Entre Portugal e Brasil não há fome que não dê em Fartura

Fartura é o nome da plataforma que quer unir Portugal e Brasil à mesa, através das semelhanças encontradas nos seus produtos e receitas. Percorrer o país de lés a lés é a missão do projeto idealizado por Rodrigo Ferraz.

O que difere a galinha ao molho pardo da galinha de cabidela, a moqueca da caldeirada, ou a feijoada à brasileira da feijoada à transmontana? É esta a pergunta base da plataforma Fartura – Comidas do Brasil, um projeto criado em 2012 e que agora chega a Portugal, para dar a conhecer a portugueses e brasileiros, que, muito mais que o idioma, é mesmo a gastronomia que une os dois países.

A ideia para este projeto começou no âmbito da associação de Rodrigo Ferraz (ex-gestor de restaurantes e bares em Belo Horizonte) ao Festival de Gastronomia Tirandense [1998], em Minas Gerais — a convite do seu criador, Ralph Justino. “Fiquei encantado com a cadeira produtiva da gastronomia brasileira [que encontrei]. Era possível conhecer a região, os produtores, os produtos. Depois, um mercado de produtos e a interação com o consumidor final. Então resolvi criar a plataforma e contar uma historia como um todo”, explica o responsável. “Não faz sentido uma pessoa sentar-se numa mesa e não saber a origem do prato que vai comer. E quando isso atinge todas as camadas da sociedade passa a ser um movimento, uma causa.” Passa a ser o Fartura.

Em termos práticos e depois de muito estudo, Rodrigo e a equipa dedicaram-se a percorrer todos os estados do Brasil — fizeram cerca de 70 mil quilómetros — “para identificar os componentes dessa cadeia produtiva”. Trocado por miúdos, começaram a fazer uma lista dos ingredientes, receitas e pessoas que iam encontrando pelo caminho. Esses resultados eram posteriormente mostrados no Festival de Gastronomia Tirandense. “Foi um sucesso incrível. Os próprios locais, por vezes, não conheciam os produtos que apresentávamos e que estavam à sua volta”, declara Ferraz. O conteúdo era tanto que depois de lançarem pequenos filmes e (quatro) livros — além de divulgarem tudo o que encontravam no seu site oficial — decidam alargar o espetro do seu público e começar a fazer pequenas feiras noutras cidades brasileiras, como Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo, Belém e Brasília. “Foi aí que decidimos criar a marca Fartura, que simboliza a riqueza do Brasil. É como o Brasil fosse um continente e cada estado, um país”, explica. Além de várias demonstrações de cozinha, o evento conta uma montra de produtos, workshops, exposições, concertos, entre outros. “Para quem gosta de gastronomia é uma verdadeira Disney”, brinca Rodrigo.

Ariane Malouf, chefe do Mahalo, em Mato Grosso é uma das visadas nos mapeamentos dirigidos pela plataforma Fartura. Aqui, numa demonstração de cozinha em Lisboa. Foto: Manuel Martins

Este trabalho de mapear produtos e produtores, conta o responsável, é sempre constante e não se esgota. A prova disso é o alargamento do projeto para Portugal — um dos países que mais influência tem na gastronomia brasileira. “Queremos mostrar as conexões que existem entre os dois países  e aproximá-los pela sua gastronomia. É uma oportunidade económica e cultural para ambos”, justifica. O ano passado, a equipa Fartura (do qual também fazem parte Patrícia Tavares e Luiza Fecarotta) visitou Portugal e fez um pequeno itinerário — idealizado por Teresa Vivas, a curadora lusa do projeto — por restaurantes como o Belcanto, a Tasca da Esquina ou o À Justa, todos localizados na capital portuguesa. Já este ano, em maio, voltaram para conhecer a Herdade dos Coteis, a Quinta do Medronheiro e o Queijo Serra da Estrela, cujos produtos vão figurar na expedição do Fartura sobre Portugal — ainda sem data de lançamento no site da plataforma.

Vítor Sobral, Justa Nobre, Hugo Brito, Ana Moura e João Rodrigues — que também se dedica a mapear produtos portugueses através da plataforma ‘Matéria’ — foram alguns dos convidados do primeiro evento oficial na iniciativa em Lisboa,  que decorreu dias 16 e 17, na Time Out Lisboa. Aos “nossos” chefes, juntaram-se ao longo dos dois dias para conversas e demonstrações de cozinha, os brasileiros Felipe Gemaque (Pará), Bel Coelho (São Paulo), Ivan Prado (Ceará), Ariani Malouf (Mato Grosso), Caetano Sobrinho (Minas Gerais) e Carlos Kristensen (Rio Grande do Sul).

“[Portugal] é um país pequeno em termos físicos mas muito rico a nível gastronómico. Há muito para pesquisar”, diz Rodrigo que deixa no ar a ideia de fazer um festival por cá. Num futuro muito próximo, o responsável garante que vai continuar a levar chefes lusos ao Brasil e vice-versa. Aliás, em 2019, revela que vai inaugurar da Casa Fartura, onde vai ser possível ver o trabalho que a plataforma tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos. Por lá, conta ainda que pretende organizar alguns encontros e jantares, para receber chefes portugueses e continuar a fomentar esse encontro entre os dois países irmãos.

Alguns dos intervenientes da acção do Fartura na Time Out Market, que juntou chefes portugueses e brasileiros. Foto: Manuel Martins

Alguns dos intervenientes da ação do Fartura na Time Out Market, que juntou chefes portugueses e brasileiros. Na foto, Luiza Fecarotta e Teresa Vivas separam os chefes Caetano Sobrinho e Justa Nobre. Foto: Manuel Martins

Por |2018-11-26T19:22:39+00:0010:17, 21/11/2018|

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