Já há muito tempo que Júlio Pereira e o seu pai, Martinho, como é carinhosamente chamado pela família, têm o hábito de reunir alguns amigos à mesa para juntos degustarem um prato. É na Carvoeira, Ericeira, que a Caneja d’Infundice tem fama. Mas nem todos a percebem. É que o seu cheiro e sabor são intensos, devido ao processo de maturação. Mas como? Explicamos de seguida.

Reza a lenda que na Ericeira, durante um difícil período de fome, um pescador se esqueceu de um peixe dentro do barco, enrolado em panos, durante uns dias. Como os filhos tinham muita fome, optou por cozê-lo e toda a gente se regalou com a iguaria. A tradição ficou e hoje, a caneja, peixe da família do tubarão, é apanhada, lavada em água do mar, cortada em postas e enrolada em panos limpos – que devem ser mudados a meio do processo. Por último, é guardada em sacos de papel até chegar à maturação certa para ser cozida. Essa mesma maturação pode ir até aos 15 dias. “Nunca comi mais do que esse tempo. O peixe que vou servir hoje tem dez dias”, confirma-nos o pai de Júlio Pereira que de vez enquanto, experimenta fazer o mesmo procedimento com outros peixes, inclusive a raia.

O dia de sol contrasta com a altura do ano e deste peixe, em especifico. Não há um tempo exato para o seu consumo, apenas se sabe que pertence aos meses mais invernais. Normalmente, a família Pereira organiza este convívio da caneja por volta do mês de março. Desde sempre que a comem. “É uma comida que se aprende a gostar”, diz o patriarca da família. Com os convidados presentes, já está tudo pronto para se dar início à cozedura do peixe que além de água leva sal, louro e alho. Antes disso, o chefe da Quinta do Furão, na Madeira dá a cheirar peças a cru a quem se atreva. Suporta quem quer. Júlio fecha o pano e dá ao pai que volta a colocar a iguaria na panela. Fogo aceso. E daqui a dez minutos já se pode comer.

O tempo passa a correr e, já sentados, é tempo de colocar todos os elementos no prato, a batata, o ovo e as couves e depois, regar bem de azeite e vinagre, como manda a tradição. Mesmo à frente de cada prato, está o mesmo copo de vinho cheio e uma fatia de pão para a coisa escorregar melhor. A primeira garfada é uma explosão que não se está à espera. O ardor enche a boca e sobe até à garganta. O sabor do amoníaco está lá presente, a cada lasca. “O ano passado o sabor estava mais forte”, comenta Júlio Pereira enquanto vai servindo os restantes convidados. De facto, esta não é uma iguaria para todos. Aliás, esta família, aquando do convite para o almoço, costuma aconselhar os estreantes a trazerem uma lata de atum no bolso, caso a coisa corra mal. Este não é afinal um prato que se encontre nos restaurantes. No entanto, nos últimos anos, esta iguaria tem recebido especial atenção com a criação de uma confraria própria e de um festival local.

A refeição demora mais tempo do que o habitual. E o copo aparece sempre vazio. Ajuda mesmo. A coisa enfim chega ao fim e não há bem um consenso para os estreantes quanto à caneja diz respeito. E ainda há um arroz doce e umas filhoses da autoria da mãe de Júlio Pereira para experimentar. Mas a pergunta que fica no ar talvez seja a resposta. “Então e para o ano provamos a caneja de 12 dias de maturação?”.