Na estreita Rua das Trinas, ninguém diria que o número 129 dava entrada para um palacete pombalino do século XVIII. Cá dentro a luz desce para um ambiente místico. O caminho entre as salas do Clube de Jornalistas é feito pelo chão em pedra original da construção. As paredes das várias divisões das salas de jantar são diferentes, adornadas de azulejos rústicos e quadros singulares. No varandim que deixa entrar a luz do jardim exterior, uma mulher sentada, sozinha, degusta um Tawny com 25 anos. Quem o dá a provar é Ivan Fernandes, o chefe e proprietário do espaço, que, sem darmos conta, já perdemos pelo caminho, preso nos dedos de conversa que troca com os clientes, a cada minuto. Afinal, o importante são as pessoas.

Ivan, chefe a tempo inteiro e músico quando a vida o permite, junta-se, por fim, a nós. Vem de calças e t-shirt cinzentas e um sorriso vibrante no rosto. Está completamente em casa. Depois da alçada de André Magalhães, foi a seu convite que aceitou o desafio de abraçar o projeto do Clube de Jornalistas. Aqui, faz-se história desde novembro de 1983 quando abriu portas. E, nas mãos do chefe brasileiro, natural de Ribeirão Preto, já lá vão seis. Na noite anterior à que o ETASTE visitou o espaço, a equipa de 7 cozinheiros serviu 130 jantares. Era segunda-feira. Hoje, o ambiente está bastante composto. Ivan senta-se à mesa para nos explicar os pratos. Um hábito pouco comum por estes lados. “Apenas se o cliente fizer questão”, conta.

Pensávamos nós, e talvez o leitor, que agora chegava aquela parte em que falamos sobre o percurso do chefe e do conceito do Clube dos Jornalistas. Pois bem, eis que o “brasileiro baixinho”, como o próprio se intitula, nos troca as voltas. Pois então, vamos falar de música. “Vocês conhecem Itamar Assumpção?”. Ele tem uma música maravilhosa chamada ‘Que tal o impossível?’. É isto, tão simples”. “E tu Ivan, conheces Liniker?”. “Não. Vou escutar mais tarde”. Pois bem, vamos falar de pessoas, da cozinha, da sociedade. Fora da nossa bolha ouvem-se ecos de vozes em língua estrangeira. “À entrada, o empregado cumprimentou-nos em inglês”. “É normal. A maioria dos clientes é turista.” “Porquê?”. “Não sei. Os portugueses não costumam vir aqui. Mas não interessa. A porta está aberta. Quem quiser entra.” O leitor lembra-se da senhora do Porto Tawny, no início deste artigo? A atenção de Ivan não foi singular, de facto, ao longo da conversa (e por noite fora), o chefe dispersa-se pela sala fora para se certificar que tudo corre bem com os clientes. E o jantar ainda não começou.

Nos bastidores

Três era o número de pessoas na cozinha quando o cozinheiro, juntamente com Luísa Branco, a então sua esposa, adquiriram o espaço. Mário Rolando, padeiro, também fez parte da equipa original do restaurante, conta-nos. Mas por pouco tempo. A equipa de cozinha de hoje é maior, e por lá não se fala inglês nem português, mas sim “uma mistura dos dois com palavras criadas”. E canta-se a mesma letra, da música que não para de tocar todo o dia. O menu, esse, foi sendo criado ao longo do tempo. “Vou mudando quando tenho vontade”.

(Enfim chega o momento do percurso do chefe. É agora!)

Ivan Fernandes revela que o seu primeiro trabalho foi como músico. Ele que, aliás, tem uma viagem marcada para Londres, em fevereiro, para ver o trompetista Wynton Marsalis. Antes tinha estado em Praga, pela mesma razão. É algo que acontece frequentemente, viajar pela música. No entanto, História foi o seu curso de formação. A cozinha veio mais tarde. Nas primeiras experiências pelo Brasil, lembra: “Era muito indisciplinado e inconsequente. Tinha muitas ideias, deixava-as nos restaurantes e saía”. O homem da frente do Clube dos Jornalistas já esteve nos Estados Unidos e em França. Em Portugal, trabalhou junto a Gemelli e no Tavares.

O que vocês acham dessa entrada? É o ex-líbris da casa”, pergunta. Depois do pão de cerveja preta e caramelo de miso a abrir com azeite, Ivan pediu beringela assada, um dos pratos que mais sai. Apesar da sua ligação à música, cá fora não existem colunas, nem som. Mas existem artistas, que são os homens do serviço. “O que achas que mudou quando entraste no restaurante?”. “Pergunta aos meus clientes. Não interessa a opinião que tenho”, recostado na cadeira, o chefe aponta para várias mesas descrevendo os seus clientes. “Hoje é o aniversário daquela senhora, o filho está sempre a vir cá com a esposa, vai ali e pergunta o que eles acham da comida”.

No palco

O chefe de 47 anos dá um golo no copo de vinho e Luísa chega. Ambos falam com entusiasmo sobre as histórias caricatas que já passaram no restaurante. Dos aniversários que acabaram perto do amanhecer, dos pedidos de casamento inesperados e outros que nem sempre correram bem ou, até mesmo, do casal que apareceu recomendado por uma tripulação de um cruzeiro que fizeram… no Alaska.

Luísa vem da área da gestão e durante muito tempo trabalhou numa agência de publicidade. No restaurante coloca em prática o que aprendeu. “Aqui o objetivo é que o cliente adore tudo. O princípio de relação é igual ao da publicidade”. O período inicial não foi fácil. O Clube de Jornalistas passava por uma altura complicada e Ivan diz mesmo que era “apenas um brasileiro no lugar de André Magalhães”. Sem alaridos e aos poucos, a sua cozinha foi se ouvindo lá fora e, de repente, a vida voltou ao restaurante. Quando o chefe se cruzou um dia com um nome da gastronomia e este lhe questionou sobre o seu ‘Risoto de meloa’, Ivan sorriu: “Passa lá e prova!”. Também o fizemos, acompanhado com um copo 5ª de Mahler, um branco de 2000.

O relógio não para de rodar e já se está a fazer tarde. Para muitos, passa da hora de recolher na semana de trabalho. Por aqui, o ambiente continua acolhedor. Um cozinheiro de Ivan faz-lhe sinal discretamente. Completamente à vontade com a nossa presença, acena para que se junte a nós. “Chefe, precisava que provasse esta carne. O que acha para amanhã?”. Ivan pega com uma mão no pires de café que trás um naco de carne e molho e, leva um pedaço desta à boca, com a outra. “Maravilhosa! Podes avançar”, aprova. “Já agora, podes mandar vir as coisas doces?” Mas do que ele estará a falar? Antes disso, chega à mesa o jantar do chefe, que até agora só nos tinha acompanhado nos vinhos. É farofa e borrego. Para nós, vem gelado de eucalipto, mousse de chocolate com daiquiri de maracujá e bolo de chocolate. São as tais coisas doces de que Ivan falava. E é este mesmo o nome da sobremesa.

É curioso pensar que são poucos os jornalistas que visitam este espaço. Para o responsável, esta é uma casa de porta aberta a todos. “O que aconteceu aqui é uma coisa inacreditável”, relembra. As altas árvores do jardim interior não deixam o espaço aberto para ver o céu. Dezenas de lâmpadas espalhadas, estrategicamente, iluminam a sala da esplanada. Aqui, parece não anoitecer. Para o futuro, é exatamente isso que se pretende. Que a luz não se apague. Porque aconteça o que acontecer, para Ivan “o dia pode estar a ser uma merda, mas, depois das 20h30 tudo muda”. Esperemos que nem tudo.

Contactos:
Clube dos Jornalistas
Morada: Rua das Trinas 129,
1200-274 Lisboa

Telf: 213 977 138

Aberto de segunda-feira a sábado, do 12h30 às 15h e das 19h30 às 23h.