O Grupo Sea Me virou-se para a carne e fez nascer o Meat Me, com Tomás Pires — discípulo do francês Aimé Barroyer — aos comandos. Meat Me é um convite a uma steakhouse com carnes ibéricas, cocktails e vinhos com histórias para contar.

FICHA TÉCNICA:

Nome: Meat Me
Chefe: Tomás Pires. Dos seus já dez anos de experiência em cozinha, oito foram passados ao lado de Aimé Barroyer nos projetos Pestana Palace, The Oitavos, Tavares Rico e Grupo Olivier. A juntar a essas experiências soma ainda umas temporadas no Brasil, nos restaurantes Roberta’s e Brigite’s.
Conceito:
Um steakhouse “diferente” com carnes El Capricho.
Dica:
Às sextas e sábados, o bar do Meat Me recebe um dj para animar as noites. Nos dias que antecedem o fim de semana, pode simplesmente optar por ler um livro na pequena biblioteca localizada no final do bar, enquanto saboreia a sua bebida.
Dica extra:
Dentro de muito pouco tempo, bem a tempo do calor, o Meat Me vai inaugurar um terceiro espaço: uma esplanada com uma carta própria de comidas e bebidas.
Morada:
Rua Duque de Bragança, Largo do Picadeiro, 8. Chiado.
Telefone:
213 471 356
Horário:
Aberto de segunda a quinta, das 12h30 às 15h30 e das 19h às 00h. Sexta, das 12h30 às 15h30 e das 19h à 01h. Sábado das 12h30 à 01h. Domingo das 12h30 às 00h.

Na ideia

O esperado e há muito anunciado novo projeto do Grupo Sea Me não é, afinal, nada daquilo que se esperava. É um restaurante de carne, é certo — com um bar inserido e uma futura esplanada — mas Tomás Pires, o chefe de cozinha responsável, recusa catalogar o espaço como sendo mais um restaurante dessa tipologia. “Não acredito que sejamos mais uma steakhouse. Temos cortes de grelha, sim, mas também temos muita cozinha, com pratos clássicos. O próprio ambiente também segue essa linha e a atenção dada ao cliente também procuramos que seja diferente”, começa por explicar. Orgulhoso do seu longo legado ao lado do francês Aimé Barroyer, o chefe de 32 anos contextualiza que o encontro com os responsáveis do grupo (detentores de outros restaurantes em Lisboa como o Prego da Peixaria ou o Soão – Taberna Asiática) acabou por acontecer numa altura em que o próprio já procurava “uma certa independência”. Como queria marcar a diferença na cidade, Tomás sabia que tinha de oferecer um produto diferente e foi nessa altura que iniciou aquele que viria a ser um “longo namoro” com José Gordon, proprietário do restaurante e da quinta El Capricho, em Espanha — cujas carnes foram consideradas pelo jornal The Guardian e a revista Time, por exemplo, como uma das melhores do mundo. “Em Lisboa, eles só trabalham connosco”, conta orgulhoso. É por ter tido a oportunidade de visitar a quinta acompanhado da equipa é que o chefe diz fazer a carne da forma que faz. Afinal, “grelhar não é só grelhar.”

O bar, localizado no primeiro piso, vai buscar influências aos clássicos dos anos 20 e 30. Foto: DR

No espaço

No piso térreo, as toalhas brancas imaculadas e a posição milimétrica de copos e talheres anunciam o estilo clássico do restaurante. Ajuda a essa perceção, a cortina à entrada e os tons dourados, castanhos e esverdeados. Há um flashback de outros tempos mas estamos em 2019 e o bar homónimo do restaurante, no andar de cima, não se anuncia como um gentlemen club mas antes como um ladies and gentlemen club. Isto apesar de ir buscar influências aos clássicos bares dos anos 20 e 30.  Aqui todos bebem de igual forma e sim, as bebidas são fortes — afinal o produto-estrela do espaço é mesmo o destilado, ou melhor, os destilados. A seleção é vasta, dos whiskeys às aguardentes, todos escolhidos a dedo pelo chefe de bar, Vasco Martins, responsável também pelas cartas de cocktails: dos clássicos, esquecidos no tempo, aos de autor e ainda aos de partilha.

Voltando ao restaurante, eis um sinal dos tempos atuais: o cliente é convidado a aproximar-se na bancada onde está o “sommelier de carnes”, mesmo ao lado da cozinha aberta. Bruno Fortuna é o especialista em questão, que aconselha e conta as histórias das peças — todas de origem ibérica — ali expostas. “Tenho 20 anos de experiência a trabalhar em talhos”, diz orgulhosamente, enquanto explica que cada vez mais “as pessoas gostam de saber o que vão comer” e que ali, o cliente tem a vantagem de conhecer pormenores sobre os vários cortes: da sua origem, raça, tempo de maturação, onde o animal morreu e viveu, o seu peso e até o preço da peça que optar por escolher. As carnes do El Capricho, por exemplo, provêm de animais que são tratados de forma singular e vivem num ambiente calmo e sereno nas planícies de Jimenez, em León.

Ao chegar ao restaurante, esta é a vista principal dos clientes que desde logo conseguem ver a ação na cozinha do Meat Me. Foto: DR

Na mesa

“Sempre tive preferência por carne”, admite o chefe, que começa por explicar a divisão natural da carta entre carnes de vaca, porco e aves, bem como, as respetivas grelhas que tem à disposição, indicadas para diferentes tipos de produtos. A de churrasco clássico, por exemplo, é onde Tomás faz os legumes “porque tem mais fumo”. Na parrilla espanhola é onde confeciona a maioria das carnes, de que são exemplos o Chuleton de Boi da El Capricho, a Vazia com Osso (wagyu) do Chile e o Tomahawk de porco preto do Alentejo  — corte típico de bovinos mas que Tomás desafiou os produtores a tentar no porco, com o resultado que se vê à mesa. Já da robata japonesa, ideal para os pratos de peixe (sim, também existem), saem por exemplo o polvo barbecue ou os carabineiros e aioli picante. Mas nem tudo é grelha, também há pratos de cozinha, como a Aba de Novilho à colher, um dos favoritos do chefe: “É uma carne considerada banal, que se desfaz na boca, igual às que as nossas avós faziam na panela pressão, só que aqui no fim, grelhamos”. Ou até os clássicos Tártaro de Novilho e Bife Wellington. A acompanhar tudo isto estão as sugestões vínicas do sommelier António Roxo, que se apresentam na carta de uma forma pouco usual, divididas por produtores e não por vinhos ou regiões especificas, como é comum encontrar. Uma vez mais, a questão da origem é crucial na seleção das matérias-primas do Meat Me. Foram nove os produtores escolhidos pelo responsável de vinhos, entre eles a Quinta do Soalheiro (Minho), Luís Pato (Bairrada) ou a Herdade do Peso (Alentejo).

O Chuleton de Vaca da El Capricho. Foto: DR