Escolhemos alguns dos momentos que marcaram a gastronomia em Portugal ao longo dos últimos doze meses. Aberturas e encerramentos de restaurantes, novos eventos, comemorações, estrelas Michelin e até a vinda de Ferran Adrià a Lisboa têm lugar nas próximas linhas.(Re)descubra o que passou nas cozinhas portuguesas e fora delas.

O 42º lugar do Belcanto na World’s 50 Best Restaurants

Mais um ano de conquistas para José Avillez. O chefe português levou o seu Belcanto ao lugar 42 da lista World’s 50 Best Restaurants. Desde de 2014 que o restaurante lisboeta se mantém na lista e, atualmente, é o único espaço luso representado. Recorde-se também que ainda muito recentemente, o restaurante de Avillez foi remodelado, mudando até a sua localização para porta ao lado da original, no Chiado. O novo espaço tem agora 45 lugares, uma sala privada, uma mesa do chefe com mais lugares e uma cozinha de maiores dimensões.

Este foi também o ano em que o chefe português internacionalizou a sua marca fora de portas, com a abertura de um restaurante, Tasca, no Mandarim Oriental Hotel, no Dubai. Por cá, José Avillez abriu três novos restaurantes (Rei da China, Casa dos Prazeres e Cantinho do Avillez Cascais) tendo, por outro lado, fechado outros três (Za’atar, Cantina do Avillez e Pitaria).

Uma década de Feitoria

O nome de João Rodrigues está intimamente ligado ao Feitoria, no Altis Belém Hotel & Spa, desde a sua abertura, em 2009. Na altura, era Chefe Cordeiro quem liderava os fogões do restaurante, tendo Rodrigues como seu subchefe. Com a sua eventual saída, em 2013, — e dois anos depois da conquista da estrela Michelin — João assumiu os comandos do hotel e do restaurante. Desde então, o chefe português tem feito um trabalho admirável com os produtos e produtores portugueses, enaltecendo-os à mesa e fora dela. O seu projeto, Matéria, é uma prova disso, no sentido em que pretende ser uma materialização daquilo que Rodrigues acredita. Em breve, todo este trabalho realizado pelo chefe e pela sua equipa vai poder ser visto online.

Voltando à década do Feitoria: o aniversário do restaurante lisboeta foi comemorado em apoteose com dois jantares: um com a colaboração dos chefes Alexandre Silva (Loco, Lisboa), Ljubomir Stanisic (100 Maneiras, Lisboa), António Galapito (Prado, Lisboa) e Pedro Pena Bastos (Ceia, Lisboa) e outro one man show onde João preparou um ‘Best of’, com pratos ex-líbris da casa, como o Carabineiro do Algarve e a Lula, camarão, amendoim e dashi.

João Rodrigues festejou o décimo aniversário do restaurante Feitoria com jantares inéditos. Foto: DR

Ferran Adrià em Lisboa

O mítico Ferran Adrià esteve em Portugal, no âmbito de mais um Estrella Damm Gastronomy Congress. Afastado dos palcos há já algum tempo, o chefe catalão veio a Lisboa falar do legado do seu ElBulli e ainda houve tempo para refletir sobre a evolução gastronómica portuguesa. A primeira vez que veio a Lisboa, em 2002, Ferran lembra que “só havia comida tradicional ou arte culinária francesa.” Passados dezassete anos, é com bons olhos que vê a evolução de um país de “produtos incríveis e clima espetacular”.

Na sua visita, Adrià não poupou elogios a dois restaurantes que prenderam a sua atenção na sua curta estadia: Euskalduna de Vasco Coelho Santos — seu estagiário dos tempos do ElBulli— e Casa de Chá da Boa Nova de Rui Paula. Pelo meio, garantiu que daqui a cinco anos Portugal vai chegar a um nível “muito alto”.

Os 30 Anos Chefe Cozinheiro do Ano/Inter Magazine

As Edições do Gosto, empresa especializada na produção de eventos, promoção e comunicação para as áreas da gastronomia, surgiram numa altura em que esse não era um tema da ordem do dia. Apesar de existirem há 15 anos, já contam com uma herança de 30 anos, com a aquisição da revista Inter Magazine e do concurso Chefe Cozinheiro do Ano, aquando do nascimento da empresa. Ao longo dos anos, tanto a revista como o concurso evoluíram os seus conceitos, seja na imagem, design ou na adaptação aos novos tempos.

Em jeito de comemoração destas três décadas, a Inter Magazine acabou de publicar em ‘Best Of’, uma edição comemorativa com uma seleção de artigos e fotografias publicados. Já o concurso — que aconteceu este ano no Porto e teve como vencedor Ricardo Luz, subchefe do BonBon, no Carvoeiro — apresentou, em primeira mão, o ’30 – O Chefe Cozinheiro do Ano e a Cozinha em Portugal’, um documentário que conta com entrevistas a todos os vencedores e intervenientes na competição, bem como, figuras relevantes do setor.

Michelin: Portugal perdeu três estrelas mas ganhou cinco novas

Foi um ano agridoce para Portugal. Depois da edição de 2017 — no qual o nosso país arrecadou nove estrelas de uma assentada — o guia tem vindo a ser cada vez menos generoso com os restaurantes e os chefes portugueses, diminuindo a atribuição de novas estrelas. Este ano, não foi exceção. Os restaurantes Henrique Leis (Almancil) — cujo chefe de nome homónimo foi notícia este ano por ter mostrado a intenção de sair do guia —, Willie’s (Vilamoura) e L’And Vineyards (Montemor-o-Novo) perderam a estrela que mantinham.

Com o fecho inesperado do São Gabriel (Almancil) [que ostentava um estrela Michelin] semanas depois da entrega de prémios, a região do Algarve passa agora contar com menos três espaços na lista. Porém, nem tudo são más notícias: o guia reconheceu os restaurantes Mesa de Lemos, em Viseu, Epur e Fifty Seconds (ambos localizados em Lisboa) com um ‘macaron’ e subiu a Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, para a categoria de duas estrelas.

Feitas as contas, Portugal conta com um total de 27 restaurantes contemplados: 20 com uma estrela e sete com duas estrelas.

O chefe Rui Paula, júri do Masterchef Portugal, ganhou a segunda estrela Michelin para a Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira. Foto: DR

O fim do The Presidential e o início do The Vintage Train e do Food Circus

Na inauguração do seu último projeto, The House of Hope & Dreams, o novo espaço de cowork para chefes e artistas, Gonçalo Castel-Branco revelou aos presentes que o seu The Presidential — o comboio de luxo transformado em restaurante — vai mesmo ficar fora de circulação no próximo ano. O comboio que colocou portugueses e estrangeiros a comer alta cozinha em andamento, vai dar lugar ao the Vintage Train, um comboio-hotel que servirá menus de degustação. Ainda no próximo ano, o responsável revelou que vai nascer o Lisbon Pop Up Food Circus — um restaurante instalado numa roda gigante, que vai contar com menus de assinatura de chefes Michelin.

Nos últimos tempos, a gastronomia tem sido a grande aposta do empresário português, que também é o idealizador do evento Chefs On Fire — um festival onde chefes convidados cozinham à volta de uma literal fogueira — cuja terceira edição acontece em setembro de 2020.

Chefe espanhol Eneko Atxa abriu dois restaurantes em Lisboa

Portugal vive um bom momento gastronómico e o resultado imediato disso é aposta de chefes internacionais no nosso país. Martin Berasategui, com restaurantes em Espanha, México e República Dominicana foi o mais recente da vaga de chefes estrelados a apostar em Lisboa. No final de 2018, o espanhol abriu em conjunto com o Sana Hotels, na antiga Torre Vasco da Gama, o Fifty Seconds Martín Berasategui, com o português Filipe Carvalho como chefe residente. Este ano, o restaurante que mistura no seu menu clássicos de Berasategui e outras sugestões pensadas em conjunto com o português, ganhou aquela que é 12ª estrela Michelin para Berasategui. A ambição do projeto é elevada e os responsáveis não escondem o desejo de conquistarem mais ‘macarons’ já em 2020.

Talvez pela bem-sucedida aventura em solo português de Berasategui, também o espanhol Enexo Atxa, do Azurmendi, com três estrelas Michelin, decidiu apostar em Portugal e em setembro deste ano abriu, em conjunto com o Penha Longa Hotel, dois restaurantes: Eneko Lisboa, um fine dining com um menu de “nuances locais” e Basque, uma tasca basca, com pratos para partilhar e de ambiente informal.

O chefe espanhol Eneko Atxa escolheu Lisboa para abrir dois novos restaurantes. Foto: Sílvia Martinez

O fecho da Bica do Sapato

O icónico restaurante Bica do Sapato já cá estava muito antes da recente explosão de novidades na restauração lisboeta. Abriu em 1999 pelas mãos de Fernando Fernandes e José Miranda — os mesmos proprietários do igualmente histórico Pap’Açorda —  a quem, mais tarde, se juntariam Manuel Reis, fundador das discotecas Frágil e Lux, e o ator norte-americano John Malkovich. Em quase 20 anos de Bica, foram muitos os nomes sonantes que tomaram rédeas da cozinha: Joaquim Figueiredo, Fausto Airoldi, Bertílio Gomes, Alexandre Silva e Manuel Bóia são apenas alguns exemplos. Antes do seu surpreendente encerramento, em setembro, Henrique Mouro e Pedro Resende Pereira era a dupla de chefes que liderava a cozinha.

Pelo que se sabe, o restaurante tem novos proprietários e encontra-se em obras. Desconhece-se se manterá o nome pelo qual foi conhecido ao longo de duas décadas.

Novas lufadas de ar fresco na restauração lusa

2019 foi o ano em que André Lança Cordeiro voltou com um novo projeto, depois do bem sucedido Local, no Príncipe Real. Essencial abriu há três meses, no Bairro Alto, e apresenta a cozinha francesa que Lança Cordeiro nos habituou. Também Pedro Pena Bastos voltou ao ativo, depois da sua experiência no restaurante Esporão, no Alentejo. Ceia, em Lisboa, foi a sua casa durante até ao fecho inesperado do restaurante há um par de meses. No entanto, sabe-se que o restaurante reabrirá muito em breve, com um novo chefe e que Pena Bastos assumirá um novo projeto.

Este foi também o ano em que alguns chefes conhecidos do panorama nacional abriram “segundos” restaurantes mais informais. Casos de João Rodrigues, do Feitoria, que conta agora com o Rossio Gastrobar, no Altis Avenida, e um espaço em nome próprio no Mercado da Ribeira; e de Alexandre Silva, que inaugurou este mês o Fogo, um restaurante há muito aguardado pelos admiradores do seu trabalho.

Ainda em Lisboa, destaque para a abertura dos restaurantes Attla de André Fernandes, Queimado de Shay Ola, O Frade de Carlos Afonso e Taberna do Calhau de Leopoldo Garcia Calhou — também ele um conhecido da restauração lisboeta, depois do Café Garrett, no Teatro D. Maria II. Além destes, também Vítor Adão (Plano e o Izakaya Tokkuri Pop Up), Kiko Martins (Boteco), Bertílio Gomes (Taberna Albricoque), Ljubomir Stanisic (Liquen, no Açores e o renovado 100 Maneiras) e Vítor Sobral (Talho da Esquina) abriram novos espaços.

No Porto, abriu no início do ano o restaurante Elemento de Ricardo Dias Ferreira, chefe português que durante longos anos trabalhou na Austrália. Também na Invicta (e Leça da Palmeira) inauguraram os espaços Atrevo de Tânia Durão, Lessa de André Pinto Baptista, Le Monument do francês Julien Montbabut, Artesão Bistrô de João Lima, Vila Foz de Arnaldo Azevedo e Tasca Vasco de Camilo Jaña. Já Pedro Limão mudou-se para a porta do lado do antigo restaurante de nome homónimo, num espaço agora inserido numa guest house.

Depois de vários meses de ausência, André Lança Cordeiro regressou este ano com o seu Essencial, em Lisboa. Foto: Humberto Mouco

O regresso de Nuno Mendes a Lisboa

Aquele que é, muito provavelmente, o chefe português mais conhecido em Londres, voltou a Portugal para abrir os novos conceitos gastronómicos do Bairro Alto Hotel. Nuno Mendes — que na capital inglesa abriu os restaurantes Taberna do Mercado, Viajante, Bacchus, entre outros — nunca trabalhou numa cozinha em Portugal. A sua posição como diretor criativo de Food & Beverage no renovado Bairro Alto Hotel é, portanto, uma estreia para o chefe que atualmente vive entre Lisboa e Londres [onde é responsável de cozinha pelos restaurantes Chiltern Firehouse e Mãos, com uma estrela Michelin].

No Bairro Alto Hotel, Nuno e o chefe residente, Bruno Rocha, são as mentes por detrás do BAHR, o restaurante onde o produto português é estrela, e dos espaços Terraço BAHR, Pastelaria e Mezzanine.

A cozinha portuguesa em séries televisivas e documentários

Após duas temporadas de sucesso de ‘Pesadelo na Cozinha’, Ljubomir Stanisic regressou para uma terceira edição em que voltou a inspecionar restaurantes de uma ponta a outra, tudo para lhes oferecer uma nova oportunidade de sucesso. O formato da TVI continuou a conquistar os portugueses e o episódio de estreia, transmitido a 1 de dezembro, atingiu uma audiência média de 1 milhão e 229 mil espetadores. Antes da série com Ljubomir, a mesma estação de televisão transmitiu uma nova temporada de ‘Masterchef Portugal’, com os chefes Rui Paula, Miguel Rocha Vieira e Nuno Bergonse como júris. Ainda na televisão, na RTP1, a série ‘Mesa Portuguesa… Com Estrelas Com Certeza’ — um programa que dá a conhecer os restaurantes e chefes distinguidos com estrelas Michelin — está atualmente a ser transmitida e terá um total de 26 episódios.

No campo dos documentários, as Edições do Gosto lançaram dois: um sobre o Chefe Cozinheiro do Ano e a Cozinha em Portugal, com a realização de João Lima e outro sobre A Moda da Cozinha, com a realização de Tiago Pereira e Paulo Amado. Em ambos os filmes, foram entrevistados inúmeros chefes do panorama atual, como Vítor Sobral, Marlene Vieira, Alexandre Silva, José Avillez, João Rodrigues, Nuno Diniz, entre outros.