Em abril, águas mil. Poderia até ser mentira, mas já lá vai quase um mês e meio que a quarentena nos tirou um abraço daqueles que nos dizem muito!

Para trás, ficaram as pinhas e os troços de eucalipto queimados que alimentavam a brasa e a alma de quem ali trabalhava diariamente com esforço e dedicação, os tachos de ferro a queimar, o cheiro do pão acabado de sair do forno a lenha, a azáfama das preparações e a adrenalina dos serviços, os clientes felizes e o sentimento de dever cumprido, que bom que era…

Repentinamente, muito ao de leve, a crua e triste “realidade” foi entrando nas nossas vidas, em tons invisuais, tirando o direito de continuarmos a praticar a nossa arte com afinco. Prevenir a saúde de todos nós passou assim a ser prioridade de uma sociedade confusa.

Seguiram-se os isolamentos sociais e as quarentenas “domiciliárias” mas, ainda assim, no meio de tanta azáfama nos supermercados, ao povo inquieto, pediu-se calma e respeito pelo próximo perante as medidas excecionais que assim nos obriga, o dito Estado de Emergência.

A economia sofreu e, como tantos outros, o nosso setor foi apanhado desprevenido, as empresas e os seus colaboradores foram obrigadas a resistir e a reagir com as mangas arregaçadas. Houve tomates para ir à luta e à procura de alternativas e soluções, adaptando-se diariamente às consequências e realidades que esta pandemia originaram.

A liberdade ficou assim condicionada pelo tempo, na qual permanecemos reféns.

O tempo passou a fazer parte do nosso quotidiano em abundância, devolvendo-nos a possibilidade de o aplicar como uma espécie de engenho produtivo, com o pretexto de nos podermos agarrar ao tanto que tínhamos esquecido dentro da “gaveta”, olhando para dentro com tranquilidade e tolerância, aproveitando esta fase para refletir sobre pensamentos profundos, ajustar objetivos, colocar ideias e projetos em prática, definir novas metas e investir em novos interesses que ficaram pelo caminho.

Recomeçaremos em pé de igualdade, debruçados perante tempos difíceis, diferentes da normalidade, que requererão uma perspetiva mais aberta e otimista perante o desconhecido, focando na ideia de comunidade, analisando problemas e soluções com intuito de ultrapassar juntos estas adversidades, olhando para as pessoas que trabalham humildemente connosco diariamente sem altruísmos, realçando os valores humanos e apostando na sustentabilidade social e material, onde fazer muito com pouco será um ato de ordem.

Tempos extraordinários exigem atitudes extraordinárias.”