Perguntámos a sete figuras da área da gastronomia, com diferentes papéis, sobre qual foi a sua primeira refeição na reabertura dos restaurantes, após o encerramento forçado de quase dois meses. Também quisemos saber do que mais tinham saudades e como decorreu a experiência da refeição perante todas as medidas de segurança. Eis as suas respostas.

João Faria, entusiasta da gastronomia e fundador da Confraria da Rabanada, Porto

“A minha primeira visita foi a uma pérola escondida da cidade, Sol e Sombra, onde se comem das melhores bifanas (à Porto). Foi isso mesmo que comi acompanhado de um belo fino. Tinha muitas saudades de me poder sentar ao balcão e do convívio/conversa com as pessoas que estão por detrás do serviço e da cozinha. A experiência gastronómica ganha muito com esse contacto que agora é feito a uma maior distância física e entre máscaras. Os constrangimentos, neste caso em concreto, não foram tão grandes como acredito que serão em espaços habituados a maiores enchentes. O poder de abstração será fundamental para não se cometer a injustiça de comparar o incomparável. A experiência pré-covid e pós-covid será sempre diferente.
Nestes próximos tempos, pretendo revisitar as tascas e os restaurantes tradicionais às quais me fui fidelizando, ao longo dos anos, pelas boas memórias que me foram despertando. Parecem-me ser aqueles que estarão, por estes dias, a necessitar de maior carinho e atenção — já que fogem dos principais holofotes e roteiros.”

Foto: Luís Ferraz

Luís Antunes, crítico gastronómico e de vinhos, Lisboa

“Saí para comer num restaurante de bairro perto da minha casa, chamado O Tasco, em Lisboa. Ainda procurei um arroz de cabidela mas conformei-me com um lombo de porco recheado. Escolhi esse por uma questão prática. Quis comer fora logo na primeira oportunidade possível. Acho que todo o setor precisa e merece apoio. Passei na rua e fui vendo as ementas a giz, engracei com este e aproveitei para ir a um restaurante onde nunca tinha ido. Achei até algum conforto no facto de escolher “um restaurante qualquer” em vez de procurar encontrar um restaurante especial, quase como se fosse um marco, a “refeição da minha vida” — ainda haverá muitas! O regresso ao normal é mesmo “o normal”. A experiência foi sensata e pacata. Com bom senso de todos vamos sobreviver a isto. O que chamamos de higiene mudou. Agora vai ser isto, é um peso adicional mas não é grave. As máscaras são o mais complicado, precisamos de aprender a ler testas e olhos.”

Foto: Humberto Mouco

Ricardo Rodrigues, proprietário Grupo do Avesso, Leça da Palmeira

“A minha primeira refeição foi no Gaveto, um restaurante de peixe em Matosinhos. Tinha muitas saudades de peixe grelhado, de um robalo com um bom arroz de grelos e no Gaveto fazem-no bem! Mas a coisa que mais tinha saudades era o serviço de vinhos porque adoro ir a restaurantes com cartas de vinhos fora da caixa, cartas que fogem um pouco ao comercial. Gosto de vinhos de pequenos produtores, gosto de dialogar com o funcionário de mesa sobre produtores e estou aberto a sugestões que não conheço. Também sentia falta do calor humano, do afeto dos restaurantes que vou com alguma frequência, das sugestões do funcionário indicando-me o peixe que está melhor no momento. Saudades de ser recebido com carinho!
A experiência no início foi um pouco estranha mas à medida que o almoço se ia desenrolando transformou-se numa quase normal. O meu sentimento é que é preciso combater o medo do consumidor local e educar de forma a conseguirmos conviver com o vírus.”

Virgílio Gomes, gastrónomo e escritor, Lisboa

“A primeira refeição foi no Refúgio dos Sabores, em Lisboa, um restaurante que apenas serve almoços e de grande utilidade no bairro. É um restaurante de conforto. Comi entrecosto com ervilhas e ovos escalfados e bolo de bolacha. Este foi o restaurante mais útil durante o confinamento com o seu serviço take away e decidi que teria de ser o primeiro pelas facilidades de encomenda e entrega de refeições. Foi um ato de reconhecimento.
Do que mais tinha saudades numa experiência num restaurante era o facto de poder escolher um local com base na cozinha que me apetece na hora e também o ato convivial das refeições. Além de que assim, já não tenho de arrumar a cozinha em casa. Até agora os restaurantes que já visitei são nove e estão de parabéns! Não me impressionou o rigor com o qual cumprem as normas de higiene pois sei do que são capazes. O Estado devia incentivar a prática de comer fora de casa neste período. Há higiene nas cozinhas e o comportamento do serviço é irrepreensível.”

Foto: Theo Gould

Filipe Carvalho, chefe de cozinha Fifty Seconds Martín Berasategui, Lisboa

“A minha primeira refeição foi no Go Juu, em Lisboa. Comi um rolo do chefe e um combinado sushi sashimi. Optei por escolher este restaurante porque o que fazem tem muita qualidade e é um espaço onde me sinto em família. Tinha saudades do ambiente de um restaurante, de estar sentado e poder conviver e desfrutar. A experiência foi normal à parte das máscaras e dos desinfetantes. Penso que os desafios futuros passam por ultrapassar o sentimento de medo e poder desfrutar de uma forma relaxada e com a confiança de antes, e cabe a nós, restauradores, fazer de tudo para transmitir e repor esses níveis o mais rápido possível.”

Rafael Tonon, jornalista especializado em gastronomia, Porto

“A minha primeira refeição foi no Gazela, no Porto. Comi cachorrinhos e uma dose de batatas fritas bem acompanhados por um príncipe. Estava mesmo saudoso de comer fora, de caminhar pelas ruas. Desde que cheguei ao Porto, os cachorrinhos tornaram-se uma paixão minha, faz-me sentir mais conectado afetivamente à cidade. Tinha saudades de me sentar à mesa, ser atendido, ouvir o burburinho na sala. Há algo nos restaurantes que é o facto das pessoas estarem a fazer suas refeições privadas (nas suas mesas) num lugar público que me encanta. É uma grande confraternização de desconhecidos que eu estava a sentir uma imensa falta nestes tempos de distanciamento social. A experiência da refeição foi ótima, ainda que um pouco estranha. A ideia de sair de casa remonta voltar às ruas para uma realidade que nos foi privada nos últimos meses. Mas a realidade que temos de enfrentar agora é um bocado diferente. No Gazela, por exemplo, os famosos balcões estavam interditos pelo que só tinham as mesas. Mas valeu cada mordida.”

Foto: DR

Inês Pereira, chefe de sala Prado, Lisboa

“Fui ao Belmiro, em Lisboa. Comi empadas, ovos, sames de bacalhau e dobrada. Este foi apenas o primeiro restaurante entre tantos outros que quero voltar mas foi escolhido em primeiro pela compatibilidade de horários. Tinha saudades de poder olhar para uma ementa e ter dificuldade no que escolher porque quero comer tudo! Saudades de partilhar essas experiências com amigos e também de trocar ideias com as pessoas do meio. Saudades do serviço e da comida! A experiência foi tranquila. Para além da máscara e da mesa ser montada depois de me sentar, não sinto que tivesse sido uma experiência completamente fora do normal. Como chefe de sala de um restaurante estou muito feliz de poder voltar ao ativo (mesmo que a meio gás). No Prado, queremos oferecer uma experiência ainda mais atenciosa com medidas de segurança redobradas mas também espontânea para que o medo não esteja presente.”