“Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), o atual desperdício alimentar nos países industrializados ascende a 1,3 mil milhões de toneladas por ano, suficientes para alimentar as cerca de 925 milhões de pessoas”, é sob este mote que Isabel Soares fundou a cooperativa Fruta Feia. “No final de 2012 apercebi-me que havia um desperdício alimentar muito grande devido à aparência da fruta. Está contabilizado em 30% daquilo que é produzido pelos agricultores. O facto de haver esse desperdício alimentar tão ilógico indignou-me e deu-me vontade de fazer alguma coisa e arranjar uma maneira de canalizar esses produtos desde os agricultores até àqueles consumidores que não julgam a qualidade pela aparência”, conta.
Isabel ganhou o concurso ‘Faz – Ideias de Origem Portuguesa’ da Fundação Calouste Gulbenkian em parceria com a Cotec, que apoiava projetos de portugueses a viver no estrangeiro, em junho de 2013. “Voltei para Portugal para implementar este projeto e em novembro de 2013 a Fruta Feia arrancou”, refere.
Hoje, tem cerca de 3000 consumidores e 7000 em lista de espera. “Tal como eu pensei na altura, muita gente acha que não faz sentido mandar fruta ou legumes para o lixo só por razões estéticas. E isso nota-se na quantidade de consumidores que temos e também no perfil que eles têm. Temos pessoas dos 18 aos 80 anos. Temos pessoas muito pobres e pessoas muito ricas, não há um perfil de consumidor. É uma ideia tão lógica que muita gente se revê nela”, explica.
Desde que começou, a Fruta Feia já abriu sete pontos de entrega e tem ajudado cerca de 110 agricultores a escoar as frutas e hortícolas que não conseguem vender por não possuírem o calibre exigido pelas grandes empresas. A organização já evitou que 450 toneladas de frutos fossem mandados para o lixo. Contudo, e ao contrário do que Isabel pensava, o mais difícil foi encontrar os agricultores, já que “eles não acreditavam na veracidade do projeto”. Por outro lado, os consumidores aderiram rapidamente e, “em menos de uma semana tínhamos mais de 100 pessoas já inscritas. O modelo de negócio inicial era para arrancar com um grupo de consumo pequeno, de 40 pessoas, por isso, tivemos de redimensionar tudo”, conta a fundadora do projeto.
“Se perguntar aos agricultores sobre a fruta é unânime entre eles, que quanto mais pequenina mais doce. Só que a pequenina não se vende”. Todos os dias de manhã a equipa da cooperativa Fruta Feia recolhe, junto dos agricultores, os produtos que estes não conseguiram vender por uma questão de estética. Depois são montados dois tipos de cabazes diferentes: “O pequeno tem sete variedades, custa 3,5€, e tem entre três a quatro quilos. O grande tem entre seis a oito quilos, cerca de oito variedades e custa 7€. Os cabazes variam todas as semanas sempre em função da época do ano e daquilo que os produtores não conseguem escoar devido à aparência. E também o cabaz no Porto e de Lisboa é diferente”, explica.
É possível fornecer estes produtos para restaurantes, ainda assim, seriam estes que teriam de se deslocar aos pontos de entrega: “Nós podemos fornecer restaurantes desde que eles se adaptem à logística da Fruta Feia, porque a nossa atividade principal é montar cabazes para os consumidores em pontos fixos da cidade. Se os restaurantes tiverem possibilidade para se deslocarem até lá para levantarem a sua encomenda é uma ajuda extra que nós estamos a dar aos agricultores”.
A Fruta Feia foi o único projeto português selecionado para os 100 que se apresentaram à COP21, na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que apoia propostas que colaboram contra as alterações climáticas na europa. “Dentro dos 100 foi-nos atribuído o prémio de 15.000€ da embaixada que nos permite aumentar o nosso impacto e abrir mais pontos de interesse”. Isabel espera conseguir, no futuro, abrir outros pontos de entrega, ajudar mais agricultores e acolher mais consumidores na rede de entregas.
Para ser consumidor basta inscrever-se no site. Para ver os pontos de entrega da Fruta Feia clique aqui.
