Bira dos Namorados

Janeiro. Dia longo que já vem de Lisboa. Estação de Comboios de Braga. Tenho um Alfa às 20h07. Estou ao telefone.

19h15

Desligo e telefono para o meu amigo César. Pelo tom de voz percebo que não tem o meu novo número, explico. Explico ainda que tenho um comboio daí a 50 minutos e que queria comer alguma coisa boa — boa — antes de partir. Ele é arguto, foca-se, escolhe logo, é uma pregaria, mas está difícil explicar, é no centro. Diz-me só o nome, eu encontro. Dá tempo para comer e voltar. Dá na boa.

19h17

Pergunto a uma pessoa, depois a outra. Ali à frente vire à direita, caminhe até ao arco, lá pergunte outra vez. Faço isso tudo, pergunto, subo, pergunto mais, depois perguntam-me a mim pelo Campo das Hortas, pergunto ainda mais, encontro. Neste caminho tive vontade de parar 7 vezes, sempre em casas muito bem arranjadas, onde a pedra por fora dá o tom certo de friagem em torno do cabelo, e por dentro parece haver fogo, bom-gosto, comida. Braga está cheia de cantinhos de estar apetecível, muito mais do que eu me lembrava. Lembro-me a mim próprio que por aqui se come bem e muito e muito bem, mas o tempo é curto e o César foi muito claro. Bira.

19h28

Um casal de namorados beija-se em frente à ementa afixada à porta. A porta está fechada, e um cozinheiro sorridente diz-me algo do tipo sete e meia, que eu não oiço mas adivinho. Olho para o relógio, são 19h28, um cliente confirma que eles estão quase a abrir. Espero, pedindo licença aos namorados para espreitar a ementa. Para minha surpresa, o que as cores alegres da casa já pareciam indicar é verdade. Este não é um tasco antigo com uma qualquer receita de uma tia-avó quase moribunda, é um sítio moderno e arejado, com pregos e hambúrgueres. Vejo a lista, percebo que há algo nestas combinações, e o César conhece-me.

19h30

Abre a porta e explico que tenho um comboio. Asseguram-me que tudo dependerá da minha velocidade de mastigação. Fico descansado, eu sei que sou rápido. Negoceio rapidamente um prego, escolho o Ciranda: carne grelhada, sal e pimenta, alheira grelhada, bacon, rúcula e manteiga de alho, pão ciabatta com mistura de sementes. Peço médio-mal. Para beber hesito, dizem-me que a limonada não tem muito açúcar, aceito. Espero.

19h33

Aproveito a espera para confirmar se o caminho mais rápido para a estação é mesmo o da vinda. É, 10 minutos. Mas espero pouco, chega um pratão quadrado com um prego de bom porte, chips bem fritos de batatas e batata-doce, salada temperada. Trazem-me 3 molhos em bisnagas de cozinha: maionese, mostarda com mel e maionese com bacon e queijo Philadelphia. Olho o prego pela secção: carne luzidia de vermelho por dentro, grelha na perfeição. Não há tempo a perder e já vou provando as batatas, durinhas e estaladiças. A salada tem um molho picadinho por cima, deixo para o fim. Prego: sabor forte e directo da carne, o fumado da alheira a oferecer riqueza e sedução nortenha, bacon a oferecer bacon, rúcula ocasional a dar a sua sombra amarga. Carne macia, suculenta, cada dentada um novo prazer, bisnago uma colher de mostarda no prato, ora prego ora batata. É um estilo Savora sem se notar o mel, boa mas aquém. Mais tarde bisnago o molho com Philadelphia, que boa ideia, uma maionese mais rica de sabor, mais pobre de tom gordo, a alegrar cada dentada de batata. Progrido em bom ritmo, não quero perder o trem, agora seria só culpa minha. Limonada, adequadamente quase sem açúcar, prazer puro. Bem. Bira. Segunda metade, prossigo sempre, chego ao fim das batatas, ataco a salada, rúcula, laranja, tomate cherry ocasional e o tal molhinho, devia ter prestado mais atenção. Acabo o prego a molhar cada dentada neste molhinho da salada.

Foto: Luis Antunes

19h41

Já comi. Há uma pequena patrulha de jovens empregados vestidos de cores alegres, que vão servindo a sala que se vai compondo. O moço que me deu as informações pergunta se pode levantar, pode. Café e conta, mas ainda deixo a sugestão explicitamente construtiva, mostarda de Dijon e mais mel. Jovialmente anota e afirma que será já passada para dentro. Mesmo que seja ignorada, anoto eu a atitude, é mesmo assim! Bom café, conta, troco, gorjeta.

19h45

Estou na rua a afastar mais namorados da ementa, quero tirar uma foto para me lembrar de tudo. Encasacado, encachecolado, gorreado, para enfrentar a friagem, mas já com a alma mais composta, parto. Estugo o passo, mas sem correr. Refaço o caminho e reparo outra vez na boa pinta destes restaurantes, pizzarias, casas de pasto. Braga bira.

19h53

Chego à estação. O César tinha razão, o moço tinha razão, toda a gente tinha razão. Não comi a caldeireta da tia-avó, mas experimentei um conceito novo, com gente simpática e boa comida, e cada detalhe cuidado com carinho, o preço é demolidor, isto tem potencial de expansão? Estou contente. Claro, perdi o comboio na mesma, mas isso foi por outra razão… Esqueçam, não vou contar!

Por |2018-03-16T16:31:28+00:0009:30, 06/03/2018|

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