Em 1962, Salazar proíbe a prática da prostituição no nosso país. Bordéis de norte a sul do país são fechados e reduzidos à clandestinidade. Este é o mote para a nova peça de teatro da Pensão Amor, ‘Alice no País dos Bordéis’ que culmina numa experiência gastronómica, preparada pelo chefe Guilherme Spalk.
A história do edifício da Pensão Amor – localizado no Cais Sodré, em Lisboa – remodelado em 2011, por José Carlos Queirós, remonta ao tempo retratado na peça, da autoria de Roger Mor e encenada por Sofia de Portugal, que juntamente com Francisco Beatriz, compõem o elenco. Durante 20 minutos, voltamos à década de 60, num cenário de bordel. Oito clientes são testados e convidados a ouvir a história de ‘Alice, A Louca’, a dona do bordel – personagem que estará em dias diferentes sob a forma dos dois atores residentes. Se tudo correr bem nesta viagem, os clientes ou as futuras meretrizes – nome que pode ser dado às mulheres que praticam relações sexuais por dinheiro – passam para o próximo passo, para a sala de Guilherme Spalk. Isto claro, depois de serem devidamente verificadas as suas cédulas e respetivas inspeções médicas – na altura, eram obrigadas a ir de forma semanal. “Chiu, não façam barulho que a polícia anda ai. Sigam-me”, diz Alice.
É evidente quando há um rompimento do teatro móvel, aqui sob a forma de monólogo, para a cozinha de Spalk. Os clientes são convidados a entrar numa sala secreta e aí começa uma nova encenação, junto ao chefe e à sua equipa de três. “A Madame (Alice) é muito exigente com quem cá trabalha, por isso vamos ao primeiro momento de hoje: a beleza exterior”, diz o chefe enquanto apresenta as entradas, ou melhor, os ‘Preliminares’. Fora brincadeiras, é assim mesmo que se chama.
‘Fecha as pernas e Abre a boca’ é o nome do menu do chefe de 27 anos, que somou experiências em Portugal, no Bocca, Bonsai, Tavares Rico, hotel Intercontinental e Sea Me. Espanha, Bélgica e China foram alguns dos países por onde também passou até voltar a Portugal, em outubro do ano passado, data que aceitou ingressar no novo projeto da Pensão Amor, pensado para ser feito em formato pop-up, com uma duração de seis meses.
Voltemos à ação. Durante duas horas, ‘Fogo de paixão’, ‘Desejo carnal’ ou ‘Aquilo na mão’ são algumas das expressões alusivas aos vários momentos, com pratos “pensados e inspirados” na cozinha francesa. “Tentámos trazer cultura a todas as criações” através de “proteínas mais leves”, num menu que é harmonizado apenas com vinhos brancos. “Queremos ser diferentes e dar a conhecer ao cliente o outro lado de produtos como o linguado ou o faisão”. O empratamento, também ele cuidado ao pormenor, é feito em loiça das Caldas da Rainha, pelo ceramista Carlos Enxuto. Ali, em frente ao cliente, é um continuar da experiência que nos levou a entrar na Pensão Amor: a aprovação da Madame para fazer parte do seu grupo restrito de meretrizes no bordel. “Para esta experiência, é importante que as pessoas venham descomprometidas e sem preconceitos, prontas para duas peças diferentes, primeiro no teatro e depois na cozinha”.
A experiência entrará em cena já a partir de dia 7 de julho. Funcionará de quarta a domingo, entre as 18h30 e as 21h30. Os bilhetes têm um valor de 6€ (peça de teatro) e 69€ (peça de teatro e jantar), podem ser adquiridos online aqui.
Como projeto temporário que é, os responsáveis já estão a preparar o próximo pop-up, a inaugurar no mês de dezembro e com Guilherme Spalk também como responsável da cozinha. Até lá, é fechar as pernas e abrir a boca.
Contactos:
Pensão Amor
Morada: Rua do Alecrim, nº19
1200-014 Lisboa
Telf.: 213 143 399
Horário: Todos os dias do 12h às 3h.
