Vítor Sobral nasceu em casa, numa terra chamada Cavadas. Decorria o ano de 1967. Os pais, assim como os seus avós, eram naturais de Melides. Considera-se, na sua linhagem, o primeiro alentejano a nascer fora do Alentejo. Apesar de viverem no Seixal, à mesa da família estavam sempre presentes produtos alentejanos, trazidos da herdade que mantêm em Melides. Era lá que Vítor, nas suas férias, se deixava fascinar pelo cultivo da terra, pelo cheiro e sabor genuíno de cada alimento.

Em casa, todos cozinhavam bem. Homens e mulheres. Com sete anos, Vítor começou a mexer nos tachos e panelas, aventurando-se nas artes culinárias; aos oito anos, desmanchava porcos e vacas nos talhos e nas matanças do Alentejo e, antes de completar a escola primária, já sabia que, um dia, queria ser cozinheiro. A mãe incentivava-o e Vítor passava horas na cozinha, a treinar o paladar, misturando ingredientes e sabores. Aos fins-de-semana, criava pratos para os amigos. Nessas festas em sua casa, a boa comida não faltava e o pequeno cozinheiro somava um clube de fãs à sua volta. Já na altura, valorizava uma mesa farta, cheia de gente. A cozinha significava também uma forma de afirmação e diferenciação perante os outros. Uns tocavam guitarra, outros cantavam ou dançavam, Vítor cozinhava.

Em casa, todos cozinhavam bem. Homens e mulheres. Com sete anos, Vítor começou a mexer nos tachos e panelas, aventurando-se nas artes culinárias; aos oito anos, desmanchava porcos e vacas nos talhos e nas matanças do Alentejo

À direita, Vítor Sobral com os pais.  À esquerda com 12 anos, já a pensar cozinha

A curiosidade pelo mundo e por outras culturas despertou-lhe cedo o gosto pelas viagens. De mochila às costas, Vítor passou por diversos países da Europa. Eram férias de aventura, com amigos, mas que acabaram por lhe desvendar todo um mundo de provas e contacto com diferentes produtos e sabores. Tinha então 16 anos e um interesse enorme por aprender mais.

Após ter completado os estudos obrigatórios, os pais aconselharam-no a seguir Direito, na universidade. Já nos seus tempos de estudante, Vítor se envolvia em diversos projetos, como o teatro ou o jornal da escola, e todos lhe previam um futuro promissor a nível académico. Porém, os seus interesses eram outros e o jovem, determinado, estava disposto a seguir o seu sonho.

Um dia um amigo da família, ex cozinheiro profissional, que, aos fins-de-semana, organizava grandes banquetes, convidou Vítor Sobral para o acompanhar em alguns desses eventos, com a esperança de que o jovem, em contacto com a vida dura diante dos fogões, se desmotivasse. Porém, essas empreitadas surtiam o efeito contrário. Vítor sentia-se encorajado por ter a oportunidade de estar integrado numa equipa e aprender com ela. Num desses certames, o cozinheiro cortou-se numa mão e foi para o hospital. Sozinho com um grupo de mulheres, Vítor acabou por comandar todos os preparativos para a festa. Essa experiência acabou por lhe confirmar as suas potencialidades sobre pressão. A sua vida passou a ser encaminhada para a cozinha.

Um dia um amigo da família, ex cozinheiro profissional, que, aos fins-de-semana, organizava grandes banquetes, convidou Vítor Sobral para o acompanhar em alguns desses eventos, com a esperança de que o jovem, em contacto com a vida dura diante dos fogões, se desmotivasse. Porém, essas empreitadas surtiam o efeito contrário.

No início da sua vida profissional: a juventude aliada a uma grande força de vontade

O próximo passo foi tentar entrar na Escola de Hotelaria de Lisboa. Os testes correram-lhe bem, mas não foi aceite. Como veio a desconfiar pouco depois, não tinha os contactos adequados. A sua entrada na profissão acabou por se fazer através de um curso que frequentou da ARESP, ministrado nos próprios restaurantes. Vítor foi colocado num restaurante da Baixa, onde a prática real lhe mostrou como se movimentava e organizava o mundo da cozinha. A socialização entre os cozinheiros, as desavenças entre a sala e a cozinha, a falta de conhecimento ao cozinhar e outros segredos nem sempre agradáveis de se desvendar.

Entretanto, abrem as inscrições para a Escola de Hotelaria do Estoril. Sendo a formação de base considerada fundamental como ponto de partida para um cozinheiro, Vítor faz novamente os testes de admissão. Desta vez, a sorte muda e entra no curso Food & Beverage.

A sua vida profissional inicia-se no restaurante Iate Ben, em Carcavelos, como segundo cozinheiro. Esteve lá um ano e, de seguida, vai para o Alcântara Café, um restaurante que começava a afirmar um novo conceito de restauração. A aposta passava por introduzir o serviço à americana, em enormes pratos que faziam, nessa altura, a diferença. Metódico e organizado, Vítor rapidamente subiu a sub-chefe e, mais tarde, assume as rédeas da cozinha. A perspicácia e a dedicação tornaram-no num dos mais jovens e prometedores chefes de cozinha.

Metódico e organizado, Vítor rapidamente subiu a sub-chefe e, mais tarde, assume as rédeas da cozinha. A perspicácia e a dedicação tornaram-no num dos mais jovens e prometedores chefes de cozinha.

Entretanto, em 1992, Vítor torna-se sócio de uma empresa de catering que vai chefiar a cozinha do Gare Marítima de Michel. A nível empresarial, o negócio não vingou, mas o restaurante Gare Tejo, foi uma experiência que se revelou muito positiva para o chefe. Durante este tempo, Vítor Sobral teve, inclusive, a oportunidade de frequentar diversos cursos de especialização na escola de pastelaria de Lyon, na Lenôtre e na Alain Ducasse Formation.

No ano seguinte, o jovem vai trabalhar para a cozinha do hotel Sofitel, onde ficou dois anos. Foi um período de grande enriquecimento profissional, graças às condições de trabalho oferecidas que lhe permitiram continuar a apostar na sua formação internacional.

Em 1995, Vítor Sobral passou para o outro lado do Atlântico e esteve dois meses no Brasil, a trabalhar em São Paulo. Deixou-se encantar pela cozinha regional brasileira e nunca mais parou de visitar o país. A nível pessoal, foi também uma fase conturbada da sua vida. Apaixona-se por uma brasileira e esse amor fá-lo pensar em mudar de país. Mas acaba por voltar a Portugal. O chefe vem reabrir o Rock City. Foi uma temporada de grandes jantares a um público descontraído, sempre em alta.

Em 1995, Vítor Sobral passou para o outro lado do Atlântico e esteve dois meses no Brasil, a trabalhar em São Paulo. Deixou-se encantar pela cozinha regional brasileira e nunca mais parou de visitar o país.

No ano seguinte, torna-se num dos seis sócios do Café-Café. Este espaço, aberto graças ao empenho do chefe, veio agitar as noites da capital. Mas, por detrás daqueles que têm sucesso, está quase sempre uma boa equipa. Da cozinha saíam diariamente pratos ousados, de qualidade gastronómica irrepreensível, face ao elevado volume de refeições servidas. Porém, as divergências entre os sócios instalaram-se e, ao fim de um ano, a sociedade desfaz-se.

A Cervejaria Lusitana foi o projeto seguinte de Vítor Sobral. Um restaurante feito de raiz pelo chefe, que lhe deu grande prazer pôr de pé e cativou o público. Até à data, foi o lugar onde melhor conseguiu materializar os seus projetos profissionais. Contudo, desentendimentos com a entidade patronal, fazem o chefe mudar, mais uma vez, de rumo.

Depois de um percurso de sucesso em algumas casas de prestígio, Vítor Sobral decide criar uma empresa de consultoria e serviços. O projecto abrangia várias áreas da restauração, como consultoria a restaurantes e indústrias alimentares, caterings, organização de certames, festas e eventos temáticos e cursos de culinária. Passou a trabalhar para clientes como a TAP, a Portugália, a Miele ou a Central de Cervejas.

Depois de um percurso de sucesso em algumas casas de prestígio, Vítor Sobral decide criar uma empresa de consultoria e serviços. Passou a trabalhar para clientes como a TAP, a Portugália, a Miele ou a Central de Cervejas.

Os primeiros tempos na cozinha e o marcante estágio na prestigiada escola Lenôtre, em Paris

Seguiu-se a abertura do restaurante do Clube de Golfe da Bela Vista, em Lisboa. Mais um sucesso e, três anos depois, no coração da baixa pombalina, abre o restaurante Terreiro do Paço. A ocupar parte do antigo Paço Real da Ribeira, este restaurante sobressai pela cozinha portuguesa de autor.

Em 2009 abre um espaço em Campo de Ourique, chamado a Tasca da Esquina que tem feito sucesso junto dos clientes. É um espaço em que pretende reforçar o seu estilo de cozinha mas adaptado ao dia-a-dia citadino e que evidencia os petiscos portugueses, sempre confeccionados com matérias-primas de referência.

Vítor Sobral tem desenvolvido uma carta que respeita a cultura gastronómica e os produtos tradicionais. Ousado e consistente, prova que a grande cozinha é possível a partir de ingredientes tipicamente nacionais. Para o chefe é importante saber exatamente de onde vem o porco, o borrego ou a vitela. Por outro lado, há na sua cozinha a afirmação de uma atitude inovadora através de novas experiências. As viagens constantes são as respostas para a preocupação de experimentar e transmitir novas emoções.

Vítor Sobral tem desenvolvido uma carta que respeita a cultura gastronómica e os produtos tradicionais. Ousado e consistente, prova que a grande cozinha é possível a partir de ingredientes tipicamente nacionais.

Ao longo da sua carreira, foi-se dedicando sempre a outras apostas paralelas, como programas de televisão e livros de cozinha, mais de uma dezena. Foi também um dos primeiros profissionais a dar aulas de cozinha a amadores em Portugal e tem desenvolvido uma atividade académica na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Para Vítor, a notoriedade atinge-se com muito suor, empenho, determinação e com muito sacrifício pessoal e de toda uma equipa que o acompanha há anos.

A profissão de comandar uma cozinha exige grandes responsabilidades. A dedicação é de corpo e alma. Desgastante por um lado, mas aliciante, por outro. Sobretudo, Vítor salienta sempre o orgulho e o privilégio de fazer aquilo que gosta. Em casa, na sua ou de amigos, o chefe não foge ao fogão. A cozinha é eleita como um lugar de prazer e de realização.

Muito frontal e contestatário, o chefe tem sido também uma voz crítica perante a situação da gastronomia nacional. As “guerras” travadas ao longo dos anos têm sido muitas e a evolução do país lenta.

Em 2009, abre o seu primeiro restaurante Tasca da Esquina. Sempre junto dos amigos e sócios Luís Espadana e Hugo Nascimento

Os políticos, os empresários da restauração, os meios de comunicação, todos têm a sua quota parte de responsabilidade pelo “atraso”. Apesar das dificuldades, Vítor Sobral conseguiu impôr-se a uma sociedade conservadora, em que o papel dos cozinheiros não era encarado de uma forma muito nobre. Foi um dos primeiros chefes a começar uma tendência na cozinha contemporânea, que de alguma forma fez arrancar uma revolução culinária em Portugal. Nem sempre tem travado as suas lutas de forma pacífica como gostaria. Revoltado com algumas atitudes do setor com as quais não concorda e não se identifica, houve um período inclusive em que se forçou ao isolamento para preservar os seus valores. Agora, Vítor Sobral está mais tranquilo. Continua a debater-se em prol da valorização pela cozinha e do respeito pelos produtos portugueses, mas sabe que não é possível mudar o mundo.

Continua a debater-se em prol da valorização pela cozinha e do respeito pelos produtos portugueses, mas sabe que não é possível mudar o mundo.

Profissionalmente tem conquistado todos os objetivos que, ao longo dos anos, se tem proposto. O reconhecimento pelo trabalho do chefe é incontestável. Em 1999, é considerado o Chefe do Ano pela Academia Portuguesa de Gastronomia e, em 2006, recebe o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, entre outras distinções. Desde que iniciou a sua vida profissional, é um dos chefes nacionais mais solicitados para certames internacionais de cozinha. Tem divulgado a cozinha portuguesa e os produtos portugueses pelo mundo fora. O mais importante continua a ser proporcionar as melhores refeições a toda a gente. E nunca perder o prazer e o amor à profissão.

O mais importante continua a ser proporcionar as melhores refeições a toda a gente. E nunca perder o prazer e o amor à profissão.

Hoje é a cabeça do grupo homónimo que detém os restaurantes Tasca da Esquina (2009) – uma em Lisboa e duas no Brasil, em São Paulo (2011) e João Pessoa (2014) – a Peixaria da Esquina (2015), também na capital portuguesa. Entretanto, em 2014, abriu a Taberna da Esquina e, em 2016, a Padaria da Esquina, ambas em São Paulo. No mesmo ano, inaugurou o Balcão da Esquina, no Mercado da Ribeira, em Lisboa.

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