Júlio Pereira é o chefe executivo do Choupana Hills. Era, melhor dizendo, já que o seu posto de trabalho foi consumido pelas chamas no terrível incêndio na Madeira a meio de agosto de 2016.
As férias tinham acabado no dia anterior, Júlio sabe naturalmente que há incêndios na ilha mas está longe de imaginar que vindo em horário repartido, num ápice alguém vai começar a gritar: ‘evacuação, evacuação!’. Não estando naquele momento o fogo à vista, invade-o uma estranheza que aumentará na meia hora seguinte. É preciso entrar em ação. Desde o apoio a hóspedes até tentar salvar o que for possível, vale tudo enquanto não chega da polícia a ordem de evacuar.
Para trás ficou a luta, a ideia de que podia ser possível o uso dos sistemas de anti incêndio do hotel, poder controlar e acabar mesmo com as chamas à volta, não tivesse acabado a água. A cozinha começou a arder ali à frente. Aquele arbusto de metro e meio fez a ligação e num ápice um deck de madeira ao lado da cozinha, pegou fogo. Impotentes perante a natureza e a mando da autoridade, a equipa desce em direção ao Funchal.
A azafama é muita, o céu escuro, os carros dos bombeiros em força e o povo aflito. Há uma língua de fogo que vem da serra em direção ao mar. O Choupana Hills, com 14 anos de diferenciação na oferta madeirense, está nesse caminho de fogo. O fogo que queimou tudo, incluindo os livros e o computador do Júlio, só tendo poupado uma pequena parte deste ex paraíso no meio do mato.
Júlio Pereira é rapaz viajado e vivido. Tem cerca de meia dúzia de aberturas no seu CV mas nunca tinha tido um fecho. Ao dia de hoje, duas horas do seu tempo e da sua equipa são passados a vigiar os bungallows que conseguiram escapar ao fogo. Enquanto o Choupana Hills não voltar a ser o que era, o que demorará mais de um ano, o chefe de cozinha conta fazer, fora de Portugal, algum estágio de cozinha mais prolongado, vem ao Risco a Lisboa e ao San Sebastian Gastronomika, em Espanha.
Toda a gente na equipa conhece alguém que ficou sem casa, há um plano para diminuir ao máximo o impacto do incêndio no turismo, a principal atividade económica da ilha da Madeira. Pouco a pouco a vida voltará ao normal no imenso poder de superação que temos todos quando outra coisa não pode acontecer.
