A história começa no princípio do séc. XX, quando Humberto da Silva Cardoso vendeu a sua empresa rodoviária, pioneira no transporte de passageiros na região de Palmela. Comprou três grandes herdades e construiu duas adegas, a da Quinta do Piloto e da Serra. O seu filho Álvaro chegou a ter 500 hectares de vinha e produzia quatro milhões de litros de vinho por ano. O seu sobrinho Humberto formou-se em agronomia e teve o sonho de engarrafar os seus vinhos. Seria já Filipe, filho de Humberto, a concretizar o feito. Filipe formou-se na Escola Agrária de Santarém e em Montpellier.

A Quinta do Piloto hoje

A família mantém hoje 200 hectares de vinhas, entras as quais 35 de vinhas velhas, com Castelão e Fernão Pires, 40 a 70 anos de idade, em três herdades: Lau, Fernando Pó e Agualva. Há ainda quatro hectares de Moscatel numa encosta argilo-calcária voltada a norte, o que origina vinhos aromáticos e frescos. A singular arquitectura da Quinta do Piloto impõe-se à paisagem, e oferece aos visitantes um conjunto de experiências que entre fazer, provar e beber o vinho, juntam tradições, lendas, produtos, confeções, refeições. Num dia especial, para apresentar os novos vinhos à imprensa, foi convocado o amigo e chefe de cozinha Tiago Santos, que usando quase exclusivamente produtos locais, concebeu um almoço de harmonização com os vinhos da casa. O almoço foi finalizado e servido ao ar livre, no amplo pátio da Quinta, sobranceiro à parte baixa de Palmela, num dos vértices do Parque Natural da Arrábida.

Fonte de Santo António

A visita à adega foi recheada de histórias, de detalhes, de pequenos pormenores e tradições, como a da Fonte de Santo António, que secou por os donos da quinta terem abandonado o uso de ali pedir a mão das suas esposas. Agora a fonte foi recuperada e há uma cama de ferro a servir de sofá. De mãos a história recente não fala. Mas é da vinha vizinha que vêm os Moscatéis mais frescos, para o lote final.

Os vinhos do Piloto

A família faz agora uma fama muito completa de vinhos, mister de Filipe Cardoso. Entre os melhores está um magnífico Castelão de vinhas velhas, que têm ainda um pouco de Touriga Nacional, Alfrocheiro e alicante Bouschet, feito à moda antiga e envelhecido durante 24 meses em barricas novas e velhas. O Quinta do Piloto Coleção da Família DOC Palmela tinto 2013 custa 35€, valendo cada um deles, e mostra tijolo húmido, frutos do bosque, num perfil ligeiramente rude e selvagem. Muito vigoroso, autêntico, com textura e profundidade, é longo e muito apelativo. Menos consensual o branco Coleção 2014 (21€), já algo evoluído, mas ainda se bebendo com muito prazer, especialmente com um queijo de ovelha local.

Moscatéis de luxo

Completamente consensuais os Coleção Moscatel e Moscatel Roxo, mas a preços pouco populares (respectivamente, 900€ e 650€ por uma garrafa de 500ml). São preços elevados? Sim, mas trata-se de duas soleras especiais de 10 barricas de 50 litros que a família começou no princípio do século XX. Sempre reservadas para consumo da família, foi há poucos anos que Filipe e o seu pai Humberto decidiram partilhar com os seus clientes este prazer raro: apenas 25 garrafas se enchem por ano, e a solera é completada com o vinho em falta. Prazeres raros, de longa persistência.

Enoturismo e o Castelão de Palmela

A gama dos vinhos da Quinta do Piloto merece ser conhecida, o seu evidente prazer de receber merece ser prestigiado com uma visita, para um dia em cheio. O rumo dos vinhos pode levar-nos a desaguar tão perto de Lisboa. Os rumos da quinta vão-se desdobrando em experiências, mas para este nariz a saudade do antigo Castelão é o mais fascinante, e ao mesmo tempo, o que mais urge não deixar perder.