Habituamo-nos a pensar que o fim próximo, aquele que um dia chega, há-de mesmo chegar e, por isso, afastamos as ideias funestas, como a de um dia estarmos perante vós a escrever sobre isto.
Li hoje o chefe Henrique Leis lamentar esta morte e, à hora que procurei, a notícia era fake new, rumores. Ao ponto que chegamos. Alguém morre, outrem faz uma notícia falsa, desmentindo-a. Afinal não? Infelizmente sim.
Morreu Paul Bocuse, desapareceu o último papa da gastronomia. Ele que foi a cara mais evidente da Nouvelle Cuisine, o movimento contra a repetição das receitas de sempre, da bíblia que Auguste Escoffier ofereceu ao mundo. A segunda metade do século XX ficaria marcada por esse acto. Está por ver no tempo a importância que os movimentos seguintes tiveram, no imediato, a geração de Bocuse, ele e mais meia dúzia de nomes, a maioria desaparecida, interrompeu um longo ciclo. Implementou o menu degustação nos restaurantes e foi alvo de crítica por causa das pequenas porções, quando o que estava em causa era a multiplicidade de pequenas porções. Valorizou a sazonalidade, no acertar das cozeduras e no fim dos molhos que disfarçam. A coisa fez escola e a França seguiu forte no seu papel de referência gastronómica. É injusto acelerar na importância que fortes somos todos, porém o facto é que foi àquele país que se foram inspirar gerações sucessivas de chefes que viriam a marcar o mundo.
Vi-o em Lyon, em diferentes anos, activamente e depois apenas figura passageira no concurso com o seu nome. É um momento magistral. O homem é anunciado, a sala gela e depois vibra em palmas. É o Papa da gastronomia. Os flashes estalam, as bandeiras dos países agitam-se.
A cidade de Lyon está mais pobre. Relembro bem João Soares, enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa, quando ambicionava a chegada das estrelas Michelin, no período posterior à York House ter deixado de a ter. Contava aos jornais que, aquando da visita do presidente da Câmara Municipal de Lyon, este lhe apresentara a personagem mais importante da cidade, um cozinheiro. Paul Bocuse, o seu nome. O mítico chefe da capital gastronómica de França, um dos pais da Nouvelle Cuisine, o homem da tatuagem com o galo símbolo de França, da vida com duas famílias, do concurso com o seu nome. Aquele que, hoje, nos deixa.
*o autor não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico
