Maxime: do cabaret para o restaurante

Outrora um famoso cabaret lisboeta, o Maxime é agora um hotel boutique que conta com um restaurante e bar homónimos. Luca Bordino é o chefe responsável por devolver ao novo espaço o ambiente boémio de antes com boa comida à mesa.

Para quem desconhecia o antigo espaço, é um mundo que agora se abre. O novo proprietário, o grupo Hotéis Real, fez questão de manter alguns pormenores de outros tempos, como a bancada de bar, logo à entrada do novo hotel boutique — segundo consta, chegou a ser uma das maiores da Europa. Na sua forma e feitio, o novo espaço é diferente do icónico Maxime Dacing, inaugurado em 1949 e inspirado no Maxim’s, um cabaret que existiu nos Restauradores no início do século XX e que fora, curiosamente, fundado pelo trisavô de José Avillez.

Ao longo da sua existência, o Maxime foi um dos meeting points para muitos artistas que, saídos do Parque Mayer, entravam para assistir e participar nos inúmeros espetáculos de dança, música ou teatro que ali aconteciam de forma diária. Raul Solnado, Simone de Oliveira, António Calvário e Fernando Farinha foram apenas alguns dos nomes que por lá passaram. Daqui a uns anos serão outros, pois de terça a quinta, continua a haver espaço para o espectáculo.

Por falar em espaço, este foi totalmente remodelado: hoje, os rasgos mais modernos de interiores, da autoria das artistas Alexandra Prieto e Diana Coelho, juntam-se aos familiares tons de branco, vermelho e dourado que adornam as paredes, bem como a alguns adereços. Pelos cinco andares estão distribuídos 75 quartos, divididos por temas: burlesque, bondage, dressing room, bar e stag.

O renovado interior do boutique hotel. Foto: DR

A sensualidade também está no prato

Quem também sofreu mudanças com a nova gerência — o espaço estava fechado desde 2011 — foi a cozinha, que agora conta com a mão de Luca Bordino, um português filho de pai italiano e mãe francesa. “Nasci em Portugal porque o meu avô paterno tinha cá um negócio e o meu pai acabou por vir trabalhar com ele”, começa por explicar o jovem chefe de 29 anos. Claro que com estas raízes, Luca acabou por vir parar à cozinha. “Tenho três legados fortíssimos em termos gastronómicos”, justifica.

E são precisamente esses três legados, bem como as experiências prévias com Igor Martinho, Chakall e a cadeia de hotéis Ritz Carlton, no Penha Longa, as principais influências de Bordino, sem esquecer as passadas em países como Singapura — onde chefiou o restaurante português Bocca —, Nova Zelândia, Indonésia, Filipinas e Cazaquistão. “Quando a diretora e o chefe executivo do hotel [Sandra Silva e Paulo Pinto] me ligaram a fazer o convite, havia muitas ideias no ar e do que podia ser o Maxime. Afinal é um espaço com 69 anos, existia peso. Resolvi então ir pesquisar o que se comia antes e jogar com isso, juntando-lhe também o meu background ”, explica o chefe.

Então,  afinal, o que era servido no antigo Maxime? “Bife com molho de café era uma das sugestões. Assim, como o bacalhau (que se tornou na cozinha de Luca num à brás — confitado, com ovo a baixa temperatura). Então decidimos pegar em ambos os pratos e dar-lhes um novo look. Não estamos aqui a reinventar nada. Só a fazer com que cliente olhe para o prato de uma perspetiva diferente”, assegura o responsável. Apesar destes clássicos portugueses, Luca também dá espaço a outras cozinhas que o inspiram, como a gastronomia italiana, com o prato de massa agnolotti com queijo de cabra, molho de cenoura, gema curada, cogumelos enoki e hon shimeji e parmesão — aquela que chama a sua “confort food” — ou a empada de pato com foie gras e cogumelos, puré de batata trufado e sala de vinagrete de champange, que puxa ao seu lado mais francês. “Este é um prato que pode ser associado a luxúria devido aos seus tons dourados. Trabalhamos a sensualidade na comida e isso pode ir desde da escolha dos ingredientes, à historia de volta do prato até aos nomes que podem ter [‘Let’s Go Tiger’, ‘Hands Of My Duck’,’ Raw Fetiche’ são alguns dos exemplos que figuram na carta].”

A segunda vertente deste restaurante — e uma das mais desafiantes para o chefe — é que todas as sextas e sábados (até 22 dezembro; a partir de 11 de janeiro estreia a segunda temporada), está incluída na experiência gastronómica um espetáculo imersivo que junta teatro, dança, música e magia e aproxima de forma inevitável, o novo Maxime ao antigo.

‘Madame Liz Bonne’, o espectáculo em cena, foi escrito e encenado por Roger Mor, autor que o ano passado levou ‘Alice no País dos Bordéis’ até à Pensão Amor. Segundo Roger, esta é uma peça que “presta homenagem à revista portuguesa e ao que foram os cabarets em Portugal”. Por um valor de 65€, os clientes têm a oportunidade ainda de degustar uma ementa surpresa, composta por um amuse bouche, sopa, um prato de carne, um prato de peixe e ainda uma sobremesa. “Os pratos são quase falados na peça. Há interação entre atores e empregados e os próprios clientes. As pessoas acabam por não se aperceber que estão num jantar porque estão absorvidos no que se passa à sua volta”, explica Luca, pronto para o primeiro sitting da noite. Luzes no palco, um novo espetáculo de canto está prestes começar.

Bacalhau à bras confitado. Ou apenas ‘Portuguese Wonderland’. Foto: DR

 

Por |2018-12-08T15:30:13+00:0014:12, 03/12/2018|

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