam os dias frios, típicos desta altura do ano. O ambiente torna-se mais acolhedor e o entusiasmo de miúdos e graúdos é notado nas ruas. Lojas cheias é sinónimo da festa que vem por aí. É o Natal. O único dia do ano, no qual aqueles que passam 365 dias a cozinhar para os outros têm apenas de se certificar que aproveitam a refeição e que o seu prato volta vazio para a cozinha. Para testar a afirmação, falámos com os chefes Justa Nobre e Rui Paula, mas também com Carlos Fernandes (pasteleiro do restaurante Loco, em Lisboa), João Rodrigues (bartender, do Colombus, em Faro) e Carlos Santiago (Barman do Ano 2015).

Confirmando a teoria de que é altura para deixar descansar facas e shakers, os cozinheiros de serviço na noite de Natal são maioritariamente as mães, as irmãs ou as sogras. Apenas na família do bartender João Rodrigues, todos estão envolvidos de forma igual na confeção das iguarias. “Na hora de cozinhar todos ajudam. Como a família é grande, todos contribuem com seu melhor prato ou doce”, explica.

“Na hora de cozinhar todos ajudam. Como a família é grande, todos contribuem com seu melhor prato ou doce”, afirma Carlos Santiago

E todos partilham também o ‘ingrediente-estrela’. “Esta é a altura do ano em que o bacalhau me sabe melhor”, refere o barman Carlos Santiago. Na família de Rui Paula, oriunda do norte, para além do tradicional bacalhau assado na brasa, há também arroz de polvo e cabrito assado. O mesmo acontece na casa de Justa Nobre e de Carlos Santiago. Se formos até Lisboa, à residência da família do pasteleiro do Loco, Carlos Fernandes, encontramos todos os pratos acima referidos, menos o polvo – receita típica do norte. Ainda em direção mais a sul, no Algarve, João Rodrigues apresenta um menu variado e com inspirações da terra. É certo que o bacalhau figura, apesar de ter a variação com natas. Há também marisco e milho aferventado – o seu prato preferido. “O milho é cozido durante horas em fogo de lenha. É lavado e volta a ser cozinhado. Demora algum tempo mas vale a pena”, explica o algarvio. Chegando às sobremesas, na casa do pasteleiro não pode faltar o “melhor arroz doce do mundo”, feito pela sua cozinheira de eleição, a mãe.

Chegando às sobremesas, na casa do pasteleiro não pode faltar o “melhor arroz doce do mundo”, feito pela sua cozinheira de eleição, a mãe.

E se o pasteleiro diz, nós acreditamos. Justa Nobre destaca as azevias de castanhas e Rui Paula enumera os vários doces típicos do norte que figuram à mesa, desde os mexidos – feitos com pão, ovos, leites e frutos secos – às rabanadas. Carlos Santiago diz preferir leite creme para o dia de Natal e João Rodrigues, mais arrojado, opta pelo cheesecake de frutos vermelhos.

Para acompanhar a refeição há sempre “bom vinho, do melhor que houver na garrafeira” sublinha Rui Paula. É no pós refeição que Carlos Santiago, o bartender portuense, quebra barreiras e opta por beber Eggnot – uma bebida tradicional norte-americana com leite, ovos, açúcar e acompanhada de conhaque ou rum. “Ou então um simples copo de vinho do Porto”, afirma. Já João Rodrigues, o barman algarvio, diz preferir o tradicional medronho.

Sendo Portugal um país diversificado, a nível de gastronomia são também óbvios os regionalismos. Mas no fim, nada disso interessa. Importante sim é reunir família e amigos e usufruir da oportunidade de passar a ocasião juntos e à mesa – como o português gosta.