Há mais vida para além de fish&chips, no que à comida inglesa diz respeito. Mas apesar do fervor gastronómico que se vive em terras de ‘sua majestade’, ainda vem à memória o ambiente pós-segunda guerra mundial, quando a cozinha inglesa mais tradicional foi sendo misturada com aquela trazida pelos emigrantes que chegavam ao país. O resultado desse ‘melting pot gastronómico’ foram receitas novas, influenciadas por ingredientes oriundos da América do Norte, China e Índia – nem sempre do agrado de todos.

Chegados à atualidade, a cidade de Londres é hoje foco de atenção e palco de grandes inovações gastronómicas, pelos melhores motivos. E por isso não é de estranhar que funcione como um íman para quem quer vingar nesta área. Os portugueses não são exceção e por isso falámos com quatro chefes, de gerações diferentes, que viram nesta capital a realização de um sonho.

“Fascinado pela mistura de culturas da cozinha inglesa”. É assim que Fernão Namura, de 27 anos, que trabalha no The Lighterman, se define. Acredita que a gastronomia britânica demorou a evoluir mas está finalmente num “bom ponto”. Uma opinião partilhada por Nuno Mendes, de 43 anos, que afirma que por lá existe um público “muito aberto a novas ideias”. O atual chefe do The Chiltern Firehouse, e proprietário da Taberna do Mercado, nunca chegou a trabalhar em Portugal. Emigrou aos 18 anos para Estados Unidos e por lá se apaixonou pela cozinha, antes de rumar a Londres.

E porquê escolher esta capital para trabalhar? Leandro Carreira, de 37 anos, e Cláudio Cardoso, de 32 anos, chegaram lá ao acaso. Ambos estavam em Inglaterra de férias quando lhes foi proposto posições no Viajante, de Nuno Mendes, e no Sushisamba, respetivamente. Leandro Carreira encontrou o chefe português no restaurante e por lá ficou até ao seu encerramento. Hoje prepara-se para abrir o seu próprio espaço. Já Cláudio Cardoso foi mais difícil de convencer, uma vez que não tinha uma boa impressão da cidade. Felizmente, habituou-se depressa à sua dinâmica e agora não se vê noutro lugar. Hoje é um dos mais talentosos chefes de Londres e imprime no Sushisamba uma fusão da cozinha japonesa e peruana (por outro nome, nikkei).

Já para Fernão Namura, sair para terras de ‘sua majestade’ foi arriscado “mas necessário”, explica o jovem chefe que se queria “aventurar”. Na altura com 21 anos, mudou-se para Londres para trabalhar na cozinha com o conhecido chefe Gordon Ramsay. Sobre a experiência confessa: “é uma cozinha pesada, cheguei a fazer 16 horas por dia. A dada altura fui-me abaixo. Mas faz parte, aprendi”. O tempo passou e Fernão Namura teve outras experiências importantes que o moldaram no cozinheiro que é hoje.

E o fluxo luso parece não ficar por aqui. “Há muitos jovens cozinheiros portugueses a aparecer por cá, como o caso do Fernão [Namura] e isso é bom. Os portugueses são dedicados e bons cozinheiros”, garante Cláudio Cardoso. “Ajudamos-nos muito uns aos outros”, completa Nuno Mendes que refere ainda existir uma grande curiosidade sobre Portugal em Londres. O chefe conta que é frequente jornais ingleses lhe pedirem guias onde comer em Lisboa. “Fala-se já muito do Douro e do Alentejo. E já não só do Algarve e de Lisboa. Eles querem descobrir o nosso vinho e a nossa gastronomia. Isso é muito bom, fico feliz”.