Suba-se a escadaria imponente do Verride Palácio Santa Catarina, até à claraboia. É o Suba, o gastro-bar intimista, com o qual já contavam os hóspedes deste boutique hotel, mesmo antes de subir ao bar self-service e ao rooftop com vista 360º, no alto do bairro da Bica, Lisboa. Desça-se, por quartos exclusivos que apelam a um certo aristocrata. Pause-se perante a piscina e sua vista para o Tejo. Escadas fora, espreite-se entre salas de estar com arranjos florais extravagantes. No fundo dos degraus, avista-se o maior desses arranjos. Hoje estrelícias, amanhã quem sabe. Os proprietários do hotel, fazem questão de os personalizar a seu gosto. Siga-se a fragrância e desça-se um pouco mais, para lá das flores e descubra-se o outro espaço gastronómico desta obra. Criatura é o novo restaurante, que recebe hóspedes e qualquer outro curioso que goste de provar Portugal e, na companhia do adamastor alí ao lado, sentir a boa esperança que vem de algumas das influências dos sabores das descobertas.

O nome Criatura alude ao companheiro Adamastor que domina o miradouro de Santa Catarina. Ponto de partida para as criações do chefe Bruno Carvalho, responsável também pelo Suba, no topo do palácio. O gigante mitológico do outrora chamado Cabo das Tormentas, na África do Sul, terá sido, segundo Camões, o responsável por dificultar a passagem dos portugueses para o oceano Índico. O navegador Bartolomeu Dias lá conseguiu e do império que daí viria, muitos sabores se cruzaram nos caminhos portugueses. São alguns destes, que o chefe tenta harmonizar nos pratos tradicionais do país, não fosse a carta terminar com uma bebinca, um dos símbolos das nossas trocas com a Índia (bolo de coco, ovo e especiarias, em camadas). Conta também, por exemplo, com uma tempura de caranguejo de casca mole (tempura é uma técnica japonesa adaptada do nosso polme) e o ‘Carnaval da Bica’, um doce que junta coco, ananás e maracujá num suspiro “tropical, que traz alegria do Brasil para a boca”, afirma o chefe.

De acesso direto pelas escadas mais modernas do palácio, o restaurante conta também com duas entradas pela rua. Uma do lado do miradouro (com esplanada) e outra na travessa da Portuguesa, a espreitar o ascensor da Bica. O que se pretende, é uma aproximação bairrista. “Se temos esta criatura que é o Adamastor, porque não pegar em Portugal, mas indo pelos seus mares navegados? Partimos daqui, de Lisboa, do bairro, com pratos e petiscos típicos da cidade e deixamo-nos influenciar por todas as trocas que conquistámos no mundo”, explica Carvalho. A garantir refeições para o hotel, o espaço mantém-se aberto durante o dia, convidando qualquer passante a relaxar, petiscar, ou beber um copo. Serve-se ‘Pica-pau’, moelas, camarões com alho e malagueta, croquetes de leitão, entre outros. Os almoços contam ainda com um menu executivo de 15€, que traz clássicos como o ‘Arroz de Cabidela’ ou o ‘Cozido à Portuguesa’ e dá direito a sobremesa e bebida. Do serviço à carta, prove-se uma ‘costela de novilho asiática’, um ‘arroz de línguas de bacalhau’ e para finalizar, um ‘leite creme com cumaru (fava tonka)’.

Descontraído, de luz ténue e apaziguante, divide-se por vários espaços, entre colunas de arcadas sobreviventes ao terramoto. São cem lugares acolhidos sob ogivas em tijolo e no cenário, uma rosácea, que levará o comensal a questionar-se se não estará numa capela de outrora. Na verdade, o único registo que há, é de que seria um espaço de arrecadação. Neste, totalmente remodelado, uma sala maior, um espaço de lounge junto ao bar e ainda, uma mezzanine mais intimista. Para algum calor humano, espalham-se nas paredes, retratos a preto e branco da artista Bridget Jones, impressos a grande escala.

O Palácio que fora aposento do Conde de Verride (entre 1910 e 1921) vê-se restaurado na rua de Santa Catarina. Já um outro edifício terá existido antes do terramoto de 1755, tendo a versão atual sido construída pouco depois da catástrofe e passando depois pelas mãos da igreja e por bens públicos, até ser adquirida por um tal ilustre, que terá encomendado o miradouro que hoje se conhece tão bem. Já do Conde pouco se sabe. Levaria uma vida reservada, deixando escapar uns quantos rumores de que convidaria ocasionalmente umas varinas, para dar algum calor aos quartos do seu belo palácio. Sabe-se que fora administrador das companhias de caminhos de ferro e de gás e eletricidade, tendo recebido o seu caro título, por ordem do Rei D. Carlos I, em 1901. Muitos dos trabalhos que se vêem ainda hoje a adornar o interior do hotel, foram feitos a seu gosto. Decorações recentes, essas, têm sempre o cuidado detalhado dos atuais proprietários Kees Eijrond e Naushad Kanji. Para alojar, dispõem de apenas 19 quartos, destacando-se as duas suites principais, de nome ‘Rei’ e ‘Rainha’.

Bruno Carvalho é o chefe residente e chegou no final de 2016, depois de ter passado pelo Tivoli e Quinta das Lágrimas, em Coimbra e pelo VírGula, em Lisboa, com Bertílio Gomes. Somou ainda experiências por Nova Iorque, São Paulo, Dubai e Seicheles. Da cave ao topo, assume a direção do que se come no palácio, querendo desmistificar a ideia de exclusividade associada à ida a um restaurante de hotel. Todos são bem vindos e com novas explorações é bem possível que se continuem as descobertas de sabores, com promessas do chefe de vir a debruçar-se em novas cartas, com focos em pratos de caril e outros de raízes moçambicanas. É estar lá para ver. Suba e agora desça.

Contactos:

Criatura

Morada: Rua de Santa Catarina, 1
1200-401 Lisboa
Tlf.: 211 573 005

Aberto de terça-feira a sábado, das 12h às 00h.